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O Sucesso Nada Secreto do Cinema Brasileiro
O anúncio dos indicados ao Oscar 2026, data importante na temporada de premiações, aconteceu na quinta-feira – dia tradicional da publicação do artigo da semana (apesar desta ser apenas a quarta edição e ser publicada com atraso, reflexo direto do fim das minhas férias). A Apostila de Cinema, como mencionei no texto de reinauguração da página, está retornando aos poucos, tal qual um atleta que ficou dois anos sem competir por conta de uma lesão. Não pode correr o risco de exagerar e colocar todo o trabalho de recuperação a perder.
Por isso, a ideia é concentrar esforços para assistir e escrever textos sobre os principais lançamentos deste ano. Nas primeiras semanas, empolgado com a produtividade (e não com o ritmo, assistir filmes e analisar tecnicamente também é um exercício e sua prática constante é fundamental – e as críticas recentes já parecem ter algumas ferrugens), adicionei a possibilidade de revistar franquias. Sendo assim, o Oscar (pelo menos, o de 2026) não será uma prioridade, visto que boa parte das produções foram lançadas e trabalhadas pela crítica em 2025.
Quem acompanhou o período pandêmico da Apostila sabe que cobrimos temporada de premiações de forma bem intensa, com textos de todos os indicados, artigos antes e depois das cerimônias e até uma transmissão ao vivo em um dos anos. Mesmo sem transformar a lista publicada na quinta em uma maratona de filmes e críticas, encontrei um jeito de registrar este momento tão importante para a produção brasileira, sobretudo pelo sucesso de “O Agente Secreto” (2025). Talvez esse seja o motivo para deslocar o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para nossa sessão de artigos.
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O Brasil No Oscar
O jejum de quase cem anos do Brasil na categoria de melhor filme internacional era (mas não devia ser) um peso na cinematografia do país, tal qual a medalha de ouro do futebol nos Jogos Olímpicos. Não adiantava dizer que temos um dos melhores cinema do mundo, que o reconhecimento internacional em grandes festivais, por críticos e estudiosos do audiovisual afastam qualquer dúvida da competência e impacto cultural das nossas histórias. Havia uma barreira final a ser ultrapassada, uma validação que para muitos é incontestável.
A ausência da estatueta alimentou muitos abutres que tentam convencer que o Brasil não sabe fazer Cinema, que o Estado joga dinheiro fora incentivando a produção e coisas do tipo. Para não perder o foco deste artigo e começar a elencar os empregos gerados pela Cultura (sem contar sua contribuição para a sociedade), além de repetir que não, a Lei Rouanet não entrega milhões de impostos arrecadados para a Walter Salles ou Kleber Mendonça Filho, vamos ficar apenas com a lembrança do fim do tabu com a vitória de “Ainda Estou Aqui” (2024).
Parecia que o Cinema Brasileiro tornaria essa vitória em algo para ser curtido por alguns anos. Porém, outra obra de peso como “O Agente Secreto” participou da mostra competitiva do Festival de Cannes – que nos últimos anos ganhou uma curiosa relevância na temporada de premiações (outro bom assunto para um artigo) – foi premiado e o orgulho nacional desabrochou mais uma vez, com as redes sociais sendo tomadas de mensagens de apoio ao filme, Wagner Moura e Kleber.
Desta vez os possíveis indicados também incluíam o documentário de Petra Costa, “Apocalipse nos Trópicos” (2025), o curta-metragem “Amarela” (2024), de André Hayato Saito e o diretor de fotografia de “Sonhos de Trem” (2025), Adolpho Veloso. Apenas o terceiro foi nomeado – e que é uma indicação para um brasileiro e não para a produção nacional. Algo importante em outra leitura, a da flagrante competência dos profissionais do setor audiovisual em nosso país.
Já “O Agente Secreto” foi lembrado quatro vezes e igualou o recorde de “Cidade de Deus” (2002). O filme de Fernando Meirelles e Katia Lund foi indicado em direção, roteiro adaptado, montagem e fotografia. Agora, o longa-metragem de Kleber Mendonça Filme disputa melhor filme, filme internacional, ator para Wagner Moura e direção de elenco, nova categoria.
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E Aí, Vamos Ganhar?
Pensei em transformar este assunto em outro artigo, a ser publicado mais perto da premiação. Confesso que tenho medo de acabar meus temas hard news, mas entendi que, se isso acontecer, esta coluna semanal terá que resgatar assuntos do “tempo do ronca”, expressão carioquíssima. Até porque boa parte das opiniões aqui elencadas são quase um senso comum de quem acompanha a temporada de premiações.
Existe, sim, chance de vitória. “O Agente Secreto” não completa lista em nenhuma categoria, nem mesmo como melhor filme, vem para a disputa. Começando pelo prêmio principal, é sempre bom lembrar que é a única votação que é feita de forma ranqueada e não no “melhor”. Ou seja, é como se o votante desse 10 pontos para o primeiro colocado, 9 para o segundo e daí em diante.
Aqui, apesar do filme de Kleber ter mais nomeações que “Ainda Estou Aqui”, a possibilidade disso ocorrer me parece menor. Aliás, fico curioso em saber qual foi a posição da obra de Salles. Ano passado alguns indicados eram muito divisivos, como o recordista de nomeações “Emilia Pérez” (2024) e o vencedor “Anora” (2024). Era possível vislumbrar pessoas odiando esses filmes por alguns motivos e os colocando na parte de baixo da sua lista.
Em 2026 será diferente. Os dois favoritos, “Uma Batalha Após a Outra” (2025) e “Pecadores“ (2025) são filmes mais tradicionais, de elenco estrelar, realizadores consolidados, grandes estúdios e campanhas. E melhores. Até “Marty Supreme” (2025) pode ser enquadrado desta forma, há tempos que a A24 deixou de ser o patinho feio independente.
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As chances de “O Agente Secreto” são parecidas com a do seu grande rival, “Valor Sentimental” (2025) e dependem de uma grande quantidade de votantes amar o filme a ponto de colocá-lo nas cabeças, já que muitos manterão posições intermediárias ou – incrivelmente – não assistirão. Só que o indicado com esse perfil de azarão, com força para crescer nas próximas semanas, parece ser “Hamnet” (2025).
A nova categoria de direção de elenco, contudo, pode ser uma variante não prevista no Oscar. Ela terá a presença de Gabriel Domingues, de “O Agente Secreto”. Até o ano passado, o fato de “Valor Sentimental” estar indicado em categorias como direção, roteiro e montagem poderiam demonstrar favoritismo norueguês no embate direto com o brasileiro.
Mas e agora? Qual será o peso da direção de elenco? De forma equivocada, algumas pessoas têm comparado esta categoria com a de “melhor elenco” do SAG Awards, prêmio do Sindicato de Atores. Um troféu que sempre teve peso, pois grande parte dos membros votantes do Oscar também estão vinculados ao SAG. Só que não é a mesma coisa.
“O Agente Secreto” em direção de elenco está ao lado daqueles que entendo como os dois favoritos (“Uma Batalha Após a Outra” e “Pecadores”) e os dois que correm por fora (“Marty Supreme” e “Hamnet”). Isso talvez permita uma visibilidade maior (ou, pelo menos, diferente) do filme de Kleber em comparação com “Valor Sentimental”. Um fator que pode ser preponderante para a verdadeira disputa entre eles, que acontece no melhor filme internacional.
Nesta categoria, a campanha será tão forte quanto ano passado. Acredito que não tão emocionante, dramática, com o tempero latino da baixaria de ressuscitar tweets de mais de dez anos. Não podemos tirar da briga o francês “Foi Apenas um Acidente” (2025). Na verdade, um filme iraniano de diáspora obrigatória dirigido por Jafar Panahi, um dos maiores cineastas do país, há anos perseguido, preso e proibido de produzir. Aliás, um dos meus diretores favoritos em atividade.
Vale o registro de que o Brasil teve um quase-Oscar de forma parecida, quando “Orfeu Negro” (1959) ganhou o prêmio de melhor filme internacional de 1960, porém representava a França. A Apostila de Cinema tem texto sobre o longa-metragem de Marcel Camus e uma conversa especial sobre obras de Carnaval em que falamos melhor sobre isso.
Não estou aqui para falar sobre qualidade de produção e sim sobre campanhas. O longa-metragem do iraniano perdeu força, havia a expectativa dele ocupar justamente o espaço de “O Agente Secreto” na categoria principal e ser lembrado na direção. Ele disputa, ainda, pelo roteiro original. Só que há um componente político na obra, ainda mais com a ameaça de guerra entre Estados Unidos e Irã.
O mesmo podemos dizer de “A Voz de Hind Rajab” (2025), que surpreendeu muitos ao “substituir” o sul-coreano “A Única Saída” (2025) na lista quase certa das cinco produções estrangeiras. Inclusive, serão publicados nos próximos dias textos sobre esses dois filmes na Apostila de Cinema, visto que foram lançados no Brasil em 2026. A Academia optou pelo representante da Tunísia, mais uma vez nomeada por uma obra da diretora Kaouther Ben Hania (do ótimo “O Homem que Vendeu sua Pele”, de 2020).
O filme se passa em meio aos conflitos da Faixa de Gaza e há o mesmo componente político, mas também emocional muito forte. Tem o poder de sensibilizar muitos votantes, além de trazer também uma questão contemporânea igual ao longa de Panahi, encontrando adeptos do posicionamento pelo ao fim dos conflitos na região. Só que dependeria de uma forte campanha, em uma categoria na qual, no momento, disputa a quarta força com o espanhol “Sirat” (2025).
O longa-metragem de Oliver Laxe também foi indicado como melhor som e é um exemplo de que a boa passagem por festivais como Cannes não se traduz em favoritismo sem uma campanha bem feita na temporada de premiações.
Ou seja, “Valor Sentimental” é a “Emilia Pérez” da vez. Ano passado começamos desesperançosos, em virtude da quantidade de indicações da produção francesa. No final, a taça veio para o Brasil. Só que Joachim Trier passa longe de polêmicas, tem feito ótimos filmes (incluindo “A Pior Pessoa do Mundo”, de 2021, indicação mais recente do país). A obra é longe de ser divisiva e também há uma possível escolha política, dentro do sistema da Academia. A Noruega já foi nomeada seis vezes antes, mas nunca levou para casa o prêmio.
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Já o Brasil venceu ano passado e o bicampeonato é muito raro. Aconteceu algumas vezes com Itália e França até os anos 1970, época em que menos filmes eram submetidos; além de uma vez com a Suécia em duas produções de Ingmar Bergman. Fora isso, em 1988 e 1989 a Dinamarca conquistou dois prêmios em sequência, com “A Festa de Babette” (1987) e “Pelle, o Conquistador” (1987).
Há, ainda, uma proposta fílmica que iguala “O Agente Secreto” e “Valor Sentimental”. Indico esse texto da Flávia Guerra no UOL que fala um pouco da linguagem clássica e moldada ao estilo de filmes que costumam ser premiados. Ele dialoga bastante com o artigo que publiquei aqui há duas semanas e compara “Ainda Estou Aqui” com “Manas” (2025), longa-metragem que entrou na discussão sobre qual deveria ser a produção que representaria o Brasil.
A escolha, agora com quatro indicações, parece acertada.
Já sobre a categoria melhor ator, como diz o narrador Everaldo Marques, é “briga de foice no escuro”. São cinco trabalhos marcantes, profissionais de primeiro escalão e ótimos filmes. Tendo a acreditar que ficará entre Michael B. Jordan e Timothée Chalamet pela narrativa que Hollywood costuma dar em situações como esta. Duas estrelas em seus auges e em papéis que parecem ser os de suas carreiras.
Leonardo DiCaprio já tem o seu prêmio e Ethan Hawke dependerá da boa vontade dos membros da Academia para assistir “Blue Moon” (2025) bem menos badalado que seus concorrentes. A sua narrativa parece ser a do ator popular que finalmente é lembrado na categoria principal de atuação (ele foi duas vezes nomeado coadjuvante e outras duas como roteirista).
Wagner Moura surge com uma força maior do que os veteranos DiCaprio e Hawke. Não sei se a ponto de incomodar Jordan e Chalamet.
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O Que Fazer Com Todas Essas Notícias?
Eu tenho uma sugestão do que você pode fazer com esse panorama do Oscar 2026 e todas essas informações sobre a trajetória dos filmes brasileiros dos últimos anos e suas passagens por grandes festivais, indicações e vitórias nos principais prêmios do Cinema: encare como um convite para assistir mais Cinema Brasileiro.
Atualmente as plataformas de streaming oferecem um catálogo relevante de boas obras das últimas décadas, sobretudo Netflix e Globo Play. A primeira tem filmes da época da Retomada em diante (até porque a Netflix tem um pouco de alergia à produção anterior aos anos 1990). A segunda também contempla produções clássicas dos anos 1960 a 1980, além de permitir acesso ao Canal Brasil que vai além.
Assista e não encare isso como um simples desafio. Veja o que você gosta. Há filmes nacionais de todos os gêneros, para todos os gostos e é impossível você não encontrar várias que te agradem. Não espere validação de qualquer lugar, pense que as narrativas do seu próprio país tem um caráter de identificação cultural que só você vai entender. Seja o terror do diretor de “Sirat”, dê todas as estrelas que você acha que “O Auto da Compadecida” (2000) mereça no Letterboxd, valorize nossos realizadores e realizadoras, produção e elenco.
O Brasil sempre foi uma potência criativa audiovisual, mundialmente reconhecida, apesar dos diversos desmontes na nossa produção.
Não compre a ideia neoliberal vira-lata de que o Estado rasga dinheiro ao investir em Cultura. Não existe país desenvolvido que não coloque essa indústria como base, seja Coréia do Sul, França e – principalmente – os Estados Unidos. Se você conhece a cultura deles não é um simples acaso. É projeto.
Concluo dizendo que partirei os comentários sobre os indicados ao Oscar de 2026 em dois artigos – ampliando para outras categorias. Pois é, estou me contradizendo e vou guardar parte do assunto para a próxima quinta-feira. A boa notícia é que o artigo será publicado na data correta e eu terei uma semana para desenvolver algumas outras ideias de texto, nos quais nomeados lançados em 2025 e que não terão críticas publicadas serão contemplados. Até lá, quem sabe, encontrem algum tweet condenatório do Trier por aí.
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