Sinopse: Em “Jovens Mães”, Cinco jovens mulheres — Jessica, Perla, Julie, Ariane e Naïma — vivem juntas em um abrigo para mães adolescentes na região de Liège, Bélgica. Cada uma enfrenta, à sua maneira, as consequências de uma maternidade precoce, tentando cuidar de seus filhos enquanto encaram o peso de suas próprias ausências e feridas.
Direção: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
Título Original: Jeunes mères (2025)
Gênero: Drama
Duração: 1h 45min
País: Bélgica | França

Uma Velha Questão
Após vencer o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes de 2025 e ser o indicado pela Bélgica ao Oscar na categoria de filme internacional, chegou aos cinemas brasileiros no primeiro final de semana de 2026, “Jovens Mães”, nova obra da filmografia dos irmãos Dardenne. O filme propõe apresentar a trajetória de cinco adolescentes em suas maternidades precoces, apontando alguns dos desafios a serem enfrentados neste cenário.
O longa-metragem foi assistido em sessão dupla com “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” (2025) e é interessante apontar como a protagonista da produção dirigida por Mary Bronstein se mostra cronicamente presente e dedicada (mesmo que, em muitos momentos, questione parte desta devoção) em oposição ao grupo de meninas menos convencidas do fato de estarem preparadas para serem mães. O texto de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne subdivide questões que a obra estadunidense concentra em uma personagem, utilizando uma montagem mais próxima do documental.
De certa forma, “Jovens Mães” lembra um pouco o reality-show da (agora) finada MTV, “Jovens e Mães” (2009-2021). O contexto norte-americano, tanto de sociedade quanto de apoio estatal e familiar, é similar com as histórias contadas pela produção belga. Por outro lado, os irmãos Dardenne repetem suas fórmulas temáticas e de narrativa que parece soar como uma zona de conforto para os realizadores. O filme é bem parecido enquanto proposta com “A Criança” (2005), por exemplo, filme que rendeu a segunda Palma de Ouro aos realizadores, há exatos vinte anos.
Apesar de ter passado tanto tempo (e nunca assisti-lo novamente), a ideia de maternidade e paternidade precoces é repetida, ao ponto do próprio título do filme de 2005 dar conta tanto do bebê quanto da dupla de protagonistas, aos nossos olhos também crianças. Também se repete os dilemas entre os desejos das personagens e atitudes socialmente reprováveis, atraindo questões como aborto ou entrega do filho biológico para adoção de pais com melhores condições de criá-lo. Mesmo assim, acredito que jovens cinéfilos possam ter a mesma sensação daqueles da Velha Guarda ao assistir ao longa-metragem sem tantas informações sobre os Dardenne.
Em “Jovens Mães” há duas personagens que se destacam entre as cinco. Jessica (Babette Verbeek) está grávida e para decidir se deixará a criança no Serviço Social para adoção precisará lidar com o próprio passado, visto que ela foi abandonada quando bebê. Já Perla (Lucie Laruelle), por nunca ter conhecido o pai, está preocupada com o desinteresse do namorado e segue firme na intenção de construir uma família mais tradicional, ao ponto de renegar a ideia da monoparentalidade feminina.
Transitando entre elas, no ambiente de acolhimento do Serviço Social, está Ariane (Janaina Halloy), uma jovem que precisa deixar a casa da mãe para não ter que lidar com o padrasto (ou pai) abusivo. O filme explora menos esta personagem, apesar do mesmo potencial dramático de Jessica e Perla, não esclarecendo, aliás, se ela chegou a ser violentada e se esse seria o motivo pela cogitação do aborto, algo que entrou também na discussão das outras meninas.
Naïma (Samia Hilmi) tem apenas uma cena de destaque, mencionando o fato de ter sido expulsa de casa, com representações que aparentam que a religião pode ter sido um fator determinante. É até curioso ter sido incluída no grupo de cinco (e não quatro) protagonistas. Tirando ela, que não parece ter tem tempo de tela suficiente para análise, vale o registro do excelente trabalho de todas as atrizes.
Também é relevante na narrativa como, para além dos recortes de classe, as formas de acolhimento podem definir como aquelas histórias terminam. Chegamos, então, no contraste da quinta adolescente representada, Julie (Elsa Houben). A história dela aparenta mais estabilidade, mas também sofrerá alguns baques, sobretudo pelo vício em drogas. Será pelo olhar dela a lição de que é possível ser diferente, mas as outras personagens revelam a tendência de ser igual.
Os temas abordados em “Jovens Mães” chamam atenção não apenas por estarmos diante de um país europeu, apontado por muitos como nação de Primeiro Mundo, como se problemas sociais não existissem na Bélgica. Por sinal, este é o grande legado de realizadores como Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Ken Loach (premiado em Cannes em 2016 com “Eu, Daniel Blake”), dentre outros. Em relação a isso é fundamental a curadoria dos principais festivais europeus, ainda dando espaço para esses discursos, mesmo que com pouca variação de emissores. É um clube fechado, mas poderia ser ainda pior em tempos tão sombrios.
Todavia, vale a pena refletir que os circuitos de festivais europeus e de exibição de “filmes de arte” mudaram bastante ao longo dessas duas décadas – assim como suas plateias. Diante disso, a abordagem dos Dardenne soa até um pouco envelhecida, em virtude das novas maneiras de representar a realidade e questões sociais como a maternidade precoce de maneira tão mais crua quanto profunda. Não que esta experiência não seja uma boa opção no manancial de lançamentos esquecíveis, mas acredito que “Jovens Mães” estará longe de ser destaque na filmografia dos belgas.
Veja o trailer:

