Sinopse: Numa mesa de bar, o velho Adoniran Barbosa conta a um jovem garçom histórias de uma São Paulo que já não existe. Lembra com carinho da maloca onde viveu com Joca e Mato Grosso, da paixão deles por Iracema e de outros personagens eternizados em seus sambas, crônicas de uma metrópole engolida pelo apetite voraz do “pogréssio”.
Direção: Pedro Serrano
Título Original: Saudosa Maloca (2023)
Gênero: Biografia | Drama | Comédia
Duração: 1h 49min
País: Brasil

Adoniranverso
Chegando na HBO Max, quase dois anos depois de sua passagem pelas salas de cinema, “Saudosa Maloca” é uma biografia de Adoniran Barbosa ligeiramente fora do padrão das biopics sem criatividade que o Cinema Brasileiro se acostumou a lançar nas últimas décadas. Escrito e dirigido por Pedro Serrano, a obra conta com um profundo conhecedor da vida do cantor, visto ser esta a terceira produção sobre o artista lançada pelo realizador, sempre carregando um tom mais crítico do que a simples apresentação linear de fatos da vida do biografado.
O longa-metragem ficcional se junta ao curta “Dá Licença de Contar” (2015) e ao documentário “Adoniran – Meu Nome é João Rubinato” (2018). Sobre o segundo, escrevi à época de seu lançamento (há quase seis anos) em crítica que você pode acessar clicando aqui. Até falei da maturidade do projeto para desenvolvimento de uma obra de ficção, o que acabou acontecendo. Entre os destaques, a maneira como Serrano explora a territorialidade os aspectos culturais de uma cidade de São Paulo que não existe mais.
É a partir deste ponto que “Saudosa Maloca” se apresenta. Adoniran Barbosa (Paulo Miklos) é um senhor que vai ao boteco de sempre e conta pílulas de sua memória para o novo garçom, Cícero (Sidney Santiago). Na cena inicial, o progresso é representado pelo som de uma britadeira, barulho que levará o espectador ao início do processo de gentrificação paulistana. Serrano, então, utiliza o talento musical do ator e ex-vocalista do Titãs para desvincular do filme a imagem clássica e saudosista do Adoniran original, surgindo em fotografias nos créditos e nunca com gravações originais de suas canções.
Essa e outras escolhas têm seus prós e contras. De fato, as críticas acerca da performance de Miklos são válidas, há irregularidade na representação e incorporação dos trejeitos de Adoniran, mesmo em atuação indicada ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2024. Sobretudo na forma de se comunicar, o sambista se tornou em um exemplo nos debates sobre preconceito linguístico nos últimos anos. Há quem não goste da escolha das músicas que permeiam a narrativa, ignorando os grandes sucessos do cantor, mas este ponto acho um grande acerto.
Outra forma eficiente de despadronizar a biografia é transformar as personagens das músicas mais famosas de Adoniran Barbosa em protagonistas das cenas de humor, formatando esquetes de comédia com Arnesto (Zemanuel Piñero) de “Samba do Arnesto”, Iracema (Leilah Moreno) da trágica música com seu nome e, principalmente, Joca (Gustavo Machado) e Mato Grosso (Gero Camilo) de “Saudosa Maloca”. São eles boa parte do legado do sambista e a verdadeira história da São Paulo de Adoniran que merece ser contada, o cronismo eternizado em música.
O documentário enxertava questões sociais e seus anacronismos, além de tratar de resgate anterior da fama do biografado e registrado nas gravações com Elis Regina. Não deixa de problematizar questões como o machismo e racismo do protagonista, primando por não ser uma biografia chapa branca. Na obra documental, demarcada pela linearidade, havia foco na figura histórica. Enquanto isso, a ficção soa mais como um complemento do que uma nova maneira de contar a mesma coisa e se utiliza do bom humor para pintar com tintas menos densas essa história
Todo progresso desenfreado, tão criticado pelo protagonista, deixa para trás parte da alma de um povo, do espírito de um território. Cícero transita naquele espaço, anos após o sumiço de Joca e Matogrosso, para mostrar que a desocupação criminosa de espaços urbanos se repetiu na Casa Verde, citando grande incêndio nas imediações de onde se localiza o Sambódromo do Anhembi, inaugurado em 1991 e exemplo da cooptação do samba quando notou-se o poder econômico desta manifestação cultural. Vale destacar também Pereira (Paulo Tiefenthaler), personagem que concentra a figura dos empresários e parte deste progresso, muitas vezes baseado em especulação imobiliária.
Com isso, “Saudosa Maloca” conclui uma trilogia de produções que resgata – novamente – a figura de Adoniran Barbosa. Tal como o compositor vivido por Grande Otelo em “Rio, Zona Norte” (1957), o poeta do cotidiano, compositor de sambas que tomavam de assalto as rodas da sua cidade, lutou toda a vida por sobrevivência. Não estamos falando de reconhecimento e sim de transformar talento em dinheiro. Não apenas isso era difícil antes do samba enquanto manifestação cultural ser cooptado, como a sociedade esmagou essa forma de vida de pessoas como Adoniran de maneira impiedosa.
Veja o trailer:

