Metas de Relacionamento

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Sinopse: Em “Metas de Relacionamento”, quando a produtora de TV Leah Caldwell decide se tornar a primeira mulher a comandar o principal programa matinal de Nova York, seu ex Jarrett Roy surge para disputar o mesmo cargo. Ele alega ter mudado graças ao livro “Metas de Relacionamento”, que também passa a inspirar os amigos de Leah. Determinada a focar a carreira, Leah resiste até que a química com o ex começa a desafiar suas prioridades.
Direção: Linda Mendoza
Título Original: Relationship Goals (2026)
Gênero: Comédia | Romance
Duração: 1h 36min
País: EUA

Metas de Relacionamento 2026 Crítica do Filme Amazon Prime Video

Metas Descumpridas Sem Sucesso

No processo de escrita da crítica do filme “Metas de Relacionamento“, me deparei com uma informação fundamental sobre seu processo de criação. O fato da adaptação do livro do Pastor Michael Todd, incluir sua participação tanto nos bastidores como interpretando a si mesmo, aumentou a sensação de estar diante de uma obra propagandista – e (talvez) ineficiente em seu objetivo escuso. Com isso, ficou a dúvida sobre a forma de trabalhar meu texto original. Até para gerar uma reflexão na forma como a leitura fílmica original tende a ser incompleta, optei por manter a redação e inserir (entre parênteses e em negrito) o que essa informação afetou na interpretação primária.


Produção original da Amazon MGM Studio, a comédia romântica “Metas de Relacionamento” é uma das principais estreias da semana no Amazon Prime Video (lançamento original em 05.02, a reflexão sobre o texto original, entretanto, fez com que a crítica fosse publicada apenas em 15.02). Estrelado pelos cantores Kelly Rowland e Method Man, o filme conta a história de Leah e Jarrett, dois produtores de TV que, tempos após terem namorado, se reencontram em uma disputa entre quem herdará o cargo de showrunner de uma da revista eletrônica matinal da rede em que trabalham – e quem sairá perdedor da velha “guerra dos sexos”.

Você sabe como começa, se desenvolve e termina o longa-metragem apenas lendo a sinopse. Leah é uma mulher de meia-idade, totalmente dedicada ao trabalho, que precisa provar a todo instante sua competência. Jarrett é um homem tentando desconstruir sua face de mulherengo, com um magnetismo que facilita suas relações sociais e faz queimar etapas nos locais por onde passa. Trazido de outro canal de TV, mesmo novato na empresa é tratado com igualdade de condições ao lado da ex-namorada, que há anos se destaca com boas pautas para o programa. No caminho, eles terão que lidar com muitos embates de caráter pessoal e profissional.

A diferença em comédias românticas como “Metas de Relacionamento” está no pano de fundo e na capacidade do gênero de retratar os tempos em que a histórias se passam. Um gênero de grande fôlego em Hollywood, produzindo clássicos e bons filmes desde os anos 1930. Neste ponto, o longa-metragem dirigido por Linda Mendoza, adaptando livro do Pastor Michael Todd, apresenta uma premissa interessante. Porém, seu desenvolvimento é um pouco atrapalhado, ao ponto de tornar incompreensível o discurso ao qual a obra se alinha (ao final do processo de pesquisa, saber que o pastor foi também responsável pela produção a transformou em uma tentativa chapa branca de promoção do discurso. Porém, apresentada de forma tão contida – ou, podemos dizer, covarde – que entendo que não se prestou ao fim destinado).

Tudo começa na primeira reunião de pauta que colocará frente a frente Leah e Jarrett na luta pelo cargo mais alto no programa. O tema é o programa especial sobre o Dia dos Namorados (estamos perto do Valentine’s Day, o que justifica a data de estreia do filme) e sugestões ultrapassadas e preguiçosas são colocadas na mesa. Até que Jarett saca do bolso um livro escrito por um pastor, no qual aplica os preceitos da fé cristã em uma espécie de guia para o relacionamento ideal.

Você também conhece essa história, ela está toda semana na TV e enche as prateleiras das poucas livrarias ainda existentes. Assim como o casal do “Casamento Blindado” brasileiro, o pastor sempre está ao lado de sua esposa em um discurso que mistura evangelização e mentoria. O sucesso de obras que unem autoajuda e religião não é um fenômeno apenas em nosso país (aqui está a questão que permeou minha indecisão sobre o real caráter da obra: estamos realmente diante de um filme propagandista que não se assume por covardia ou incapacidade técnica ou uma história propositalmente mal engendrada para capturar e aumentar o rebanho?).

Nas representações de “Metas de Relacionamento” temos enquanto protagonista uma mulher cética e pouco disposta a aceitar aquela leitura quadrada e pragmática de como deve se desenvolver uma relação a dois (sempre hétero, diga-se de passagem). Por outro lado, entende o interesse do público e a demanda pelo assunto e não fecha as portas para produzir uma reportagem, buscando um tom mais crítico. Só que o texto é pobre neste outro embate, dentro da temática na qual o filme se insere. Todas essas intenções estão presentes, mas nunca se concretizam (aqui, um indício que aproxima mais a incapacidade do que ao ardil citando no parágrafo anterior?).

Já as duas amigas de Leah são apresentadas como mulheres que não “dão sorte” em seus relacionamentos. Treese (Annie Gonzalez) tenta encontrar o amor em aplicativos de relacionamento, enquanto Brenda (Robin Thede) se sente “presa” a um namoro de seis anos com um jogador de basquete que não lhe pede em casamento – mesmo em uma relação aparentemente recheada de sentimento. Elas se conectarão com o manual do pastor guru, assim como Jarrett, a ponto de citar versos bíblicos em diálogos sobre a vida de casal (já aqui – ao contrário do parágrafo anterior – está um indício que vincula a obra a uma inocência forçada para pregar para não convertidos).

O longa-metragem é protagonizado e ambientado por pessoas e em um espaço bem definido. Um grupo de mulheres e um homem na casa dos 40 anos, esmagados por uma vida de muita dedicação ao trabalho e pouco tempo para a vida em família. Um fenômeno tão mundial e perigoso quanto os livros de autoajuda evangélicos e a chamada Teologia Coaching. Após duas décadas sendo o motor de desenvolvimento de sociedade que involuíram, parecem suscetíveis a qualquer discurso que os apresente um caminho para o sucesso nos espaços em que sempre fracassaram (justamente os cordeiros em potencial que Michael Todd precisa).

A única cena do filme em que há uma sensação de entendimento e de uso dessa leitura de personagem e social é a chegada das três amigas em um bar às 9 da noite. Muito cedo para encontrar não apenas um futuro relacionamento, elas decidem aproveitar a pista de dança ao som de “Goodies” da Ciara, sucesso no início dos anos 2000. Não o suficiente para compreenderem que não há receita que transforme o amor em um manual. Isso não ficar claro na história, é tão incômodo que fica a sensação de alinhamento da obra aos casamentos blindados (aqui está um momento em que a leitura fílmica original parece mais próxima da realidade).

Relacionamentos não são uma ciência exata e qualquer análise que proponha a unificação de comportamentos é tão generalista e inoperante quanto a coluna de horóscopo do jornal. Os protagonistas, aliás, como parte da produção de revistas matutinas deveriam conhecer essa parcela de encheção de linguiça que não deve ser levada a sério (uma coisa é a astrologia e direcionamentos baseados em mapa astral, outra coisa é tentar definir como vai ser o dia de todas as pessoas daquele signo do zodíaco). A autoajuda evangélica permite a união de discurso pastoral e de coach com toda a sorte de aplicabilidade. Eles “ensinam o caminho” de maneira genérica e colocam pressão sobre a sua fé para dar certo (aqui, assumindo o tom propagandista identificado, a crítica se aproxima do incômodo real em obras como “Metas de Relacionamento”).

Depois de mostrar personagens moldando seus comportamento pelo livro, com direito a uma cena de culto espetáculo que aparece sem muita repercussão na trama, a conclusão prova que uma matéria jornalística bem editada pode convencer até a produtora cética do material que ela nunca escolheria como pauta.

Metas de Relacionamento” se coloca em um ambiente difícil de representar, pois provoca danos às pessoas vulneráveis – e elas são muitas. Brinca com discursos imunes ao erro, já que – se não der certo – é porque o receptor falhou. O emissor está tão blindado quanto o casamento idealizado que ele oferece como resultado final.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.