Sinopse: Em 1989, Silvio Santos surpreende o Brasil ao entrar na corrida presidencial. A jornalista Marília é enviada para acompanhá-lo e desvendar quem é o homem por trás do mito. O que começa como uma investigação se transforma em um jogo de poder e revelações que mudam os dois para sempre.
Direção: Cris D’amato
Título Original: Silvio Santos Vem Aí (2025)
Gênero: Biografia
Duração: 1h 31min
País: Brasil

Não Mostrou ao que Veio
Lançado nos cinemas ano passado, “Silvio Santos Vem Aí”, protagonizado por Leandro Hassum, chegou esta semana ao catálogo da Netflix, a segunda produção brasileira que tem como objeto central o famoso empresário e apresentador, falecido em 2024 aos 93 anos. Como não tive a experiência de assistir e escrever sobre “Silvio” (2024), primeiro longa-metragem sobre Senor Abravanel, aproveitei a chegada em streaming para fazer uma sessão dupla – e transformá-la em uma abordagem sobre as dificuldades de adaptação da vida de uma personalidade como Silvio Santos. Não haverá crítica do filme protagonizado por Rodrigo Faro e sim um artigo contemplando as duas obras – que você lê clicando aqui.
Uma questão que vai permear tanto o artigo quanto esta crítica é o fato de estarmos diante de uma produção ancorada por Leandro Hassum. Não falo isso questionando a qualidade e registrando meu respeito total pelo artista – já assisti e tive impressões positivas de alguns de seus filmes. Falo isso no sentido da personalidade (mais do que o “tom”) dado à obra. Até porque, junto ao projeto, está não apenas o ator, mas outros profissionais que servem ao filão que ele, podemos dizer, lidera.
O Cinema Brasileiro comercial das últimas duas décadas deve muito a figuras como Hassum, Paulo Gustavo, Ingrid Guimarães e outros comediantes de origem. Porém, ao mesmo tempo em que eles registraram grandes bilheterias e dão subsídios para um discurso de audiovisual pungente, que movimenta dinheiro e dá empregos; também lhes cabe uma parcela de publicidade sobre “o que é o cinema nacional”. Para o espectador-médio, acostumado a ter seu olhar sobre as salas de cinema limitado aos shoppings, são essas produções as únicas que rivalizam com a produção estrangeira.
“Silvio Santos Vem Aí”, então, seria bem diferente no início do século XXI, por exemplo. A década e meia da Retomada também se ancorava em comédias, mas há diferenças gritantes entre “Deus é Brasileiro” (2003), “Eu Tu Eles” (2000), “Lisbela e o Prisioneiro” (2003) e o onipresente “O Auto da Compadecida” (2000) em comparação com “De Pernas para o Ar” (2010)”, “Minha Mãe é uma Peça” (2013) e “O Candidato Honesto” (2000). Isso é assunto para outro artigo, mas ilustra bem o que senti ao final da sessão.
Silvio Santos e sua família perderam esse bonde e deram sinal verde para um segundo longa-metragem produzido pela Simba Content (uma união entre Record, SBT e RedeTV para defesa de seus interesses, além de produção de conteúdo integrado, tendo a Paris Filmes como parceira no braço cinematográfico). Ele é parte do Hassunverso, o que beira o inacreditável, posto que visando um sucesso de bilheterias que o comediante já não consegue atingir.
Se pensarmos nos primeiros anos destes século, vivíamos no mercado o apagar das luzes de um período de aumento de market share no país – e de forma mais pulverizada e menos dependente de fenômenos. Época em que biopics como “Dois Filhos de Francisco” (2005) arrancavam elogios independente dos biografados, sobretudo, pela construção dramática aliada a uma qualidade de produção e ambiente favorável para um projeto mais digno da figura do Senor Abravanel.
Não é isso que testemunhamos na narrativa sobre Silvio Santos estrelada por Leandro Hassum. Partindo de um momento-chave na carreira do empresário, em sua tentativa de entrar na política logo como candidato a Presidente da República na história eleição de 1989, há questões que não permitem ao público se conectar com a trama. Não apenas a figura conhecida de Hassum, um problema que Rodrigo Faro e sua maquiagem indesculpável também passam no outro filme. O ponto aqui são escolhas de produção que refletem muito na experiência e parece que sequer foram identificadas pela equipe.
A principal escolha a se lamentar é a falta de cuidado na direção de arte, figurino, maquiagem e cabelo. Não vale muito manter o ator principal contido nos trejeitos de sua imitação, se esforçando para se aprofundar na personalidade do apresentador, se os elementos em cena misturam o final dos anos 1980 com a contemporaneidade. Não adianta exigir do espectador aceitar a performance de Manu Gavassi, interpretando Marília, a publicitária que acompanha os passos de Silvio para extrair publicidade positiva (ou blindar as negativas) às vésperas da eleição, se a todo momento identificamos anacronismos em suas roupas, penteados e lugares que transitam.
Enquanto a plotagem moderna nas portas e vidros da agência responsável pela campanha presidencial de Senor Abravanel gritam pela nossa atenção, o texto insere definições midiáticas como a do self-made man importadas bem depois do período histórico apresentado. Caracteriza uma jovem profissional “no corre” com uma casa e privilégios de ricos dos anos 1980. Isso sem contar na constrangedora cena da personagem comendo brigadeiro e falando ao telefone, inserida sem qualquer objetivo; além da execução ineficiente ao apresentar Lombardi com brincadeiras cênicas para seu rosto não ser revelado. Alívios cômicos que produzem o efeito contrário.
Pode ser que essa tenha sido a tática da produção, mas não parece. Soa como falta de investimento em elementos-chave de uma obra audiovisual. Pensado como um produto a ser embalado para um público que vai assistir pela curiosidade da história sobre a candidatura de Silvio Santos, com ligeiras inclusões de casos sobre seu passado. Sobre isso, vale destacar a abordagem interessante e promissora de colocar “Silvios do passado” como participantes de programas que ele apresentava na época.
Essas são as melhores cenas de “Silvio Santos Vem Aí”. Mesmo com o estranhamento das breves viagens oníricas de Marília, além da quebra de quarta parede preguiçosa da protagonista. O menino Abravanel no jogo do foguete do “Domingo no Parque” e o viúvo Senor no “Namoro na TV” permitem um toque de humanidade, de identificação e aproxima a plateia de uma experiência de cinema. O restante do tempo parece um jogo de erros de curso geral sobre produção audiovisual.
Veja o trailer:

