Sinopse: Em “Extermínio 2”, seis meses depois de um vírus ter destruído um grande número de pessoas na Grã-Betanha, o exército americano declara que o perigo já passou e começa a reconstrução da cidade. Os refugiados retornam, mas um deles carrega um segredo mortal. O vírus não está morto e agora está mais perigoso.
Direção: Juan Carlos Fresnadillo
Título Original: 28 Weeks Later (2007)
Gênero: Terror | Ficção Científica | Drama
Duração: 1h 39min
País: Reino Unido | Espanha

Adaptação
O sucesso do filme de origem, tanto nos cinemas (rendendo quase dez vezes seu orçamento) quanto nas passagens por locadoras e televisões, fez com que “Extermínio 2” (2007) fosse lançado cinco anos após “Extermínio” (2002). Agora a Sony era o braço de produção, adquirindo com o produtor Andrew Macdonald os direitos sobre a obra e sua exploração, condicionada a investir em continuações. Não deu muito certo, como você verá em nossa série de críticas da franquia publicadas aqui na Apostila de Cinema.
No intervalo de apenas cinco anos entre os dois lançamentos, o impacto cultural já existia. A narrativa desesperançosa por nós citadas era recepcionada por obras contemporâneas, como “Filhos da Esperança” (2006), até hoje um dos melhores filmes deste século e de todos os tempos do subgênero apocalíptico. Aliás, o filme de Alfonso Cuarón usa algumas locações iguais as de “Extermínio 2”. A representação zumbi também havia se transformado em paródia nas mãos de um jovem Edgard Wright em “Todo Mundo Quase Morto” (2004).
Porém, tanto Danny Boyle (diretor do original) quanto Cillian Murphy (protagonista) e Alex Garland (roteirista) estavam compromissados com a produção de “Sunshine: Alerta Solar” (2007), uma tentativa de referenciar Tarkovsky e que marcou o fim da fase mais interessante da carreira do cineasta inglês. Sendo assim, a ideia original de seguir a história de Jim no 29º dia após a infecção foi abandonada. Por indicação de Boyle, o espanhol Juan Carlos Fresnadillo liderou o projeto, desenvolvendo o roteiro em conjunto com Rowan Joffe, Enrique López Lavigne e Jesús Olmo. Notas de produção informam que Garland contribuiu de forma não creditada no texto e que Doyle dirigiu sequências de segunda unidade.
Passadas 28 semanas da infecção com o vírus da raiva, não sabemos o paradeiro de Jim e Selena, par formado no longa-metragem de origem. Em “Extermínio 2” somos apresentados a Don (Robert Carlyle) e Alice (Catherine McCormack), outro casal de sobreviventes, em prólogo com flashback. Sem energia e poupando o que sobrou de comida, surge em sua casa uma criança perseguida pelos próprios pais, com o objetivo de criar espelhamento narrativo com a trama principal. Don foge do ataque zumbi, enquanto Alice fica para trás.
A tática de contextualização breve da obra anterior se mantém. Mais de seis meses após a quarentena no Reino Unido, as informações que chegam são a de que tem início uma reconstrução do país liderada pela Otan, que na nossa realidade está “indo de ONU” com as bravatas de Donald Trump querendo anexar a Groenlândia aos Estados Unidos. Porém, na ideia de globalização e multipolaridade do início do século XX, fazia todo sentido a atuação cooperativa de países do Ocidente.
Há uma esperança de que parte do território britânico foi livrado do vírus. Com isso, alguns habitantes retornam ao país para a repovoação. Todo o entorno da Isle of Dogs continuará em quarentena, isolando aquele fragmento para a retomada da nação. Assim, o sobrevivente Don recebe seus filhos, Andy (Mackintosh Muggleton) e Tammy (Imogen Poots), contrariando as diretrizes de Scarlet (Rose Byrne) que acha precoce o retorno de crianças e adolescentes para aquele ambiente.
No jogo iniciado em “Extermínio” e que nossa crítica apontou como marca registrada da franquia, os diversos antagonismos se sucedem e a inconsequência juvenil de Andy e Tammy é uma delas. O que começa com a culpabilização do pai pelo abandono da mãe durante a fuga dos zumbis, se transforma no rompimento do isolamento para que os irmãos visitem a casa onde moravam. Lá encontram Alice que, uma vez resgatada, apresenta o vírus da raiva encubado sem demonstração de sintomas.
Essa questão abre um leque de possibilidades para a saga criada por Boyle e Garland. Além disso, essa possibilidade genética dialoga de forma mais próxima com as pandemias reais, na qual a demora na manifestação de sintomas, além dos indivíduos assintomáticos, é capaz de espalhar territorialmente o vírus com maior rapidez. Essa proposta representada por Fresnadillo, inclusive citando Paris como suposto novo local de quarentena, é sumariamente abandonada pelas sequências de 2025 e 2026. Garland justificou de maneira distópica que, no mundo de Extermínio, a capital da França foi atacada com bombas nucleares para conter a raiva – e que isso não se repetiu no Reino Unido pela possibilidade de isolamento, já que não está conectado ao continente.
Mitologias à parte, o mais interessante em “Extermínio 2” é que a constante mudança de antagonismo é acompanhada das mudanças de protagonismo. Ao trazer Alice para Isle of Dogs, seus filhos acabam provocando a infecção do pai. Diferente da obra de origem, aqui há um apreço pelo desenvolvimento de drama familiar, mesmo que esse mote seja usado de forma irregular na narrativa. Como mencionamos no texto anterior, para além da normalização da morte, há o trauma de ver um ente querido se transformar no grande inimigo. Para Andy e Tammy, resta fugir do próprio pai, após a impressionante sequência de liberação do novo vírus e a matança que se segue.
Neste processo, Doyle (Jeremy Renner), nome em homenagem a Danny Boyle, assume o protagonismo a partir da visão do adulto na sala. Mais adiante, caberá a Scarlet essa responsabilidade, em um veloz processo de amadurecimento dos dois irmãos em fuga. Aliás, com participações de Harold Perrineau e Idris Elba, os mesmos nomes do elenco, caso a produção fosse hoje, tornariam o longa-metragem muito mais caro do que seu custo à época de 15 milhões de dólares.
Não podemos dizer que os 70 milhões de arrecadação foram ruins, mas talvez se esperasse uma bilheteria superior ao do primeiro filme, o que deve ter frustrado a Sony. Há muitos anos que a barreira dos 100 milhões era o mínimo que se esperava em produções desta natureza. A recepção do público também foi mais contida e talvez a remontagem com uma conclusão mais “fechada” – e dialogando com a já citada obra de Cuarón – tenha destoado tanto da proposta de “terra arrasada” da franquia quanto da maneira inconclusiva de se aprofundar no universo de um espectador ávido por continuações e material relacionado, pouco interessado em um fim por si mesmo.
“Extermínio 2” sedimenta a ideia de que há uma conexão entre humanos e zumbis que os impedem de serem simples antagonistas. Após a fuga inabalada de Andy, o clímax de tragédia grega e a ideia de que ele se tornou “um deles” deu o tom exato que Garland queria para dar continuidade a saga. Todavia, seria preciso esperar quase duas décadas, renegociar contratos e aguardar o público, pouco satisfeito à época, redescobrir a obra quando a quarentena foi para a outro lado da tela.
Veja o trailer:

