Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria post thumbnail image

Sinopse: À beira de um colapso, em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” Linda precisa lidar com a doença grave da filha, o marido ausente, uma pessoa desaparecida e uma relação cada vez mais absurda com seu terapeuta.
Direção: Mary Bronstein
Título Original: If I Had Legs I’d Kick You (2025)
Gênero: Drama | Comédia | Suspense
Duração: 1h 53min
País: EUA

Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria Imagem do Filme

Culpa e Exaustão

O ano começou bem nas salas de cinema, com a estreia de “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, mistura de drama e comédia escrita e dirigida por Mary Bronstein. No filme, Rose Byrne vive Linda, uma mulher em esgotamento físico e mental em suas tentativas diárias e ininterruptas de não surtar. Sua atuação está muito cotada ao Oscar de 2026 após ser premiada no Festival de Berlim do ano passado. No momento da publicação do texto ela está indicada ao Critics Choice (a ser entregue hoje) e ao Globo de Ouro (a ser entregue na próxima semana).

Sua filha tem uma doença rara que a mantém viva mediante uma sonda que leva ao seu organismo os nutrientes necessários. Seu marido trabalha embarcado, em viagens que duram cerca de oito semanas, tornando-o ausente. Seu emprego em clínica psiquiátrica apresenta desafios como outra mãe a ponto de se entregar e um paciente obsessivo. Seu colega de trabalho se mostra um analista pouco acolhedor.

O que seria a gota d’água é, na verdade, uma infiltração de grandes proporções no apartamento da família. Com a casa inundada e um buraco que ocupa todo o teto do seu quarto, Linda e a filha precisam se hospedar no quarto de um hotel barato, no estilo daqueles de beira de estrada em que tudo pode acontecer (de “Florida Project” a “Psicose”). A obra irá se arrastar, já que os empreiteiros responsáveis não aceitam a autoridade da protagonista e levam o trabalho no ritmo que querem.

Há um leque impressionante de temas que a narrativa de “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” permite abrir. A cineasta escolhe tornar o espectador um cúmplice tão sufocado quanto a personagem principal. Boa parte das cenas limitam nosso olhar ao rosto de Linda e o restrito campo de visão perturbado que ela possui. Sua filha, interpretada por Delaney Quinn e o marido Charles (Christian Slater) são rostos ausentes, sendo acompanhados apenas pelas vozes. Talvez o principal mote do filme seja a ideia da culpa, gestada pela protagonista.

Em alguns momentos, Bronstein insere nas representações e nas falas de algumas personagens a leitura de que Linda não tem culpa pelo que está passando. Desde a infiltração, até a doença da filha. Só que, enquanto aquela que sofre as consequências dos acasos da vida, é muito difícil acreditar que tantos problemas são casos fortuitos tal qual uma forte tempestade que te encontra na volta para casa. A protagonista precisa agir como a resolvedora dos problemas e carregar a culpa é, também, uma escolha.

Afinal, as escolhas da vida não são antecedidas por uma visão do resultado prático que elas geram. Linda se apaixonou por Charles, construiu uma família, montou sua casa, fez a sua carreira e – sobretudo – definiu seu padrão de comportamento. Você pode dizer que este padrão, a forma de agir diante dos desafios da rotina, também foi definido por tudo o que ela passou. É verdade, mas, não esqueça, carregar a culpa é parte do processo de não surtar.

A maneira como a nova iorquina Mary Bronstein trabalha tudo isso em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, produção da A24 filmada em menos de um mês, é inspirada (ou absolutamente brilhante, como diriam seus conterrâneos). A atuação de Rose Byrne é digna de todos os elogios e prêmios que vier a receber, mas destaco também o trabalho de Conan O’Brien, terapeuta curiosamente não nomeado, assim como a filha da protagonista. Ele introduz um tipo de pessoa cada vez mais comum na sociedade: aquela que prioriza os seus problemas e ignora que os dos outros também podem ser os seus (e com tendência a piorar nas próximas gerações). Com o agravante de que ele é um psiquiatra.

Na cena que materializa essa maneira de agir da contemporaneidade, Linda precisa lidar com o sumiço de sua paciente Caroline (Danielle Macdonald), no meio de uma sessão. Ela deixa para trás seu filho de alguns meses, o que faz com que a protagonista entre em contato emergencialmente com o marido de Caroline para reportar a situação e passar o endereço da clínica para buscar a criança. O diálogo ao telefone impressiona, é parte da dramédia envolvente do filme, ainda mais por ser possível acreditar que aquela situação possa existir. O homem diz ao telefone que é Linda quem deve levar seu filho ao trabalho dele, afinal, aquela “não é a sua emergência”.

A narrativa encontra suas nuances dentro da sequência de intempéries em crescente, aliada à incapacidade de surtar da protagonista. Ao final do primeiro terço do filme, há um leve desvio para o caminho do desespero da personagem. Ela passa a entender porque sua filha, na cena inicial, aponta como grande diferença da sua mãe para o pai a flexibilidade. Como resolvedora de problemas, assumir a culpa não é a única tática, pois se adaptar também é fundamental. A ponto de, em determinado momento, ela estar longe de acertar o dia do mês que está vivendo ao tentar marcar uma reunião com a médica interpretada pela própria diretora e roteirista.

Só que Linda é alguém exausta e fincada em bases muito frágeis. O que mais incomoda em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” é que tudo parece que vai ruir a qualquer instante, mas nunca acontece. Uma grande crise que fizesse o corpo e a mente da personagem parar de vez, obrigatoriamente, seria um acalanto. O terço final parte da ideia de um vídeo que ela assiste no celular e que trabalha a conexão com o próprio corpo, além de desenvolver uma relação com James (A$AP Rocky), vizinho de quarto do hotel. Aqui Linda entende que também não é dona de si, suas escolhas são condicionadas e nunca ao seu prazer.

As saídas de madrugada para beber enquanto ouve pelo rádio transmissor a filha dormindo e a revolta genuína com o marido usando seu “tempo de folga” embarcado para ir ao jogo de beisebol são alguns exemplos. É uma luta muito desigual, aquela mulher não tem mais forças para continuar e nem mais armas para utilizar. Por outro lado, o pai outrora ausente pode surgir a qualquer momento na figura de salvador, criando uma ideia de fraqueza e neurose exacerbada por parte da mãe.

Agradeço por Bronstein ter tornado a provável via crucis da culpa em um estalo na porta do quarto do hotel. Quem já lidou com situações de esgotamento sabe que o dia seguinte da cena final de Linda será muito difícil, dada a total incapacidade de acolhimento de todos que estão em sua volta. Confesso que torcia para uma conclusão mais redentora para a heroína de “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”. Só que não foi nesta sessão que o Cinema foi capaz de apresentar um conto de fadas. Testemunhamos, na verdade, uma obra perturbadoramente conectada com a vida real.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.