Artigo | A Mercantilização do Medo
Refletindo as Versões de “O Quarto do Pânico”
Esmagado no meio do Carnaval, chega ao streaming do Telecine (dentro do pacote premium do Globo Play) no dia 13 de fevereiro, “O Quarto do Pânico”, versão brasileira do thriller dirigido por David Fincher em 2002, em adaptação sob responsabilidade da cineasta Gabriela Amaral Almeida e do roteirista Fabio Mendes.
A Apostila de Cinema já assistiu ao filme e participou de uma entrevista coletiva no último dia 3, com a presença de Gabriela, Fabio e dos quatro atores que encabeçam a produção: Isis Valverde, Caco Ciocler, André Ramiro e Marcos Pigossi. O papo, mediado por Renata Boldrini, imagem que é sinônimo de Telecine, nos levou a um artigo complementar à crítica do longa-metragem (que já foi publicada e você lê clicando aqui). Também revisitamos a obra de Fincher, disponível na HBO Max e apresentamos neste artigos essas conexões.
Reencontrando Fincher
Quando anunciou o projeto de “O Quarto do Pânico” (2002), o cineasta estadunidense estava no auge da popularidade. Ele já tinha concluído com êxito a transição de diretor de videoclipes (alguns clássicos como “Express Yourself” de Madonna e “Freedom!” de George Michael), o que ocupou sua carreira nos anos 1980, para realizador de obras definidoras do cinema nos anos 1990. Após críticas divisivas com “Alien 3” (1992), David Fincher criou uma marca na cultura pop com “Seven – Os Sete Crimes Capitais” (1995).
Se não bastasse o fenômeno estrelado por Brad Pitt, movida por uma geração MTV que descobriu a história em home video, quatro anos depois Fincher repetia essa parceria e lançava “Clube da Luta” (1999), obra fundamental na formação de qualquer cinéfilo criado no século XXI, do comunista mais desconstruído ao redpill mais asqueroso. Neste ambiente, ele atrai para o projeto o roteirista David Koepp, responsável pelo texto de ótimos filmes de Brian de Palma e recebendo a incomum quantia de 4 milhões de dólares. A trilha sonora foi de Howard Shore, na onda do sucesso estrondoso da trilogia “O Senhor dos Anéis” (2001-2003).
Atrai, ainda, Jodie Foster, já vencedora de dois Oscars de melhor atriz à época. A escolha original de Fincher era Nicole Kidman, inclusive o design de produção foi pensado para o seu tamanho. Porém, ela machucou o joelho nas filmagens de “Moulin Rouge: Amor em Vermelho” (2001) e sua recuperação atrasaria muito as filmagens. As notas de produção dizem que a representação da protagonista foi alterada pela substituição de estrelas. Sai a ideia da loira imaculada hitchcockiana e entra uma mulher com mais fibra e próxima da dura realidade de uma mãe – e isso vai se refletir na forma como Gabriela Amaral de Almeida pensará seu filme.
Quem assiste “O Quarto do Pânico” hoje não imagina que foram quatro meses de filmagem, em cenários construídos especialmente para o filme. Para Fincher, a oportunidade de uma produção mais “simples” do que “Clube da Luta”, que tinha diversas locações. Esse era o tamanho de Hollywood naqueles tempos – e isso também vai desembocar na releitura brasileira, como produto não apenas de um outro país, mas de um outro tempo.
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As Diferenças
Reassistir “O Quarto do Pânico” (2002) na HBO Max completou a experiência iniciada com a nova versão brasileira e a entrevista ancorada por Boldrini. Com um olhar direcionado a compreender no que as obras se alinham e no que se diferem, o que chama mais atenção é como a segurança pública é um elemento essencial para a construção do filme brasileiro – e não tem a mesma força de identificação na obra original.
Na coletiva, a primeira a ter a palavra foi Gabriela Amaral de Almeida. Perguntada sobre a inspiração por trás do projeto, a palavra que ela utilizou foi a “temática”, sobretudo, a partir da maternidade da protagonista. No desenrolar da conversa, a ideia de uma violência urbana diferente entre os Estados Unidos de 2000 e o Brasil de 2025 voltou a ser pauta pelo olhar do roteirista Fabio Mendes. E essa é, para mim, a adaptação mais interessante do novo “O Quarto do Pânico”.
Jodie Foster é apresentada como uma mulher recém divorciada, tendo que lidar com a “troca” por uma esposa mais nova e interessada em afastar o pai de sua filha. Já a protagonista vivida por Isis Valverde tem a marca de uma tragédia. Seu marido é assassinado após assalto em um sinal de trânsito e a mudança para uma casa segura é parte da tentativa de superação do luto e do trauma pela morte violenta.
Ou seja, na obra estadunidense, a mulher não procura aquele quarto, ele surge como uma possibilidade. Inclusive, seu impulso é de se afastar da ideia de superproteção sufocante de um cômodo inviolável. Já na produção nacional, o quarto é o que impulsiona a narrativa. A violência urbana no filme de Ficher é inserida no contexto de crise familiar, enquanto que na história de Fabio Mendes é seu ponto central.
O que se segue é são dois thrillers baseados na tentativa de violação daquele quarto. A adaptação tem uma preocupação em promover motivações específicas e desenvolvimentos aprofundados dos ladrões vividos por Caco Ciocler, André Ramiro e Marcos Pigossi. No roteiro milionário de Koepp, podemos destacar apenas o fato daquele interpretado por Forrest Whitaker ser chefe da empresa de segurança que implementou aquele sistema, transformando seu conhecimento para proteger clientes no real risco para as mesmas pessoas.
É aqui que o universalismo destacado por Gabriela na coletiva chama a atenção. Há um pano de fundo parecido nas duas obras, a partir da mercantilização do medo e da insegurança. Tratei muito disso na crítica publicada, é diferente da proposta de Fincher, mas com resultado parecido: a de que somos vítimas de nossa vulnerabilidade. A nova família monoparental de Jodie Foster é mais reativa, até ingênua em comparação com a de Isis Valverde. Aquela é moldada em uma época onde a comunicação limitada apresentava outros tipos de desafio. Esta tem a incomunicabilidade como um gatilho que amplia o medo e a sensação de insegurança.
Alguns elementos da história se repetem, como a piada de confundir três semanas com quinze dias repetida por Pigossi (e originalmente feita por Jared Leto) e a utilização do gás como tentativa de rendição através da tortura, tornando o quarto uma câmara de execução. Já o terço final e a conclusão são similares, um respeito com a fonte primária a partir do momento em que as diferenças de abordagens estavam estabelecidas.
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Realizadores e Suas Falas
Um dos objetivos de entrevistas coletivas é a de concentrar as respostas e encaminhar perguntas que tentam conduzir (ou contaminar) o olhar para os ideais e perspectivas dos seus realizadores. No caso de “O Quarto do Pânico”, posso citar como exemplo a sugestão da diretora de que o elemento contemporâneo mais latente no filme é o da luta de classes, sobretudo entre os vilões; além da exaltação à criatividade da Cinema Nacional face aos desafios orçamentários em comparação com a obra de Fincher. Não sei se concordo com essas duas leituras propostas pela cineasta.
No caso de “O Quarto do Pânico”, o roteirista Fabio Mendes explica que o projeto inicial era da produtora Floresta, com Gabriela Amaral Almeida se unindo posteriormente. A diretora fala de seu interesse em “extrair a seiva” de um filme canônico, retirando a espinha dorsal da obra. Por isso, ela prefere chamar o longa-metragem de adaptação e não de remake. Não foi perguntado – e ficou minha curiosidade – em saber se ela tem interesse em fazer novas releituras ao longo de sua carreira, já que registrou seu trabalho no projeto enquanto apropriação deste cânone.
O que ela entende como espinha dorsal da criação de Fincher é a história desta mulher evitando a invasão masculina representada pela imagem dos três ladrões (a qual Ciocler define como um monstro de três cabeças). Tanto Gabriela quanto Isis Valverde apontam o paralelo entre violação à residência e o estupro, pensando o quarto como o útero e aquela relação entre mãe e filha como uma nova gestação. Com essa proposta, a produção almeja não apenas inverter a roda de adaptações de Hollywood a filmes de outras origens, como aplicar o olhar feminino.
Os homens que participaram da coletiva contribuíram com esse leque de propostas. O roteirista Fabio Mendes foca nas adaptações a um cenário de violência urbana diferente da Nova Iorque de 2002 – diga-se de passagem, na esteira dos ataques terroristas ao World Trade Center. Um período de neurose norte-americana. Também considero o tempo em que vivemos, a partir da sensação de insegurança ampliada pela já citada mercantilização da violência, de neurose à brasileira.
Fabio disse que quis não apenas uma obra mais profunda, mas também mais latina e – em suas palavras, “mais quente”. A construção da vilania foi a abertura para Caco Ciocler mencionar a sala de ensaio de Gabriela e as dificuldades de entendimento sobre a própria personagem. Ele transformou, então, essa indefinição em mistério, encontrando o tom de sua atuação. Enquanto isso, André Ramiro destacou a humanidade a partir da paternidade de sua personagem, além da possibilidade de ter como referência o mestre Whitaker. Já Marcos Pigossi falou sobre a ampliação da participação do seu vilão, em comparação com o de Jared Leto, além de exaltar o potencial cultural pop do filme.
É justamente este o ponto que iniciou minha crítica de “O Quarto do Pânico” e agora encerra este artigo. A entrevista coletiva não conseguiu me responder – ou, pelo menos, definir como estratégia mercadológica – a opção por não abrir janela nas salas de cinema para uma obra tão conectada com a realidade e que carrega filme de sucesso, equipe de produção e elenco capazes de atrair público. Além da derrota para a mercantilização do medo, o longa-metragem também registra que o estrangulamento do circuito comercial pelo streaming é uma tática que também chegou ao Brasil. Tema para outro artigo, sem dúvida mais pessimista e mal-humorado que este.
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