O Acidente do Piano

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Sinopse: “O Acidente do Piano” conta a história de Magalie, uma influenciadora digital famosa por conteúdo chocante, que sofre um acidente grave enquanto grava um vídeo e decide se isolar nas montanhas com sua assistente, mas sua paz é ameaçada por um jornalista que a chantageia com informações comprometedoras, explorando a farsa e o vazio da fama online.
Direção: Quentin Dupieux
Título Original: L’Accident de piano (2025)
Gênero: Comédia
Duração: 1h 28min
País: França

O Acidente do Piano 2025 MUBI Crítica do Filme

Medo do Contraditório

Disponível para o público brasileiro diretamente no streaming, “O Acidente do Piano” é uma das principais estreias de janeiro da MUBI. O filme conta a história de Magalie (Adèle Exarchopoulos), uma jovem que alcança sucesso na internet ou fazer vídeos em que testa sua condição genética de não sentir dor. Ela será chantageada pela jornalista e irmã de um colaborador que presencial o tal acidente do título. Precisará, então, jogar um jogo em que, pela primeira vez, não ditará as regras, evitando que sua carreira seja abalada.

Curiosamente, o filme dialoga com outras duas produções que chegaram às salas de cinema este mês. A primeira é “Marty Supreme” (2025), drama esportivo estrelado por Timothée Chalamet que conta a história de um atleta do tênis de mesa. A segunda é “Infinite Icon: Uma Memória Visual” (2026), documentário protagonizado por Paris Hilton, que chega ao circuito na próxima quinta-feira e está com crítica embargada até a véspera da estreia.

Isto porque “O Acidente do Piano” apresenta uma personagem com uma característica cada vez mais comum em uma sociedade que exige a autopromoção e coloca o individualismo como norma: o narcisismo. Além disso, eleva celebridades da internet ao status de ídolo e a produção de conteúdo como um negócio de alta rentabilidade. Ao contrário de profissões tão fundamentais e, ao mesmo tempo, tão desvalorizadas. Neste cenário está Simone, a jornalista vivida por Sandrine Kiberlain.

O longa-metragem começa com uma protagonista abalada com o que acaba de acontecer. Acostumada a simular reação em seus conteúdos roteirizados e, em certa parte, forjados para seu público-alvo, ela parece ter perdido a capa da produtora de conteúdo e revelar uma preocupação real. A trilha sonora afasta os sons da cena, inclusive a batida do carro dirigido por Patrick (Jérôme Commandeur), assessor de Mag, em um pássaro.

A história, de fato, começa com a chegada dos dois a uma cabana, local de moradia da protagonista. Uma casa pensada para gerar conteúdo, ao ponto de ser chamada de “cabana para fotos”. Uma atitude típica do ofício desempenhado pela personagem, seguindo uma cartilha de rotina instagramável e passos sempre calculados. A chegada de Simone colocará em risco esta zona de conforto. Até porque Patrick, assim como os assessores, produtores (ou faz-tudo) de pessoas com Magalie, atua sempre como um reforço positivo sem opinião própria.

A vida de ilusão em “O Acidente de Piano” começa a ruir a partir de um simples pedido de entrevista. Essa é a proposta de Simone para não revelar o que aconteceu com seu irmão. O narcisismo de Mag, validado por um stalker que bate ponto diariamente na “cabana de fotos”, a faz acreditar que haveria um interesse sexual da jornalista. Só que o que a profissional quer é a mera apresentação do contraditório. É fazer Magalie responder perguntas não programadas, algo que ela nunca fez em sua bem-sucedida carreira.

Escrito e dirigido por Quentin Dupieux, o desenvolvimento do filme é pautado na simplicidade. Poucos personagens, cenas longas e um apreço pelo diálogo. O segundo ato se limita à entrevista de Mag feita por Simone, ilustradas por flashbacks com os feitos espetaculares da produtora de conteúdo. Uma conversa pautada pelo medo de exposição de alguém que nunca perdeu o controle sobre suas representações. Aqui está o diálogo com o documentário de Paris Hilton, uma celebridade real que tomou as rédeas do discurso após viver uma era de domínio da imprensa.

A protagonista de “O Acidente do Piano” só conhece um tempo em que o jornalismo virou reprodutor de discurso. A mídia também virou apenas uma produtora de conteúdo e disputa de forma precária a atenção com pessoas como Magalie. Uma jovem que se incomoda com a maneira formal de Simone falar, não sabe muito bem seu lugar em um sistema de viralização e monetização e apenas repete um tipo de conteúdo que começou a fazer sucesso com a série-inspiração de Mag “Jackass” (2000-2002) e que até hoje renova seu público na internet, a partir de um público propenso a ser enganado.

Por isso ela encara a entrevista como um interrogatório. Não entende a proposta de debate da jornalista sobre definições como sucesso e missão. Revela acidentalmente que possui certo encantamento com a morte, mas foge da conversa na primeira oportunidade que encontra. Ter o domínio total sobre o discurso gera esse medo do contraditório – e a sociedade fica mais pobre cada vez que pessoas como Magalie ganham relevância, às custas da extinção de pessoas como Simone. Isso também transformou o público, que hoje trata seus ídolos como produtos perecíveis. O esgotamento de um é apenas um convite para que seja dada atenção a outro. Ninguém mais é digno de pena.

Enquanto filme, “O Acidente do Piano” se transforma na parte final. Deixa de ser uma conversa em que duas partes expõem seus pontos e vira um conto de humor ácido com doses de violência, tal qual uma criação dos Irmãos Coen. Não deixa de ser uma fórmula de sucesso do audiovisual independente, aos moldes da MUBI. O grande terror da protagonista, no final das contas, é ter que lidar com situações reais.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.