Artigo | Crueza Contemporânea
Os Diferentes Incômodos de “Manas” e “Ainda Estou Aqui”
Iniciando uma série de artigos em janeiro de 2026 que reflete sobre algumas obras de destaque do ano passado, aproveitando mais um “clima de final” da torcida brasileira com a entrega do Globo de Ouro no próximo domingo, é hora de revisitar “Manas” (2024), produção nacional dirigida por Marianna Brennand e no momento disponível no GloboPlay.
Com uma lista de respeito entre os produtores associados (Sean Penn, Walter Salles, os irmãos Dardenne, dentre outros), o longa-metragem fez carreira nas salas de cinema e circuitos de festivais carregada de honra, com passagem por Veneza e prêmios tanto na Mostra SP quanto no Festival do Rio. O filme conta a história de Marcielle (Jamilli Correa), adolescente de treze anos e sua vida sem perspectiva em uma comunidade ribeirinha da Ilha de Marajó.
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Audiovisual de Campanha
Com um currículo invejável e a certeza de que “deu certo” a partir da repercussão de público e crítica, teve início no final de 2025 uma campanha para que “Manas” fosse o escolhido para representar o Brasil na categoria de melhor filme internacional no Oscar. Um movimento que usou o discurso de “filme necessário” e tomou conta das redes sociais a partir de publicações de personalidades do cinema, incluindo Julia Roberts, que organizou uma exibição especial em Hollywood e disse que o filme mudou sua vida; e Fernanda Torres, que – na esteira do boom de engajamento pós-Oscar – teve que “se retratar” após a repercussão boba pela postagem.
Houve quem polemizou a campanha, como se não fosse direito dos envolvidos criar uma comoção em cima do longa-metragem. Acusações de boicote a “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, opção mais promissora e óbvia em um ano de grandes produções no Cinema Brasileiro, incluindo o premiado com o Grande Prêmio do Júri do Festival de Berlim “O Último Azul” (2025), de Gabriel Mascaro.
A ideia de não escolher “O Agente Secreto” foi comparada com as decisões de 2017 (“Pequeno Segredo” no lugar de “Aquarius”, esta sim política e absurda, pós-golpe anti democrártico que levou Michel Temer à Presidência) e de 2020 (“A Vida Invisível” no lugar de “Bacurau”, esta por apenas um voto e de maneira mais transparente, merecendo ser afastado o tabuleiro político). A questão com “Manas” era muito mais sobre as forças envolvidas na campanha pós-escolha da Academia Brasileira de Cinema. Mas também é uma questão que envolve a linguagem das obras e certa fórmula de sucesso em um ambiente como o do Oscar.
Mesmo que “O Agente Secreto” repita o êxito da campanha “Ainda Estou Aqui” (2024), quase tão bem-sucedida quanto a de “Parasita” (2019), único filme não falado em inglês a vencer como melhor filme, ainda estou cético de que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood dará uma segunda estatueta para o mesmo país de forma consecutiva. Aqui, sim, será uma questão política, mesmo que diferente do contexto brasileiro.
Só que o longa-metragem de Kleber Mendonça Filho não é nosso assunto hoje.
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Audiovisual do Incômodo
“Manas” é, sim, um filme necessário. É uma expressão cansada nos jargões da crítica, bastante over, mas ainda aplicável. Ao reproduzir a história real de uma adolescente violentada das mais diversas formas e da necessidade de auto organização das mulheres de uma família representante dos rincões brasileiros, Brennand aumenta os holofotes sobre debates cada vez mais urgentes na sociedade brasileira. Inclusive há um viés universalista, o que é raro no ambiente de um país há mais de uma década polarizado.
Contudo, a obra é política, ao se aprofundar em um território desafiador para a presença do Estado. Na Ilha de Marajó, no Estado do Pará, a população ribeirinha depende de caravanas de serviço público para conseguir algo minimamente burocrático, como a expedição do documento de identidade. Em uma das cenas, a protagonista leva a certidão de nascimento de sua irmã mais velha, maior de idade, na tentativa de enganar Aretha (Dira Paes), agente pública que comparece com frequência no local.
Por sinal, a ausência de informações sobre a irmã de Marcielle incomoda. Aqui está o ponto central que opõe “Manas” a “Ainda Estou Aqui”: a forma como os filmes nos incomodam. O vínculo com o real é muito intenso no filme de Marianna Brennand. Não apenas pela contemporaneidade da história, mas por tudo o que envolve a representação. O espectador sabe que está diante de uma obra de ficção, mas a forma de envolvimento é diferente, ao ponto dessa ficcionalidade ser mitigada pelo nosso cérebro.
Não apenas pelo que vemos e ouvimos, em “Manas” o silêncio perturba. Os movimentos cotidianos após a violência desvelada importunam o público. Há algo que precisa ser resolvido, mas a realidade ali representada, de um Estado ausente, torna para o espectador, já mergulhado na narrativa, inconcebível a ideia de impunidade do agressor.
“Manas” não deixa de seguir uma cartilha pós-moderna de produções que ampliam o Realismo Social inaugurado no cinema moderno com ferramentas de linguagem que podem ir da simples não linearidade até desdobramentos que nos aproximam da ação em mise-en-scène não apenas realista, como ultra-restrita, além do usa de sons e trilhas (ou a falta deles) para propor uma imersão fora do padrão tradicional. E que, quando bem articulados, gera profundas sensações de incômodo, por vezes até inexplicáveis pelo receptor da mensagem.
Em alguma medida, algumas conversas com outras pessoas que gostam de Cinema já me mostraram que nem todo mundo está “preparado” ou “confortável” com essas formas de representação. E tudo bem não estar. O verniz de realidade, a partir de sequências inteiras com planos utilizando câmeras na mão ou a interrupção do avanço da narrativa para solidificar, mais uma vez, situações incômodas, são alguns dos motivos que afastam parte do público de filmes como “Manas”.
O Oscar também já se mostrou aberto a esse modus operandi nos últimos anos. O grande vencedor de 2025, “Anora” (2024) por exemplo, é o responsável por uma das obras que considero das mais incômodas dentro do núcleo, digamos “mainstream independente” dos Estados Unidos. Sean Baker faz em “Florida Project” (2017) algo parecido com Brennand em “Manas”. Acompanhamos ali a trajetória de Moonee (Brooklynn Prince) uma criança exploradora que não vive o risco constante a partir da alienação parental. As duas experiências, assistindo em um intervalo de mais de cinco anos, soam bem parecidas.
Todavia, devemos ter a consciência de que esta leitura é um recorte temporal. O que incomoda hoje é a zona de conforto de amanhã.
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Audiovisual Seguro
Enquanto isso, a obra de Walter Salles se vale das convenções do Cinema Moderno, aquele que começa a ganhar vida em meados da década de 1940. A vida de Eunice Paiva (Fernanda Torres) a partir do sumiço do marido, Rubens Paiva (Selton Mello), sequestrado pela Ditadura Militar nos anos 1960, também incomoda. Entretanto, faz com uma caixa de ferramentas audiovisuais capaz de captar público mais amplo.
Entre as ferramentas audiovisuais e fórmulas que agradam a temporada de premiações, podemos mencionar o saudosismo da trilha sonora, além da direção de arte e figurinos que nos devolvem ao Brasil da época dos acontecimentos na casa da família Paiva. São elementos que dividem a atenção da plateia com o foco da trama. O público sai da sessão extremamente comovido, tocado e atordoado com a história de Eunice, mas é uma experiência muito diferente de “Manas”.
O Oscar parece ter abandonado as narrativas históricas pasteurizadas, maniqueístas e grandiloquentes de outros tempos. O que chamávamos de “filme de Oscar” nos anos 1980 e 1990, quase sempre, eram formas romantizadas de nos transportar para outras realidades e épocas, como “Ghandi” (1982), “Amadeus” (1984), “O Último Imperador” (1987), “Dança com Lobos” (1990), “A Lista de Schindler” (1993), “Coração Valente” (1995) e o mais bem-sucedido, “Titanic” (1997). Note que são produções muito distintas na ambientação, mas que soam bem parecidas na estética.
Após um período de reposicionamento, priorizando dramas estadunidenses de médio orçamento e foco em campanhas de divulgação milionárias (legado sórdido do produtor Harvey Weinstein), a ampliação e pluralidade de membros votantes, não apenas internacionalizou a Academia – permitindo que “Parasita”, “Ainda Estou Aqui” e outras produções figurassem nas categorias principais com certa frequência – como a tornou receptiva a obras menos romantizadas – permitindo êxitos como “Moonlight: Sob a Luz do Olhar” (2016), “Anora” ou “Nomadland” (2020).
Aliás, ao assistir ao filme de Walter Salles ainda em cabine de imprensa em setembro de 2024, era possível já cogitar indicações à categoria principal, algo que seria visto como piada há cerca de dez anos – mesmo em obra que se adequasse à fórmula atual de sucesso do Oscar. Passado um ano, “O Agente Secreto” parece ir pelo mesmo caminho.
O que torna “Ainda Estou Aqui” incômodo é muito mais o que está no entorno do filme do que ele em si. A lembrança do passado sombrio, a identificação com o presente, as relações familiares, a raiva ou o orgulho do país. Para outros públicos, possivelmente outros motivos. O que torna “Manas” incômodo é muito mais o que está na tela e isso gera, para uma plateia mais sensível, uma vinculação direta com o próprio filme. Com o agravante de se tratar da realidade brasileira.
Há uma parcela de espectadores cansada dos problemas de um mundo a caminho da destruição. Por mais que ame o Cinema e entenda que ali não é um local de refúgio, alguns filmes passam a ser evitados, mesmo sendo indiscutível sua qualidade técnica e relevância. Mesmo com uma questão que afeta a todos e concordando com a leitura política do longa-metragem, remete a uma realidade tão crua que alguns preferem “deixar para depois” essa experiência.
Por outro lado, ao longo do ano passado, testemunhei elogios a “Ainda Estou Aqui” por cinéfilos que comungam com boa parte do discurso da direita brasileira. Isso é, sim, mais pelas formas de representação do filme do que pela ausência de senso crítico desse ser, aparentemente, incoerente. É uma obra tão universalista, tradicional e dentro da estética e convenção de um “bom filme”, que até eles gostaram. Mais do que uma fórmula utilizada pelo autor, há um olhar treinado do público.
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