Centro

Centro Filme Peter Azen Crítica Pôster

Festival Ecrã 2021 PôsterSinopse: Documentário que registra 24 horas do centro do Rio de Janeiro em setembro de 2019.
Direção: Peter Azen
Título Original: Centro (2021)
Gênero: Documentário | Experimental
Duração: 1h 11min
País: Brasil

Centro Filme Peter Azen Crítica Imagem

Ecrã Street View

Centro“, mais nova produção do realizador Peter Azen nos leva ao Rio de Janeiro de 2019, o último ano da era sem máscaras e da aglomeração sem culpa. Sua seleção para a quinta edição do Festival Ecrã não parece surpresa, o cineasta já havia apresentado no mesmo ano em que captou as imagens “Calidris” (2019). Contudo, o mosaico criado por ele não soa mais do que uma visão particular sobre um território. Aplicar uma leitura demasiadamente extensiva sobre isso pode levar a uma frustração desnecessária ao espectador que carregou de expectativa sua sessão virtual.

Não são poucos os pesquisadores e criadores de imagens que as relacionam com a ex-capital federal. Uma cidade de desenvolvimento e crescimento desordenado, que não soube curar suas feridas e baseou parte de suas belezas tendo a destruição como premissa. O patrimônio histórico carioca é um caso único para os estudiosos e sua força atrativa para acadêmicos, pensadores e artistas “daqui” (já que a Apostila de Cinema também é RJ) garante uma boa dose de Rio nas telas a cada ano.

Centro” foca em um território que tem textura de decadência e cheiro de clássico – em um visual que lembra um canteiro de obras interminável. Assim como acontece nas igrejas – e são muitas, como o próprio Arzen observa. O filme reúne um conjunto de fotografias, montadas com a adição do som das ruas. Boa parte na sedutora região da SAARA (um nome-sigla que remete à Rua da Alfândega e ao estabelecimento de comerciantes árabes), onde a primeira metade da obra se foca. O cineasta não privilegia a busca pela estética padronizada, faz as captações de forma espontânea e possível – no meio de um espaço que o público que o conhece sabe ser caótico. Por sinal, parte de nossas considerações foram colocadas em texto quando “Subterrânea” (2020) foi apresentado na Mostra Tiradentes – e que nos levou a conversar com o diretor Pedro Urano.

Sendo assim, imagens tremidas, elementos de difícil identificação e reflexos de movimentações parecem simular um Google Street View com o experimentalismo que apenas um festival como o Ecrã possibilita. Na particularidade do olhar de seu criador, não parece ter uma lógica nem na escolha e nem na cronologia das imagens. Não guarda relação com o que seria uma rota, nem uma atratividade por objetos e muito menos de personagens, incluindo a arquitetura. Uma sensação que parece se confirmar quando, nos momentos finais, elas ressurgem de forma randômica – levando a crer que da primeira vez também foram assim.

O distanciamento temporal, apesar de curto, traz impacto. Dois anos após Azen tecer sua criação, aquele Rio de Janeiro não existe mais. O que se inicia com a simulação do início de um dia e o comércio abrindo, hoje ganha atmosfera de uma crise ainda maior, quando olhamos as portas cerradas daquelas lojas. Ou seja, apesar de ser uma construção de memória muito jovem, já carrega consigo uma áurea saudosista por força das circunstâncias. Digo isso lembrando que “trabalho” na mesma rua Buenos Aires a qual se passa os primeiros minutos de “Centro” – mas por lá não circulo há um ano e meio.

Há momentos em que o aspecto de turismo arquitetônico ganha forma, envolvendo o majestoso e apertado Real Gabinete Português – e Peter mostra o quão complicado é conseguir um bom enquadramento tendo como base as mesmas pedras portuguesas na qual a barata coadjuvante de “Sombra” de João Pedro Faro tão bem circula. Assim como a parte final, da Lapa e da Pedra do Sal, um conjunto de borrões que a despojada e imprevisível noite carioca permite. “Centro” é fragmentado, um produto exótico de seu tempo – de pilares de resistência como Cine Iris, Bar Luiz, Confeitaria Colombo e Cavé. O que mudará são os sons onipresentes, reflexos da tecnologia e das necessidades de cada época. Talvez a Globo permaneça, como na despedida de Sandra Annenberg do Jornal Hoje – porque onde há uma TV ligada para o vazio, será ele o canal sintonizado.

Até que Pedro Arzen chega em determinado momento ao MAM, reduto da Cinemateca onde o próprio festival ocorreu na segunda e terceira edição – e todos esperam que para lá retorne em 2022. Um filme que traz um olhar particular sobre um tema de repercussão tão geral, que para muitos já soa repetitivo. Porém, para seus moradores, exilados e felizes visitantes, uma folha em branco para textos apaixonados sobre o Rio de Janeiro.

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Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.

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