Extermínio: O Templo dos Ossos

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Sinopse: Expandindo o universo criado por Danny Boyle e Alex Garland em Extermínio: A Evolução – e virando esse mundo de cabeça para baixo – Nia DaCosta dirige “Extermínio: O Templo dos Ossos”. Na continuação dessa história épica, Dr. Kelson (Ralph Fiennes) se encontra em uma nova e chocante relação – com consequências que poderiam mudar o mundo como eles o conhecem – e o encontro de Spike (Alfie Williams) e Jimmy Crystal (Jack O’Connell) se torna um pesadelo do qual ele não consegue escapar. No universo de O Templo dos Ossos, os infectados não são mais a maior ameaça para a sobrevivência – a desumanidade dos sobreviventes se torna mais aterrorizante.
Direção: Nia DaCosta
Título Original: 28 Years Later: The Bone Temple (2026)
Gênero: Terror | Ficção Científica | Drama
Duração: 1h 49min
País: Reino Unido | EUA

Extermínio: O Templo dos Ossos (2026) Crítica do Filme Apostila de Cinema

Sob a Lua de Satã

Estreando hoje nos cinemas brasileiros, “Extermínio: O Templo dos Ossos” tem a missão de ampliar seu alcance nas telonas em comparação com a produção anterior, “Extermínio: A Evolução” (2025) que arrecadou 150 milhões de dólares. O resgate da franquia, que reuniu novamente o diretor Danny Boyle e o roteirista Alex Garland, foi muito elogiada por público e crítica ano passado, gerou uma segunda onda no streaming pela HBO Max e criou expectativas altas para a nova produção.

O realizador inglês se afastou da cadeira de direção desta vez, ficando a cargo da nova iorquina Nia DaCosta, que segue em ascensão na carreira, após “A Lenda de Candyman” (2021) E “Hedda” (2025) – sem contar a experiência com o Universo Cinematográfico Marvel com “As Marvels” (2023). Ela agora está diante de um desafio que lhe permite maior controle estilístico e estético – e a norte-americana aproveita muito bem a oportunidade, sem se desconectar das outras produções e apresentando personalidade no comando de uma excelente obra de horror.

Ao contrário das transições entre “Extermínio” (2002) e “Extermínio 2” (2007) e dele para “Extermínio: A Evolução” (2025), não há passagem de tempo. O espectador continua do exato ponto onde parou, com Spike (Alfie Williams) encontrando o gangue do satanista Jimmy Crystal (Jack O’Connell). Ele se vê, então, condenado a ser um deles. Na anarquia de uma sociedade há quase três décadas existindo apenas para lutar pela sobrevivência face aos zumbis, a “tribo dos Jimmys” se assemelha a um grupo de cangaceiros.

Extermínio: O Templo dos Ossos” esgarça o aspecto mais interessante deste universo: o conceito de vilania. Faz ao ponto de sua sessão ter gerado uma série de críticas e a publicação de um artigo tratando desta questão aqui na Apostila de Cinema, construindo um pensamento que a sinopse oficial do quarto longa-metragem relaciona. Quando falamos em nosso texto de “A Evolução” sobre a naturalização do ato de matar passado para Spike, jamais imaginaríamos que Garland construísse uma nova história em que o mocinho se insere na tirania de um grupo sem passar a ser vilão – levando água abaixo essa falsa ideia de aceitação inquestionável da morte como solução.

O lobo como lobo do próprio homem, em uma trama na qual a humanidade é artigo raro. DaCosta, assertivamente, divide a narrativa em duas, deixando na outra ponta a continuidade da história do Dr. Kelson (Ralph Fiennes). Já imagino que alguns nomearão essa divisão de “ritmo irregular”, mas, veja, o filme é formatado para ter dois ritmos distintos e bem demarcados.

De forma novelesca, a realizadora traz um núcleo “humano” cheio de crueldade, pilhagem, violência, abusos físicos e psicológicos, bem como todo o tipo de desumanização na figura de Jimmy. Seus próprios agentes, cada um em determinado momento, são também vítimas. Já com Kelson ela traz um núcleo “zumbi” a partir da relação entre o médico o Sansão, um alfa com o qual ele tenta atingir um grau mínimo de comunicabilidade. Os dois, em meio a um templo de ossos, exploram, cada um à sua maneira, aspectos de humanidade. Olhando para a Lua ou dançando um rock dos anos 1980.

Para além da ideia de domesticação do zumbi alfa, há novo acréscimo na mitologia da saga (incrível como cada produção propõe algo diferente a ser explorado no futuro): um conceito de cura. Só que Kelson também parece mitigar este conceito, já que respeita as manifestações de Sansão e jamais o trata como se ele estivesse “evoluindo”. Até porque, no outro núcleo, deveríamos estar diante da versão mais evoluída do animal designado a dominar o mundo, mas com uma capacidade incrível para a autodestruição.

O quarto filme da saga não é uma surpresa porque o lançamento do ano passado já permitia sonhar com uma obra desta qualidade. Mesmo assim, não esperava um clímax tão espetaculoso, se imaginarmos que sua origem foi uma produção independente e que explorava aspectos mais criativos do audiovisual. Não deixa em nenhum momento a sensação de ser um “filme de transição”, comum às segundas partes de trilogias – à exceção, claro, do epílogo revelador, no padrão Marvel, que reconecta o saudoso público ao longa-metragem de origem. Danny Boyle voltará à direção para concluir a trinca de filmes.

Como parte de uma oposição narrativa – e contribuindo para o tom de desumanidade – o drama familiar é quase inexistente em “Extermínio: O Templo dos Ossos”. Quando os dois núcleos se encontram, Kelson vai impor o seu ritmo a Jimmy. Para o satanista, nada mais purificador do que uma aula de sacrifício cristão.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.