Artigo | Quem é o Inimigo?

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As Múltiplas Formas de Vilania na Franquia “Extermínio”

Pelo menos uma vez por mês, em nosso artigo da semana, tentaremos fazer uma análise em perspectiva de alguma série de filmes da história do Cinema. Hoje, data da estreia da quarta produção da franquia Extermínio nos cinemas brasileiros, preparamos conteúdo especial com críticas de todas as obras e uma análise sobre o aspecto mais interessante deste conjunto de longas-metragens: as constantes mudanças sobre o que (ou quem) os diversos protagonistas precisam resistir.

Índice de Críticas
Leia aqui a crítica de “Extermínio” (2002)
Leia aqui a crítica de “Extermínio 2” (2007)
Leia aqui a crítica de “Extermínio: A Evolução” (2025)
Leia aqui a crítica de “Extermínio: Templo dos Ossos” (2026)

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Franquia em Resgate

Lançado com relativo sucesso no início do século XXI, “Extermínio” (2002) foi uma daquelas obras de arte revisitadas no período pandêmico, ao lado do filme “Contágio” (2001) e da música “Paciência” de Lenine. No caso do Cinema, diante do perturbador cenário de risco à saúde mundial e enquanto alternativa à quarentena, o antigo exercício de transportar uma boa narrativa de ficção científica para a nossa realidade foi ampliada. E, com isso, lembraram (ou descobriram) que o filme de Danny Boyle era excelente.

Na minha crítica à produção de origem falo um pouco da figura do diretor britânico no momento do lançamento de “Extermínio”. Há, porém, outros fatores além da pandemia que deram tração a uma franquia que parecia esquecida após a recepção morna de “Extermínio 2” (2007). Os zumbis como personagens da cultura pop também deslancharam no curso do século XXI.

A mitologia dos zumbis tem origem seculares e envolvem rituais de necromancia, ligadas à religião do vodu haitiano. Aliás, um filme que assisti no Festival do Rio de 2019, “Zombi Child”, resgata de maneiro muito problemática essa primeira representação de seres reanimados após a morte (você acessa minha crítica clicando aqui). Porém, no Cinema, a figura dos zumbis foi modernizada e ganhou as características comuns a quase todas as obras, com o clássico “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968) de George Romero.

O primeiro filme da série Extermínio pode ser considerado um marco nessa evolução da mitologia ao propor duas ideias: a de uma infecção que faz com que a transformação em zumbi seja passada entre humanos, além do aumento da agilidade e violência desses seres, antes representados com alto grau de estupor. Essa representação ganhou forte apelo geracional e se renova na arte dos videogames com “Resident Evil”, “The Last of Us”, entre outros.

Não apenas as adaptações para o audiovisual destes jogos, mas a antologia de seriado, livros e graphic novels de “The Walking Dead” no curso da década de 2010 transformou os zumbis em uma espécie de subgênero do terror. Com isso, produções clássicas e canônicas como o já citado filme de Romero e o primeiro Extermínio foram exaustivamente revisitadas. Há quem aponte, ainda, os vícios em drogas sintéticas de alto teor destrutivo nos grandes centros urbanos, como responsável pelo comportamento humano muito próximo destas representações, gerando identificação da plateia.

Neste cenário “favorável” de sociedade doente, pandemia e sucessos na cultura pop que nos fizeram acreditar que o apocalipse zumbi é possível, Sony e Columbia (agora braço da Time Warner Discovery HBO DC e, em breve, ensanduichada no catálogo da Netflix) deram sinal verde para uma nova produção, lançada em 2025.

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Extermínio (2002) Crítica do Filme Apostila de Cinema

Não Há Mal Algum?

Extermínio: A Evolução” (2025) foi uma grata surpresa para boa parte da crítica ano passado. A Apostila de Cinema, em hiato forçado, não acompanhou seu lançamento e teve a oportunidade de assistir à franquia completa ao longo dos últimos dias, na preparação para a estreia de “Extermínio: O Templo dos Ossos” (2026). 

Confesso que sempre gostei do primeiro filme e não sei o motivo de nunca ter prestigiado a segunda produção. Talvez porque somos, de certa forma, influenciada pelo marketing negativo da época, mas também porque os próprios estúdios e distribuidoras costumam abandonar algumas obras com certa facilidade. Eis que, tal qual “Halloween 3” (1982) e suas máscaras, o filme de 2007 dirigido pelo espanhol Juan Carlos Fresnadillo ressurge como um precioso material canônico (acidental ou não).

Analisando os longas em perspectiva, o que mais se destacou foi a forma como as histórias nos levam sempre para outros riscos, conflitos, medos e, sobretudo, vilões. Os zumbis nunca são o único mal. Nem sempre são o mal. E nem sempre são o mal comum. Os roteiros de Alex Garland (filmes 1, 3 e 4) e do quarteto Rowan Joffe, Juan Carlos Fresnadillo, Enrique López Lavigne e Jesús Olmo (filme 2) brincam com as possibilidades e acabam acertando em cheio com a realidade. Talvez estejamos longe de conviver com zumbis, porém estamos muito perto de presenciar tiranias como o de outras personagens.

“Extermínio” tem início no tempo presente da obra, em 2002, quando um grupo de justiceiros da causa animal invade um laboratório de pesquisa em Cambridge e libera poderoso vírus da raiva capaz de transformar humanos em zumbis em poucos segundos. O prólogo do filme já nos provoca a discutir até que ponto a nobre motivação daquele grupo justifica tal atitude, colocando em risco toda a espécie humana.

Para nossa sorte, o país infectado é uma ilha, permitindo que o planeta tome medidas para isolar o vírus em território britânico – leitura canônica que o segundo filme mitiga ao apresentar Alice (Catherine McCormack), personagem capaz de portar o vírus em seu organismo sem que ele se manifeste, o que, aliás, permite que as pandemias aconteçam. Para os habitantes do Reino Unido resta a sobrevivência.

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Só que Boyle não faz de “Extermínio” apenas uma história de luta pela sobrevivência aos diversos ataques zumbis. De uma maneira bem mais sucinta do que as atuais narrativas audiovisuais, pensadas em sua gênese como grandes franquias, ele trabalha as consequências da auto organização daquele povo, em meio à anarquia de uma corrida contra mortos-vivos sem precisar traçar longos arcos sobre o assunto.

No terço final do filme de origem, não há mais o puro antagonismo dos zumbis. O grupo formado por Jim (Cillian Murphy), Selena (Naomie Harris), Frank (Brendan Gleeson) e Hannah (Megan Burns), após perigoso deslocamento de Londres até a região de Manchester, acredita estar se alinhando aos representantes do Exército, em uma espécie de destacamento paramilitar que tenta limitar o avanço do inimigo original. Digo isso porque, com um desejo incontrolável por utilizar o poder para oprimir e violar aquele grupo, os oficiais passam a ser, eles, os inimigos.  

De forma menos complexa, “Extermínio 2” utiliza as mesmas cartas. 28 semanas após o início da quarentena, a luta por sobrevivência ganha contornos trágicos. É comum para aquelas pessoas verem amigos e entes queridos sucumbirem a um ataque e, momentos depois, se tornarem o mal diante dos seus olhos. É desta forma que Andy (Mackintosh Muggleton), mesmo não aparecendo nas cenas iniciais, tem para si o protagonismo – e na minha crítica falo um pouco das diversas alterações do protagonismo aparente ao longo do filme.

A realidade de Andy torna nebulosa a ideia de risco. Dizer que a luta por sobrevivência e fuga dos zumbis é tudo o que importa é reduzir a leitura de “Extermínio 2” a quase nada. Talvez seja a produção em que menos faz sentido apontar aquele “mal comum zumbi” como antagonista. As relações familiares e suas consequências são as grandes mola propulsoras desta narrativa.

A vilania original é de Don (Robert Carlyle), pai do menino que leva a culpa por ter abandonado a esposa Alice no ataque que deveria ter lhe infectado. Mais adiante, a inconsequência da idade, que leva Andy e sua irmã Tammy (Imogen Poots) para fora dos limites seguros da área de reconstrução na Isle of Dogs, se transforma no verdadeiro risco. Essa leitura metafórica logo é substituída pela materialização de Alice, encontrada na antiga casa da família, sem apresentar sintomas de infecção.

Ao levarem a mãe, com o vírus incubado, para a área de segurança, o menino contribui para que o pai se transforme em um zumbi. Na construção bem sucedida de um trauma familiar, o roteiro do quarteto espanhol utiliza a figura do morto-vivo para tratar deste medo real. Por mais que “Extermínio 2” seja o menos marcante dos filmes da franquia e, na sua conclusão, repita o clímax do anterior ao transformar “os dois lados” em vilões, a forma como ele chega a este ponto é, não apenas, muito interessante, como parece ter definido o modelo a ser seguido dali em diante. 

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Extermínio: O Templo dos Ossos (2026) Crítica do Filme Apostila de Cinema

A Incontornável Tirania

Até que, quase vinte anos depois, a série Extermínio volta aos cinemas, novamente com produção e texto de Alex Garland (agora com uma bagagem de sucessos como “Ex Machina” de 2014 – que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de roteiro original – e “Guerra Civil” de 2024) e direção de Danny Boyle. Sem o retorno do, agora oscarizado, Cillian Murphy, o elenco conta com atuação memorável de Ralph Fiennes, no papel de Dr. Kelson.

Curiosamente, a ideia original de Alex Garland era muito parecida com o plot de “Resident Evil”, com o vírus se transformando em arma de grande corporação ou até mesmo do Estado – o que não era inédito, pois é a base da trama de “Alien – O 8º Passageiro” (1979). Danny Boyle pediu que essa história, pensada como uma continuação a ser lançada em 2010, fosse reescrita para evitar o desenvolvimento pouco original.

O terceiro filme da franquia se passa 28 anos após a infecção originária. O Reino Unido é um conjunto de ilhas parada no tempo, isolada do restante do planeta. Uma sociedade que involuiu e segue com demandas básicas de sobrevivência, alheia a qualquer tecnologia. Na Escócia, um prólogo muito instigante nos leva de volta àquele mundo.

O garoto Jimmy foge de um ataque zumbi que chacina sua família e vizinhos, chegando à igreja em que seu pai é o pároco da cidade. Ao ser informado da morte iminente de todos, o homem se contrapõe à tragédia ao chamá-la de salvação. Sem a indicação prévia da temporalidade da cena, há uma provocação ao espectador de que – na verdade – poderíamos estar presenciando uma mudança estrutural na forma como os detentores do poder daquele sociedade viam a infecção.

Todavia, o mais surpreendente é que o pai de Jimmy – que ressurge apenas no epílogo da obra – fazia essa leitura no início do apocalipse zumbi. Tal qual a lavagem cerebral genocida que muitos líderes, sobretudo no Brasil, fizeram no início da pandemia de covid-19, não há maturidade dos acontecimentos e sim um religioso banalizando as mortes sob a desculpa de serem os desígnios de Deus. Tratei um pouco desse questionamento da autoridade divina no período pandêmico na recente crítica ao drama japonês “Depois do Terremoto” (2025), uma das novidades no catálogo da Netflix.

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Sem querer tirar a experiência de assistir ao filme que chega hoje aos cinemas (deixo para a crítica e sugiro que leia após a sessão), mas Jimmy cumprirá um importante papel no jogo de antagonismos e vilanias da franquia. Talvez seja a mais impactante de toda a série e que permita um deslumbre visual que leva Extermínio a um patamar grandiloquente e capaz de marcar a cultura pop de outra maneira. 

Em “Extermínio: A Evolução” as relações familiares também se colocam como molas propulsoras da narrativa. Spike (Alfie Williams) entende que seu pai é negligente com a condição de saúde da sua mãe e é a partir da chance de cura que ele enfrentará o descampado para encontrar o Dr. Kelson. Só que outro antagonismo no terceiro longa é mais interessante do que essa aparente releitura da narrativa do segundo: um novo perigo, a mortalidade natural.

A grande lição que Spike recebe é que, para além da simplicidade dos hábitos da sociedade que está inserido, a derrota na luta pela sobrevivência a um apocalipse zumbi não é a única causa para o fim da vida. Vivemos todos nós em diferentes contagens regressivas e são vários os fatores. No caso da mãe do protagonista, um câncer incurável. 

E, claro, a ideia de um bebê zumbi não infectado não apenas abre um leque de possibilidades para a franquia, como deixa em aberto novos conceitos de antagonismos, a começar pelo jovem sueco que repete a opressão militar que mencionada na produção de 2002. 

Sobre “Extermínio: Templo dos Ossos” não vou me aprofundar, entendendo que esse artigo pode ser uma prévia ou um convite para você possa assistir na tela grande (o que sempre faz muita diferença) ao filme novamente escrito por Alex Garland e agora dirigido por Nia daCosta. O que posso antecipar é que há, sim, novas propostas de antagonismo e a crítica já publicada na Apostila de Cinema lida um pouco com essa questão.

Em suma, a franquia Extermínio se utiliza da expressão homo homini iupus, comum às narrativas ao longo do tempo, desde que Thomas Hobbes resgatou a ideia de Plauto sobre o homem ser o lobo do próprio homem. Boa parte das ficcionalidades e do futurismo trágico na Literatura e no Cinema partem desta premissa, uma leitura que os quatro longas-metragens de Extermínio se alinham enquanto régua moral.

Para além da iminência de um ataque zumbi, como aconselha o Green Day em sua música “Know Your Enemy”, devemos sempre conhecer nossos inimigos, o poder que se revelam forças contrárias e entender nossas urgências para aplicar nossa energia de maneira correta.

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Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.