Depois do Terremoto

Depois do Terremoto post thumbnail image

Sinopse: Em “Depois do Terremoto”, as vidas de quatro estranhos se cruzam ao longo de três décadas, enquanto eles enfrentam o luto e a esperança após os terremotos de Kobe em 1995 e de Tohoku em 2011 e a pandemia de COVID-19.
Direção: Tsuyoshi Inoue
Título Original: アフター・ザ・クエイク | After the Quake (2025)
Gênero: Drama
Duração: 2h 12min
País: Japão

Imagem do Filme Depois da Tempestade 2025 Netflix

O Sapão, A Geladeira e o Guarda-Gente

Entre os lançamentos em streaming nos primeiros dias do ano, aquele que gerou mais engajamento nas redes foi “Depois do Terremoto”, dirigido por Tsuyoshi Inoue e disponível na Netflix. O filme, que atravessa três momentos fundamentais da história recente do Japão, é baseado em quatro de seis contos da coletânea que Haruki Murakami lançou em 2000, com textos publicados após o terremoto de Kobe em 1995.

Como não poderia deixar de ser, utiliza certa dose de ficcionalidade para traçar um interessante panorama da sociedade japonesa atual. A forma como é executada, como também era de se esperar, tornou a recepção pelo público dividida, muito pela falsa ideia de que existam pontas soltas, em virtude do estranhamento provocado pela parte final.

O longa-metragem tem início no ano de 1995, logo após o grande terremoto de Hanshin. Komura (Masao Okada) é um homem de meia-idade que parece viver um estável e harmonioso casamento com Mimei (Ai Hashimoto), sendo ele incapaz de ter pesadelos. Só que esta segurança familiar estava só na cabeça dele. Após alguns dias fissurada na televisão e nas notícias que ampliaram a cada instante a tragédia nacional, a esposa decide sair de casa, levar todos os seus pertences e deixar uma carta na qual estabelece que o relacionamento não terá volta. Surpreendido na volta do trabalho, o marido ainda terá que lidar com a frieza do envio de um parente advogado com a papelada do divórcio.

Mesmo sem ser atingida diretamente, a tragédia fez com que Mimei pensasse em sua própria vida e tomasse abrupta decisão. Como remédio para lidar com trauma do término repentino, Komura viaja duas semanas depois para a cidade mais distante disponível, Hokkaido. Lá ele encontra a irmã de um colega de trabalho e Shimano (Erika Karata), com a qual tem uma mal sucedida noite de amor.

Na fase inicial de “Depois do Terremoto”, o aspecto de realidade é bem profundo, à exceção de um prólogo no qual o protagonista tem a epifania de uma história sobre um sapo gigante e da ajuda de um homem para derrotar o Verme e evitar que novo terremoto atingisse a cidade de Tóquio.

Somos levados mais adiante para 2011 e apresentados a Junko (Yuri Narumi), uma jovem que foge da relação ruim com seu pai e se estabelecesse na cidade de Tohoku e que naquele ano sofreu outro grande terremoto seguindo de tsunami e acidente nuclear. Ela faz amizade com um cliente da loja em que trabalha, Miyake (Shinichi Tsutsumi), senhor que costuma acender uma fogueira na beira da praia à noite e ali permanecer até que o fogo consuma toda a madeira disponível encontrada na areia e trazida pelo mar. Um novo drama se estabelece ao descobrirmos que aquele homem carrega uma culpa que imobilizou sua vida.

Miyake saiu de casa pouco antes do terremoto de 1995 atingir sua casa em Kobe, o que fez com que sua esposa e filhos morressem e ele fosse o único sobrevivente da família. O que parece uma capítulo de transição entre dois grandes arcos narrativos do filme se mostra a sequência mais potente da obra, sobretudo pelos sonhos premonitórios daquele homem e sua morte esmagado dentro de uma geladeira. A data da última fogueira dá a entender que nenhuma daquelas personagens sobreviveu àquela noite.

“Depois do Terremoto” é fruto de uma sociedade acostumada a lidar com tragédias naturais, resultado das condições geográficas do Japão. Porém, agora estamos diante de um mundo em profunda crise climática, o que faz com que tais fenômenos destruidores sejam ainda mais frequentes. A este problema, soma-se um povo que há décadas é doutrinado para trabalhar incansavelmente e viver em espaços cada vez menores.

Desde criança leio que o país é um dos que apresentam os maiores índices de suicídios do planeta, mesmo sendo uma nação desenvolvida e tecnológica. Há alguns anos, o aumento da população mundial passou a ter uma nuance preocupante, na qual alguns países estão envelhecendo muito rápido. O Japão mais uma vez lidera as tendências mais caóticas do capitalismo, com índice de natalidade em queda mais vertiginosa do que o previsto.

É nesse contexto preocupante que traumas como o de Komura em 1995 e Miyake em 2011 se consolidam. A tragédia pessoal provocada por um terremoto acaba sendo ampliada pela forma de dedicação ao trabalho e uma busca de sucesso que o cidadão comum japonês não consegue alcançar ou sequer definir. Com isso, o roteiro adaptado por Takamasa Oe nos leva ao ano de 2020, aquele que internacionalizou traumas de quem vive um cotidiano de tragédias e, assim como Mimei em 1995, levou muitos a repensarem sua existência, mesmo sem ser diretamente atingido.

Em 2001, Tabata (Kiyohiko Shibukawa) dá uma missão religiosa à mãe de Zenya (Soya Kurokawa). Ela e o filho devem se mudar. Aqui estamos diante de uma história que transita entre 2011 e 2020, nos aproxima do Verme subterrâneo no que seria a visão e perseguição de um possível pai biológico identificado pela orelha e usa a sutileza da repetição de cenários para conectar as histórias no corredor de luz vermelha, transformando todos os protagonistas em narradores. Aqui, o espectador menos atento pode achar que assiste a mais um capítulo de transição dentro do filme.

Os mais jovens e que não viveram tão intensamente o período da covid-19 talvez não se interessem tanto, porém, as cenas em que Zenya questiona um Deus que deixa seus mais fiéis devotos sofrerem tem a força de sintetizar parte do zeitgeist pandêmico – além de uma leitura religiosa que fala em sofrimento na Terra como busca de uma salvação posterior. Uma época em que era inadmissível conceber que as vítimas eram escolhidas por um vírus que poderia levar à morte o mais rico e saudável com doses de sofrimento.

Até que chegamos em 2025, com a história de Shoichi Katagiri (Hiroshi Sato), trinta anos após ser atingido por um tiro e ficar internado em uma UTI. Três décadas mais velho, ele mora em um box de cybercafé na capital japonesa, guardando ali seus poucos pertences e roupa de trabalho em um estacionamento. Ali não é um local de moradia e sim um “guardador de gente”. Apesar do exagero estilístico, o tamanho da “casa” de Shoichi não parece tão diferente dos atuais apartamentos do Japão, mais um tempero na rotina trágica da classe trabalhadora do país e seus espaços urbanos cada vez mais caros e degradados.

É neste ponto que Inoue e Oe, baseados na obra de Murakami, utilizam o insólito ficcional para dar uma conclusão à história, conectando a mente envelhecida e lacunosa de Shoichi em 2025 com o sapão que Komura vislumbrou em 1995.

Depois do Terremoto” se encerra dedicando o filme à ancestralidade e com a sugestão de que presenciamos desde o início uma realidade forjada, criando o mapeamento social do Japão todo dentro da cabeça de Shoichi, um homem que revive seus traumas e as tragédias do país por não parecer que haja outra opção ou de Komura, um talentoso contador de histórias que transformou os dramas dos seus em poesia.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.