O Quarto do Pânico

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Sinopse: Com uma narrativa claustrofóbica e tensa, que vai deixar o espectador em suspense até o fim, o filme conta a história de uma mulher (Isis) e sua filha pré-adolescente (Marianna), que se mudam para uma casa com um quarto do pânico, um espaço secreto onde os moradores podem se esconder em caso de perigo. Quando supostos ladrões invadem a casa, mãe e filha se refugiam no quarto, até descobrirem que é justamente lá que está escondido o que o trio de invasores deseja.
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Título Original: O Quarto do Pânico (2025)
Gênero: Suspense | Drama
Duração: 1h 38min
País: Brasil

O Quarto do Pânico 2025 Cinema Brasileiro Crítica do Filme

Medo Capital

Após exibição no Festival do Rio ano passado, a versão brasileira de “O Quarto do Pânico”, dirigido por uma das grandes realizadoras em atividade no Brasil, Gabriela Amaral Almeida, é lançado direto em streaming, no catálogo do Telecine (parte do pacote premium da Globo Play). Uma decisão um pouco incompreensível. Apesar do claro objetivo de trazer novidades exclusivas para o serviço, o remake de uma obra conhecida e com elenco famoso teria potencial de encontrar justamente o público que o Cinema Brasileiro precisa dissuadir: o do espectador de shopping.

O filme conta a história de uma mãe (Isis Valverde), mãe da menina (Marianna Santos) que decide se mudar para uma casa de segurança reforçada após um episódio de violência que vitimou seu marido. Assim como no original dirigido por David Fincher, a mansão conta com um quarto impenetrável, cômodo que gerou muita discussão à época da estreia da obra estrelada por Jodie Foster. Debates sobre a mercantilização do sentimento onipresente de insegurança que caem como uma luva na realidade brasileira.

O Quarto do Pânico” de Amaral Almeida tem adaptações que nos aproximam da sociedade do país produtor, o que se tornou assunto do nosso artigo da semana. Isso vai dos comportamentos das personagens até o uso da trilha sonora, com “Nem Vem que Não Tem” de Wilson Simonal nos créditos iniciais. Assim como “Zafari”, assistido no dia anterior, há uma marca latino-americana – e bem autoral, no caso de Gabriela – a partir do uso do som. Ele surge como uma personagem à parte e talvez não seja percebido como merece pelos olhos e ouvidos menos atentos do público do streaming. Por outro lado, o apego à obra original tirou grandes possibilidades de tornar o filme ainda mais autoral.

Não há como escapar do tema violência urbana morando no Brasil. Você pode se negar a assistir aos noticiários, fugir nas redes sociais, mas o assunto chega até você. Assim como mãe e filha, cada nova camada de proteção parece ampliar a sensação de insegurança. Não sair de casa não é uma opção e o assalto pode acontecer dentro do carro, em um sinal – assim como o do marido da protagonista. A violência também pode invadir a sua casa e ter um cômodo inviolável não lhe dá e nem sustenta sua segurança por muito tempo.

Vivendo no Rio de Janeiro e em ano eleitoral, já sei que a falência do combate ao crime pelo poder público ocupará grandes espaços nas campanhas. Gabriela Amaral Almeida apresenta uma motivação específica nos comportamentos criminosos dos três invasores (Caco Ciocler, André Ramiro e Marcos Pigossi), distribuindo pequenos estudos de personagens como se o roteirista Fabio Mendes preenchesse as lacunas que o texto original David Koepp permitiu. Assim como no filme de Fincher, s homens colocarão à prova o quarto do pânico, em uma narrativa cuja conexão com a realidade é tanta que a identificação do espectador é automático e o universalismo é gritante.

Ao mesmo tempo em que a sociedade vai maquiando seus espaços com câmeras de vigilância, cercas elétricas e alarmes que vivem tocando pela madrugada (tudo inútil, uma vez que essas barreiras não diminuem os índices de criminalidade), as pessoas consome vorazmente notícias sobre os fatos mais violentos do dia – mesmo que a milhares de quilômetros de distância. Existe, claro, uma camada real de medo. Porém, é inegável que existe um combustível que mantém o medo como sentimento intransponível.

O Quarto do Pânico” não produz tanto estranhamento pelo uso audiovisual das câmeras como em 2002, assim como no som de tiros ou a maturidade da filha, uma menina que tenta encontrar soluções que denotam o precoce processo de desumanização. A culpa não é da produção e sim da perda da inocência do público e da sociedade. Seu terço final, bem fiel ao original, se aproxima do suspense psicológico e, curiosamente, é mais próximo da marca autoral de sua realizadora. Nele, a violência como resposta permite ao espectador seguir por caminhos perturbadores. Já a ideia de negociar a sobrevivência é típica de uma sociedade que se comporta como se o jogo já estivesse perdido.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.