Infinite Icon: Uma Memória Visual

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Sinopse: “Infinite Icon: Uma Memória Visual” traz para o público um retrato íntimo, emocional e profundamente humano de Paris Hilton — uma das figuras mais famosas da cultura pop do século XXI, e uma das mais incompreendidas.
Direção: Bruce Robertson e JJ Duncan
Título Original: Infinite Icon: A Visual Memoir (2026)
Gênero: Documentário | Musical
Duração: 1h 58min
País: EUA

Infinite Icon: Uma Memória Visual 2026 Documentário Paris Hilton Crítica do Filme

Tudo Sob Controle

Estreando mundialmente neste final de semana (no Brasil com distribuição da Sato Company), “Infinite Icon: Uma Memória Visual” acompanha os passos do lançamento da turnê do segundo álbum de Paris Hilton, lançado em 2024. Na verdade, nos apresenta a visão da cantora e celebridade em um documentário que, ao mesmo tempo, apresenta seus anacronismos na linguagem sem deixar de ser um interessante registro sobre uma figura que – goste ou não – é fundamental para entender a migração da mídia tradicional para a social neste primeiro quarto de século XXI.

Dividido em cinco capítulos, o longa-metragem é produzido e narrado pela própria Paris. A grande questão para melhor absorvê-lo é entender o que era ser uma personalidade digna de capas de tabloides no início dos anos 2000. Ao lado de figuras como Britney Spears, Amy Winehouse, Lindsay Lohan, dentre outras (não coincidentemente, jovens mulheres), Hilton era uma das vítimas do automático cancelamento da mídia hegemônica. Com a necessidade de acompanhar a aceleração da distribuição de notícias da era da internet, um bullying violento na figura dos paparazzis perseguiram artistas na intenção de mostrar aquilo que os famosos não queriam expor.

Ou seja, não havia controle dos seus próprios passos. Há seis anos, Paris Hilton lançou outro documentário, “A Verdadeira História de Paris Hilton” (2020) no qual revelava abusos sofridos na sua adolescência quando foi enviada contra sua vontade ao Provo Canyon School. Ela retoma esse ponto em “Infinite Icon” e credita a estes traumas do passado a necessidade de se jogar nas baladas californianas na juventude. A forma como Bruce Robertson e JJ Duncan dirigem seu novo documentário e Travis Greene o monta nos aproxima em estética e narrativa de obras deste período, como se ligássemos há vinte anos na E! ou na MTV para assistir ao “polêmico filme sobre Paris Hilton”.

A diferença é que a protagonista toma para si o discurso. Justamente neste ponto que desenvolvi sensações dúbias sobre o longa-metragem. A artista não parece disposta a mudar o caráter performático com o qual obras desta natureza se valiam, mantendo parte do sensacionalismo anacrônico, tal qual o documentário “Framing Britney Spears: A Vida de uma Estrela” (2021) sobre o qual escrevi sobre há alguns anos – com a ressalva de que a personagem Britney era um objeto de estudo e não parte da produção como Paris. Mal comparando, é ver o Alberto Cowboy voltar ao BBB mais de vinte anos depois e cometer os mesmos erros (nas palavras de seu antigo algoz, Diego Alemão).

Por outro lado, é curioso perceber também o anacronismo pretérito na forma de vida e gerenciamento de carreira de Paris, o que a transformou na pessoa certa na época errada. Criticada há vinte anos quando lançou “Paris”, seu primeiro disco, ela tentava ser uma celebridade multiplataforma, com tentáculos na música, cinema, televisão, ao mesmo tempo em que “vendia” a própria vida. Uma influencer na época em que isso era alvo de críticas e não de admiração. Só que, ao contrário do que parece no filme, ela já virou o jogo há muito tempo e seus quase 30 milhões de seguidores no Instagram comprovam isso.

Infinite Icon: Uma Memória Visual” exagera na transformação de todos os seus passos em conceito. Assistir a uma performance da protagonista recebendo a notícia do incêndio no seu trailer, no qual supostamente teria perdido todas as fotos da vida é até um pouco constrangedor. O único momento em que o espectador pode sentir a verdade é na declaração de amor feita por Carter Reum, marido e pai de dois filhos com Paris. O restante do tempo é uma projeção calculada da verdade.

Enquanto documentário musical, o filme vai bem – talvez seja a parte boa do anacronismo na linguagem. É reservado tempo suficiente para que possamos acompanhar as apresentações da cantora (em playback e cheia de auto tune), da recente “Bad Bitch Academy” até o one hit wonderStars Are Blind”. Hilton continua com seu ar blasé e pouca presença no palco, mas ela jura que sempre fingiu essa persona. Já os trechos em que a história é quebrada por anotações de Hilton, simulando um diário, funcionam pouco na engrenagem narrativa.

Há algumas inserções que não nos deixam afastar a sensação de que “Infinite Icon” é uma peça de propaganda, sobretudo a participação relâmpago de Sia, amiga e produtora responsável pela validação da retomada da carreira de cantora de Paris; além da dedicação de um capítulo a parte para o diagnóstico de TDAH da protagonista, criando o ambiente para a apresentação de uma música sobre o tema.

O que mudou no discurso da protagonista é a consciência de seu espaço. Assim como aconteceu com outras celebridade, de Cher à Xuxa, Paris se transformou em ícone LGBTQIAPN+, a partir da ideia de liberdade para ser o que quiser. Nos diversos conceitos que ela quer aplicar no rebranding de sua carreira, samplear “Free” do Ultra Naté, atravessando três gerações, é o mais interessante.

Além de ativista contra instituições opressoras como o Provo Canyon School, ela também tem se manifestado a favor da regulamentação do uso de Inteligência Artificial (o que não está no filme), a partir do crime de divulgação de um vídeo íntimo que acompanhará sua trajetória para sempre. Não conhecia o caso envolvendo Bansky e fiquei em choque como isso não acompanha a carreira do artista, nem enquanto nota de rodapé de alguém que mantém sua genialidade intacta.

Paris Hilton não deixa de ser uma pobre menina rica, mesmo com as constantes tentativas de humanização (próxima da vitimização) de seus documentários. Uma coisa não anula a outra e ela, sim, é uma pessoa privilegiada que – assim como milhões de outras – toma música como terapia. A diferença é que ela tem poder e influência suficiente para transformar isso em uma carreira, mesmo relativizando o talento. E tudo bem, não foi a primeira – e o tempo provou que estava longe de ser a última – celebridade com certo magnetismo cujos haters, de certa forma, amam odiar.

Infinite Icon” é o “This is It” (2009) com final feliz. Contada em primeira pessoa por alguém que venceu um período tenebroso de perseguição midiática e que contribuiu diretamente para a falência do jornalismo cultural. Senhora do destino, Paris Hilton incluiu por conta própria uma mea culpa de todos nós, registrando que devemos a ela parte de sua sanidade perdida. Só que, no final, também somos, em parte, vítimas dos caminhos cruzados entre quem é artista e quem é celebridade.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.