Freaky Tales

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Sinopse: Quatro histórias interconectadas ambientadas em 1987 em Oakland, CA., o filme contará sobre o amor pela música, filmes, pessoas, lugares e memórias além do nosso universo conhecível.
Direção: Anna Boden e Ryan Fleck
Título Original: Freaky Tales (2025)
Gênero: Ação | Comédia
Duração: 1h 47min
País: EUA | Canadá

Freaky Tales 2025 Crítica do Filme

Muito Mais do que Raios Verdes

Surpresa positiva no catálogo de estreias do Telecine nas últimas semanas, “Freaky Tales” tem estrutura episódica e uma clara mensagem de como o fascismo sempre operou nas mais diversas frentes – e nunca esteve perto de estar adormecido. Escrito e dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck, a história se passa no dia 10 de maio de 1987, um dia marcante na história da cidade de Oakland e da NBA. Uma trama é criada a partir do evento real, reescrevendo com altas doses de ficção e fantasia os fatos.

Esta não é a única proximidade do longa-metragem com as últimas obras tarantinescas, desde o sucesso de “Bastardos Inglórios” (2009). Podemos apontar também a alta dose de violência, na sequência final como um pastiche, além dos diálogos visuais que transformam as imagens em sequências de releituras referenciais (mais do que um “maneirismo clássico”, olha que expressão curiosa).

Freaky Tales” tem início com a história de três adolescentes punks que saem do cinema após assistirem “Os Garotos Perdidos” (1987), terror teen dirigido por Joel Schumacher e que, na realidade, foi lançado apenas no final de julho daquele ano. Sua imprecisão histórica se justifica pela relação tanto das personagens da primeira história quanto da segunda. A gangue de vampiros como uma metáfora nazista e a relação dos heróis com os quadrinhos, elementos de uma obra em pouco tempo alçada ao título de cult.

Saindo do cinema, os jovens são atacados por um grupo de skinheads, nova roupagem fascista comum nos Estados Unidos da época. Assim como a turma de Scott Pilgrim, os punks terão que se organizar para dar uma lição dos filhos dos nazistas de farda ou distintivos, netos dos membros da Ku Klux Klan. Por sinal, literalmente o pai do líder dos skinheads é um porco fardado, representado a partir da segunda história por Ben Mendelsohn. O palco desta batalha será um bar de rock.

Já a segunda história retoma a saída da sessão de “Os Garotos Perdidos”, nos apresentando Entice (a popular cantora Normani, estreando nos cinemas) e Barbie (Dominique Thorne). O produtor executivo e narrador do filme, Too $hort, interpreta ele mesmo, um rapper de sucesso que tenta movimentar seu clube convidado as meninas para uma apresentação. Aqui o palco da batalha será diferente, envolve um ambiente extremamente machista, levando às sensações de medo e insegurança na dupla em busca do sucesso. Na tela da TV, o jogador de basquete Sleepy Floyd (Jay Ellis, em impressionante performance de ação na história final) dá uma entrevista após um dos grandes feitos da história da liga de basquete norte-americana.

Antes de chegar nele – e na proximidade com os eventos reais – a terceira história de “Freaky Tales” traz rostos ainda mais conhecidos do público. Pedro Pascal é Clint, um cobrador de dívidas da máfia em seu último trabalho, a poucas horas de se tornar pai – e viúvo. Em participação especial, Tom Hanks interpreta uma personagem dos sonhos de Tarantino, ex-funcionário de videolocadoras nos anos 1980, tempo em que o conhecimento do balcão era parte da experiência. A partir deste episódio, o desejo de vingança muito mais maduro e adulto nas figuras de Clint e Floyd ganha terreno.

O longa-metragem é um empilhado de referências, algumas expressamente citadas como “Veludo Azul” (1986) e outras flagrantes, como a montagem na sequência final tal qual uma luta de “Kill Bill: Vol. I” (2003) e a já citada narrativa episódica, cheia de torques quadrinescos, como “Sin City – A Cidade do Pecado” (2005) e “Scott Pilgrim Contra o Mundo” (2010). Outras são totalmente visuais, como a entrada em cena de “Os Suspeitos” (1995) no momento em que Clint tenta identificar o assassino da esposa ou na morte mais violenta em clara alusão a “Scanners – Sua Mente Pode Destruir” (1981). Além disso, brinca com a marca de troca de rolo de filmes da época da película toda vez que uma reviravolta na trama acontece.

É a quarta história que “amarra” todas essas pontas. Parte da noite no jogo de playoffs da NBA em 10 de maio de 1987, dia em que o Golden State Warriors evitou ser “varrido” pelo futuro campeão Los Angeles Lakers, liderados por Magic Johnson. O verdadeiro Sleepy Floyd comandou uma virada no último quarto, sendo até hoje o recorde de pontos em um período na fase final da liga. A ficcionalização do que aconteceu depois do jogo naquela noite foi surpreendente até para o próprio Floyd, como podemos ver na entrevista linkada.

Na forma como “Freaky Tales” reescreve a história, há o elemento fantástico do raio verde, capaz de ampliar a força do soco de um punk para derrubar o preconceito, capaz de levar duas jovens rappers às nuvens, capaz de produzir uma lágrima capaz de promover o perdão de um bandido recém aposentado; e capaz de virar uma partida contra o imbatível Showtime Lakers. Mas, o que fica, são os elementos reais e a proposta de uma histórica cíclica, revelando a uma parcela de público ainda inocente que confederados, skinheads, policiais corruptos e nazistas são da mesma laia.

E não precisa muito esforço para descobrir as novas versões do fascismo hoje em dia. O que não dá é depender de projeção astral para combatê-las.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.