Sinopse: Num pequeno zoológico em Caracas, a chegada do hipopótamo Zafari é comemorada por vizinhos de diferentes classes sociais. Uma família acompanha as comemorações da janela de seu apartamento em um condomínio decadente de classe alta. Em meio ao caos gerado pela escassez de alimentos, água e energia elétrica, a família precisa resolver problemas cotidianos enquanto tenta encontrar uma solução para deixar o país. A mãe, Ana, percorre o prédio à procura de comida nos apartamentos abandonados, mas ruídos estranhos pelos corredores escuros a amedrontam cada vez mais. Num mundo cada vez mais selvagem, Zafari é o único que ainda tem o que comer.
Direção: Mariana Rondón
Título Original: Zafari (2024)
Gênero: Drama
Duração: 1h 40min
País: Peru | Venezuela | México | França | Chile | República Dominicana | Brasil

A Fome que nos Atravessa
Ser latino-americano é lidar com a realidade e a fantasia dentro do mesmo cenário. No Brasil chamamos de “coisa de novela” aquela sensação de incerteza sobre o que há de inventado na história que nos contam. “Zafari”, escrito e dirigido por Mariana Rondón (o segundo ao lado de Marité Ugás) é parte dessa tradição latina de navegar por águas insólitas em uma embarcação capitaneada pelo estranhamento. Ao mesmo tempo, é física e dolorosamente conectada com a realidade de um povo e de um território onde tudo pode acontecer – e que, na maioria das situações, merecia melhor sorte.
O filme conta a história de duas famílias. Ana Lizino (Daniela Ramírez) é uma mulher que vaga pelos outros apartamentos do prédio em que mora e administra à procura de vazamentos, aparentemente escondidos por algum locador. Seu marido, Edgar (Francisco Denis), se prepara para viajar e tentar vender um terreno, no objetivo de tirar o casal e o filho Bruno (Varek La Rosa) de situação momentânea de miserabilidade – fora do país. Estamos na Venezuela em meio a uma profunda crise, com a fome batendo a porta pela escassez de alimentos, além de racionamento de energia provocada por falta d’água e de luz.
A outra família de “Zafari” são os Romeros. Somos apresentados a eles pelo olhar curioso e impertinente das janelas dos Lizinos, que teve seus privilégios anulados pelo cenário de desabastecimento. Eles trabalham no zoológico de frente, local que acaba de receber um hipopótamo. Nas contradições da sociedade, um animal precisará ser mantido fora de seu habitat natural ao custo da água e da comida que faltam aos cidadãos. Uma hipocrisia que, diga-se de passagem, não é exclusividade da Venezuela ou da América Latina. É a busca constante pelo falso status de normalidade de qualquer grupo social. Assim como o aquário impecável mantido por Ana.
Algumas sequências são bem marcantes neste sentido. A que envolve o hipopótamo e a melancia é parte dessa provocação através do insólito e da exploração do realismo fantástico que permeia a trama. Já o momento em que a mulher alimenta os peixes no aquário faz pensar sobre alguns laços de afeto inexplicáveis. Em situações extremas, a manutenção daquela relação beira o injustificável.
O longa-metragem dialoga com grandes expoentes do audiovisual da região das últimas décadas. Ao final da sessão, vi quem comparasse “Zafari” com “O Som ao Redor” (2012) e “Aquarius” (2016) de Kleber Mendonça Filho. Todavia, vejo Rondón como uma espécie de discípula de Lucrécia Martel. A narrativa mantendo o espectador em estado de suspensão, recheando a história e – principalmente – as imagens de incompletudes, são mais próximos da diretora argentina. Outra proposta de cinema latino-americano está no uso do som, que funciona em vários momentos como um elemento indecifrável e perturbador.
Para quem apostava em uma “venezuelização” do Brasil em governos de centro-esquerda, a história contada por Rondón e Ugás em “Zafari” lembra muito mais os tempos de um Estado liderado pela direita. Imagens como motociatas e pessoas lutando por restos de carne e pedaços de ossos nos aproximam do Brasil pandêmico. Após exibição na Mostra São Paulo de 2025, o filme estreou no circuito comercial do país na última quinta-feira.
Sobre os afetos, o casal de protagonistas vive uma crise conjugal também originada na fome e nas dificuldades e desafios da pobreza extrema. Em um momento marcante do longa-metragem, Edgar diz a Ana que “se um dia sairmos daqui, vou te amar de novo”, uma dura (porém real) condicionante de sentimento.
Ancorado na narrativa distópica (e as notas de produção registram que essa foi uma escolha da cineasta venezuelana), a obra revela, sem mostrar, a realidade da Venezuela da época, a partir da criatividade que torna o audiovisual latino-americano tão especial – mesmo sem grandes orçamentos. Inspirados na bizarra história de um esquartejamento de um hipopótamo no zoológico de Caracas, é pelas notícias do rádio que é apresentada a crise de desabastecimento e as mortes na estrada, refletindo uma sociedade à beira de um colapso.
O hipopótamo, então, é pintado cada vez mais como um vizinho indigesto. Já a fome é um elemento central para entender a atitude das personagens. Em condições insalubres de moradia, vamos assistindo a uma inversão entre a espécie civilizada, antes organizada em seus apartamentos e a selvagem, saciada pelo luxo do zoológico provedor.
Isso envolve as relações humanas, cada vez mais desumanizadas no ambiente de “Zafari”. Muito por conta da fome, algo que antes de tirar a consciência, leva embora a sanidade.
Veja o trailer:

