Sinopse: O retorno cinematográfico do fenômeno global, “Downton Abbey – O Grande Final” acompanha a família Crawley e seus empregados enquanto entram na década de 1930. Quando Mary se vê envolvida em um escândalo público e a família enfrenta problemas financeiros, toda a casa corre o risco de cair em desgraça social. Os Crawley precisam aceitar as mudanças, enquanto a equipe se prepara para um novo capítulo, com a próxima geração conduzindo Downton Abbey rumo ao futuro.
Direção: Simon Curtis
Título Original: Downton Abbey: The Grand Finale (2025)
Gênero: Drama | Filme de Época
Duração: 2h 3min
País: Reino Unido | EUA

Magia e Decadência
“Downton Abbey – O Grande Final” encerra a trilogia cinematográfica que transportou para as telonas a série britânica de sucesso produzida entre 2010 e 2015. Particularmente, nunca achei que os longas-metragens eram, na prática, episódios especiais (ao contrário daqueles transmitidos na Inglaterra no Natal, entre temporadas), Também nunca comunguei da tese de que as representações são elitistas ou romantizadas em relação ao conflito de classes. Pelo contrário, acho que – no modo inglês de pensar – o assunto é muito bem explorado através do conjunto de lançamentos.
Para além do registro de memória afetiva – e de, finalmente, se despedir do grupo de personagens que tornaram a experiência de acompanhar a franquia por quinze anos, seis temporadas e três filmes, o longa-metragem também ressoa um pouco a forma como o cinema é consumido atualmente. Talvez esse seja o grande ponto de afastamento do público-alvo da produção, aquele que aceitaria sair de casa e pagar o ingresso para assistir em tela grande àquela história.
Para além da forma como a obra constrói sua narrativa, chama inicialmente a atenção o trabalho de direção de Simon Curtis, o mesmo de “Downton Abbey – Uma Nova Era” (2022), bem menos inspirado do que o trabalho de Michael Engler em “Downton Abbey – O Filme” (2019).
Por sinal, na minha crítica à época do lançamento do primeiro filme tratei da forma eficiente como o conflito de classes é articulado para repelir qualquer viés de romantização, ao mesmo tempo em que aprofunda as histórias das personagens e amplia a riqueza visual que só uma sessão em tela grande permitiria. Além disso, era um produto que não precisava se valer de cânones ininteligíveis, sem afastar o espectador-médio, ao mesmo tempo que entregava ao público fiel o que eles esperavam.
Já no comentário sobre o segundo filme, “Downton Abbey – Uma Nova Era” (2022), marcada como a produção que me levou de volta às salas de cinema após o período pandêmico, o considerei bem menos universalista e bem mais uma obra de nicho, usando a zona de conforto como muleta para desenvolver as situações. Enquanto isso, no terceiro filme, algumas escolhas dentro do roteiro de Julian Fellowes (criador da série) destoa das convenções criadas pela franquia.
“Downton Abbey – O Grande Final” precisa verbalizar, sente a necessidade de conduzir o espectador a uma proposta de leitura das suas cenas. Coloca na boca das personagens o que sempre materializou com olhares, marcações de cena, montagens, figurino e direção de arte. Enfim, abre mão de boa parte da riqueza de elementos audiovisuais, algo que fez sua trajetória na TV e no cinema ser tão marcante.
No derradeiro filme, a família Crawley precisa fazer nova adaptação à sua realidade. Nos anos 1930, a urbanização crescente tornou ainda mais custoso uma propriedade como Downton. Eles são cada vez menos influentes e afastados das possibilidades que seus privilégios permitiriam em um local como Londres, cenário onde a obra tem início. Se no segundo filme, a possibilidade de produção de um filme trouxe a modernidade ao território, agora são as personagens que sentem provocadas a se inserir (e, de fato, viver) uma nova era.
Mais uma vez a base dos conflitos se dará pelo choque geracional da nobreza de segundo escalão, cada vez mais decadente e irrelevante, com o grupo de trabalhadores, tanto do vilarejo satélite da abadia quanto dos funcionários da residência. No primeiro filme, a visita da Família Real foi o grande elemento de aproximação entre patrões e empregados, imbuídos na ideia de mostrar (ou resgatar) a honra de Downton. Já no segundo longa-metragem, a permissão de filmar o que seria umas das primeiras produções faladas do Cinema, transportou (finalmente) parte da modernidade do século XX para aquela residência.
Isso colocava em cena novos agentes, permitindo que os protagonistas fossem aprofundados pelo texto. Não apenas como desenvolvimento retilíneo, mas a partir de evoluções e mudanças em suas personalidades e trajetórias. No terceiro filme, o pouco desenvolvimento também é uma carência, apesar de se fazer presente em algumas personagens.
A própria ideia de sucessão de empregados não faz muito sentido em meio ao avanço das cidades e à Grande Depressão. Andy (Michael C. Fox) não tem muito o que aprender com o Carson (Jim Carter) porque as funções são outras, acumuladas e em menor escala. Assim como a passagem de bastão de Patmore (Lesley Nicol) para Daisy (Sophie McShera). Não há dezenas de funcionários e mesa cheia de patrões para alimentar todos os dias. O mundo e as tradições não existem mais, tirando o peso da aposentadoria desses agentes.

Em “Downton Abbey – O Grande Final” o ponto de partida não é o castelo que iniciou todos os episódios e filmes anteriores. Uma quebra de expectativa comum em grand finales, tirando o público da zona de conforto e tornando aumentando a ansiedade pelo retorno a Downton. Conde de Grantham (Hugo Bonneville), Lady Mary (Michelle Dockery) e família estão em comitiva com os empregados vivendo férias na residência em Londres. Uma ambientação diferente, nos levando à cidade grande do final dos anos 1920, na esteira da Grande Depressão. Ali, não apenas os problemas envolvendo a propriedade se acentuam (ela é grande, deficitária e com problemas a serem resolvidos), mas também a manutenção do distanciamento entre as classes parece ser percebido apenas pelos trabalhadores.
A trajetória da franquia chega ao fim porque não há mais nada a ser contado a nível territorial. A evolução daquele castelo gigante não existirá mais e qualquer decisão visando manter a importância de uma família fragmentada soará desespero. Lady Edith (Laura Carmichael), irmã de Mary, há anos está radicada em Londres como escritora. Tom Branson (Allen Leech), viúvo de Sybil (Jessica Brown Findlay), a terceira irmã que morreu ao final da terceira temporada, vive um segundo casamento distante daquele lugar.
Se na crítica sobre o segundo filme reclamei do afastamento de Tom, pois ele cumpria uma importante função de questionar o tradicionalismo e as convicções da família, aqui ele é abandonado de vez. Assim como o casal Anna (Joanne Froggatt) e John Bates (Brendan Coyle), que mais uma vez não possuem o tempo de tela digno dos desafios que passaram para estarem ali.
Com a morte de Violet (Maggie Smith), seu filho, o Conde Grantham, se torna o patriarca, porém ocupando a mesma figura decorativa da mãe. Aliás, a ausência da atriz, que faleceu em setembro de 2024, é muito sentida não apenas pelo alívio cômico, mas pela falta de parceira que torna o destino criado para Lady Isobel (Penelope Wilton), como organizadora da festa do vilarejo mais impactante – e agora tornando esse plot um pouco subaproveitado – apesar da importância para os rumos daquela sociedade na parte final. Assim como a presença de Paul Giamatti no papel de Harold, irmã de Cora (Elizabeth McGovern). O eterno coadjuvante de Hollywood acaba se tornando “coadjuvante do coadjuvante”, já que sua função acaba por ser uma escada para Gus (Alessandro Nivola), golpista norte-americano.
Em suma, apenas Mary tem capacidade e força para administrar o espaço. O roteiro de Fellowes, então, traz o grande conflito do filme, ao mostrar a protagonista no dia seguinte à conclusão de seu processo de divórcio. A demonstração de que o choque geracional nunca é tão simples como a leitura entre conservadores e progressistas. A aceitação da “condição” da personagem não virá apenas pelo recorte da idade. Dependerá da massa crítica da sociedade formada pela classe trabalhadora e os artistas. O texto, todavia, precisa formular a todo instante esses planejamentos que levarão à uma nova emancipação de Mary. Ou seja, abandona algo que as produções anteriores de Downton Abbey construíram de maneira bem mais interessante.
Mas por que dessa vez isso acontece? Não existe uma resposta certa ou definitiva. Minha sugestão é de que o Cinema cada vez mais precisa “abrir mão” da atenção do espectador. Assim como uma novela a cada cinco ou dez capítulos precisava resgatar e explicar alguns pontos para não perder o público desatento (ou que perdeu um dia ou outro), os filmes parecem comprar a ideia de que que duas horas de sessão é tempo demais para a plateia inquieta, tanto em casa quanto nas salas. Os melhores momentos do longa-metragem são aqueles em que ele refaz os passos que tornaram a obra original um sucesso.
Dois exemplos de conflito de classes e choque geracionais acontecer quando Thomas Barrow (Robert James-Collier) está jantando à mesa e Carson entra pela porta da frente, aposentado de certa maneira a ideia de uma “dependência de empregados”; e quando Conde Grantham conhece o (luxuoso e espaçoso) apartamento à venda em Londres e precisa ser apresentado ao conceito de vizinho.
Essa é uma franquia que sempre apostou no deslumbre visual das cenas de planos abertos, com postura demarcada do elenco, dos detalhes dos grandes salões ou da vista da propriedade com as diversas configurações ao longo dos anos. Também se valia do jogo de olhares, nas intenções que marcavam as dezenas de relações entre personagens plurais. Houve um tempo em que a verbalização, por sinal, era evitada entre as diferentes classes, como se o século XVIII, data da construção da residência, fosse alcançado pelo século XX.
É verdade que, no início da década de 1930, com o Ocidente afundado em crise, aquela propriedade não tinha mais o poder de encantamento de outros tempos. Porém, aquelas pessoas são as mesmas e muitas delas no ocaso de sua existência. Rever seus conceitos e até parte de seus comportamentos, o que se tornou a grande mensagem da obra, é válido.
Porém, “Downton Abbey – O Grande Final” foi além e quis se adaptar ao audiovisual com o qual ele nunca esteve alinhado, contrariando até parte da sua essência. Talvez por isso sua passagem no Cinema não tenha a mesma força das duas produções anteriores, até porque é um público-alvo dependente de indicações e do boca-a-boca (época em que nossos amigos e os aludidos “formadores de opinião” eram a versão primitiva do que chamamos hoje de influenciadores).
“Downton Abbey – O Grande Final” não provoca tanto quanto seu material antecessor, fazendo com que o próprio texto sobre ele seja mais pobre. Mas é claro que, ao final, o peso da despedida é grande. A montagem de Adam Recht (o mesmo de “A Nova Era”) se ancora na parte final do roteiro de Fellowes e sufoca o espectador com a mais profunda memória afetiva, no fan service tão esperando na conclusão quanto a quebra de expectativa do início. A ponto de conseguir o maior objetivo de produções como essa: a de juntar dor e tristeza pelo fim, com a vontade de retornar em algum momento para a magia de um lugar cada vez mais decadente, mas ainda assim encantador.
Veja o trailer:

