Extermínio: A Evolução

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Sinopse: Em “Extermínio: A Evolução”, já se passaram quase três décadas desde que o vírus da raiva escapou de um laboratório de armas biológicas. Agora, sob uma quarentena rigidamente imposta, alguns conseguiram encontrar maneiras de sobreviver em meio aos infectados. Um desses grupos vive em uma pequena ilha, ligada ao continente por uma única passagem fortemente protegida. Quando um dos membros parte em uma missão rumo ao sombrio coração do continente, ele descobre segredos, maravilhas e horrores que transformaram não apenas os infectados, mas também outros sobreviventes.
Direção: Danny Boyle
Título Original: 28 Years Later (2025)
Gênero: Terror | Ficção Científica | Drama
Duração: 1h 55min
País: Reino Unido | Canadá | EUA

Extermínio: A Evolução (2025) Crítica do Filme Apostila de Cinema

As Faces da Morte

Para muitos, uma das surpresas positivas de 2025 foi “Extermínio: A Evolução”, longa-metragem que retoma a saga criada por Alex Garland e Danny Boyle quase vinte anos depois do lançamento do segundo e (até então) último filme da franquia. Como mencionamos na série de críticas da franquia que a Apostila de Cinema publica, houve uma redescoberta da obra e renovação de público que permitiu que a história do apocalipse zumbi que (quase) devastou o Reino Unido voltasse aos holofotes.

Um passo importante para viabilizar o retorno às salas de cinema foi dado pela Columbia ao lado do produtor Andrew Macdonald. Ele havia vendido os direitos de Extermínio e suas continuações da Searchlight para a Sony Pictures após o sucesso de 2002. A contrapartida seria financiamentos de novas histórias do universo. Porém, elas pararam em “Extermínio 2” (2007) – que não foi tão bem recebido e não obteve o êxito esperado. Com a consolidação dos zumbis na cultura pop em sucessos como “The Walking Dead” e “The Last of Us”, somado ao anseio do público que resgatou o filme original na pandemia, as negociações avançaram e os direitos foram, em parte, recomprados pelo produtor junto com a Columbia.

A trama inicial pensada por Garland, se passando 28 meses após a infecção, foi descartada pela demora entre as produções. Curiosamente, “Extermínio: A Evolução” começa com um jogo interessante de temporalidade. Sua cena inicial, na Escócia, acontece no início da infecção, mas poderia ser anos depois. Somos apresentados ao garoto Jimmy (Rocco Haynes), que assiste à chacina de sua família e vizinhos. Ele busca refúgio na igreja comandada por seu pai, que de forma assustadora nomeia a chegada da contaminação de “salvação”.

Se pensarmos na maneira como alguns líderes (políticos e religiosos) trataram a pandemia real de covid-19, o posicionamento do pai de Jimmy não soa tão ficcional. A revelação é que isso acontece assim que o vírus se alastra – e não anos depois – provando que o discurso imputando aos desejos divinos as grandes tragédias da humanidade já está pronto e será apenas formatado para cada situação.

No Reino Unido de 2030, quando a história se estabelece, a sociedade ali apresentada involuiu vertiginosamente para o rudimentar. As referências culturais estão estagnadas no início do século XXI, com Teletubbies e Power Rangers; enquanto que a realidade foi simplificada e limitada às demandas de sobrevivência aos ataques dos mortos-vivos.

O texto de Garland destoa dos outros dois filmes na forma como trata o drama familiar. Aqui ele é parte fundamental da história, visto que há um distanciamento de 28 anos entre a descoberta da raiva e o período em que se passa o longa-metragem. Dentro da estabilidade criada em quase três décadas, o protagonista Spike (Alfie Williams) é apresentado ao lado do pai Jamie (Aaron Taylor-Johnson) e da mãe Isla (Jodie Comer). Ao completar doze anos de idade, ele irá para um rito de passagem, ao sair dos limites seguros de sua comunidade e caçar zumbis em área descampada.

No jogo de antagonismo e vilania que tratamos em artigo especial sobre a franquia Extermínio, Spike absorve a maldade, sem que lhe fosse dada outra opção. Mais do que naturalizar a morte, ele precisa naturalizar o ato de matar.

O orçamento anabolizado de 60 milhões de dólares e a experiência de Boyle e Garland em produções maiores, permite que as sequências de ação, a violência e o horror visual sejam mais grandiosos em “Extermínio: A Evolução”. Com sinal verde para outras duas produções, o lançamento em 2025 aconteceu quando “Extermínio: O Templo dos Ossos” (2026) – que estreia hoje no Brasil – já havia concluído suas filmagens. Com a crise das salas de Cinema, não podemos considerar os 150 milhões de bilheterias mundiais um fracasso, até porque hoje se faz mais filmes para streaming, mas a boa aceitação deve levar um volume maior de pessoas a partir desta semana ao redor do mundo.

O estilo da obra mantém o espírito do original, uma das primeiras do circuito comercial a utilizar câmeras digitais. Aqui Boyle registra boa parte das imagens tendo um iPhone 16 como câmera, de certa forma emulando novamente um found footage, apesar da fotografia tradicional.

A missão pouco justificável de Jamie e Spike na floresta aprofunda a mitologia da obra e nos apresenta novas espécies de zumbis: uma com traços humanos mitigados, além dos alfas, bem mais fortes. Interessante que a evolução física dos mortos-vivos não necessariamente gerou a desumanização – o que é muito bem trabalhado no quarto filme da franquia.

Pelo contrário, há aumento de inteligência e de consciência, aumentando o perigo e as possibilidades narrativas. As cenas na floresta usam o horror como gênero, se valendo mais do gore com zumbis arrancando cabeças do que a ficção distópica com ar desesperançoso dos dois primeiros filmes. Todavia, com o controle intelectual de sua criação, Boyle não esquece da cosmologia que ele criou para a saga, transformando o rito de passagem de Spike parecido – e, ao mesmo tempo, mais completo – com o de Andy em “Extermínio 2”.

Na volta da missão, a traição de Jaime é descoberta, momento em que a construção narrativa coloca o drama familiar no centro da história. O avanço da trama é baseado nisso e não uma representação simplória a partir de figuras como o já citado Andy, além de Hannah em “Extermínio” (2002). Mais uma vez, a acusação de negligência do pai com a saúde da mãe, tal qual “Extermínio 2”, mas agora acompanhada da notícia sobre a existência de um médico “de verdade” no meio da floresta, antes conhecido como cidade.

Desta forma, é criado um motivo forte para o protagonista se expor à contaminação, uma emergência familiar que nos remete, também, ao período de quarentena real na pandemia de coronavírus.

“Extermínio: A Salvação” é mais próximo da grandiloquência hollywoodiana e com roteiro trabalhado para as massas. Erik (Edvin Ryding), oficial sueco que fica à deriva e está condenado a viver na ilha dos zumbis, por exemplo, é um ligeiro alívio cômico. Com ele, Spike faz piada involuntária com a foto da namorada do soldado, destacando o normalizado preenchimento labial nada natural; além do choque tecnológico de quem parou em 2002 e segura um smartphone. Novamente um leque de possibilidades se abre em cenas com uma zumbi grávida e um bebê que não apresenta sintoma de infecções, tal qual a mãe de Andy no segundo longa-metragem.

No terço final, surge a figura mais icônica de toda a saga: o Dr. Kelson interpretado por Ralph Fiennes. “Extermínio: A Evolução”, então, ganha um outro ritmo, mais cadenciado e dramático. É mais mórbido e, ao mesmo tempo, mais bonito. Um gótico zumbi, nem tão alinhado com a desesperança da obra original. Até porque foi anunciado o início de uma trilogia e precisamos de ganchos para continuação, que surge em um epílogo que retoma o ciclo iniciado com Jimmy.

Spike recebe uma importante lição na figura de sua mãe e a mortalidade natural se ergue como nova inimiga de um garoto que não conhecia outros tipos de fim a não ser perder a batalha para um zumbi – nunca o único (e não necessariamente um) inimigo pronto para atacar a qualquer momento.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.