A Miss

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Sinopse: Iêda (Helga Nemetik), ex-vencedora de concurso de beleza na juventude, sonha que sua filha, Martha (Maitê Padilha), siga a tradição da família e vença um concurso de Miss. No entanto, Martha não tem aptidão nem interesse para isso. Por outro lado, seu filho, Alan (Pedro David), parece ter mais talento para reivindicar a faixa e a coroa. Com a ajuda do “tio Athena” (Alexandre Lino), os irmãos bolam um plano para que Alan realize o sonho da mãe sem que ela saiba.
Direção: Daniel Porto
Título Original: A Miss (2026)
Gênero: Comédia | Drama
Duração: 1h 48min
País: Brasil

A Miss 2026 Cinema Brasileiro Crítica do Filme

Espelhar e Reproduzir

Estreando nos cinemas no próximo dia 26 de fevereiro, a produção brasileiraA Miss” conta a história de uma família monoparental, chefiada por Ieda (Helga Nemetik). Uma ex-miss que faz de tudo para que sua filha, Marta (Maitê Padilha) siga seus passos e a carreira nos concursos de beleza. Como a sinopse adianta, a comédia situacional ganha forma quando o irmão gêmeo da menina, Alan (Pedro David) é descoberto vestindo roupas de mulher, momento em que eles bolam um plano – escondidos da mãe e com a ajuda de Athena (Alexandre Lino, também produtor e produtor de elenco do filme) – para que o garoto participe da escolha de Miss Grajaú no seu lugar.

Nas subjetividades de cada experiência, preciso confessar que o fato da história ser ambientada no bairro em que nasci e moro até hoje, gerou um curioso elemento de conexão. O roteiro do, também diretor, Daniel Porto (nascido em São Gonçalo) tem piadas que parecem feitas para um nicho muito específico de pessoas que conhecem não apenas essa região do Rio de Janeiro, mas também o povo que ali habita. Ieda, inicialmente apresentada como uma matriarca exigente e pouco satisfeita com os rumos da vida da filha, fugindo do padrão que ela imaginou, com o tempo vai se revelando produto do meio em que vive.

Com isso, “A Miss” nos revela uma protagonista que reproduz as expectativas da sua mãe quando nova. Ieda (que, sem dúvida, recebeu esse nome em homenagem à miss universo de 1963, Iêda Maria Vargas) não consegue romper o ciclo que – em certo momento – a esmagou. Marta (que, sem dúvida, recebeu esse nome em homenagem à miss universo de 1968, Marta Vasconcellos) não sabe, mas os flashbacks comprovam que ela sente os mesmo incômodos da mãe na antiga tentativa da avó de ver Ieda encontrar seu espaço na sociedade através da beleza.

Os poucos comentários já feitos pelo longa-metragem de Daniel Porto, de pessoas que respeito muito, criticam o filme pelo uso de estereótipos e na forma de representação de Alan em sua identidade de gênero. Ao final da sessão, pensei justamente o contrário. Há um equilíbrio entre comédia e construção dramática, a partir da boa direção de elenco. O irmão de Marta é, desde o início, apresentado como um menino confuso e o trecho da história que nós acompanhamos parece ser parte de seu processo de identificação e futura emancipação. A incompletude da representação de gênero não pode ser confundida com representação ruim ou ofensiva.

O fan service para quem conhece o Grajaú é saber que o bairro é dividido entre uma minoria progressista e muito consciente e uma população conservadora e envelhecida. Essa afirmação pode ser comprovada com dados das urnas nas eleições das últimas décadas. Ieda foi preparada para ser algo que não se consolidou e odeia fazer parte de um sistema provinciano e “presa ao lugar em que nasceu”. As piadas são clássicas da região, desde a desclassificação de uma concorrente à miss que, na verdade, mora em Vila Isabel; até o registro no concurso de Miss Rio de Janeiro da “força do subúrbio”.

Um bairro que vomita um orgulho carregado de preconceito, preocupado em limitar-se territorialmente através de CEP e que fica ofendido ao ser chamado de subúrbio, desconhecendo o conceito e ignorando o que de fato é. Nesse ambiente, de irmãos no último ano da escola de bairro e com uma mãe mais preocupada com o sucesso da filha do que com os estudos do filho, a trama se desenvolve.

O destaque vai para o elenco, com apenas quatro personagens centralizando todas as ações. Suas construções passam longe do exagero, o que permite a fluidez da comédia até o ponto em que o drama familiar ganha a tela. Outro acerto do texto de Porto é não se prender ao manual básico de desenvolvimento de roteiro, pensando o drama como linha de chegada ou escada para o clímax. A história de Alan não acaba no Miss Grajaú e ganha outro capítulo como ato final, com indícios de aceitação de Ieda – além de epílogo que brinca com a mistura de revista eletrônica com programa sensacionalista da televisão brasileira em crise.

Conseguindo divertir e não parecer uma obra envelhecida, mesmo utilizando um plot como a eleição de miss, o filme conta com participações especiais da Miss Trans, Ava Simões, da ex-paquita Andrea Veiga e a surpresa Ellen de Lima, reinterpretando a “Canção das Misses”, música até hoje referência dos concursos de beleza mais de sessenta anos após seu lançamento.

Por fim, “A Miss” desnuda a vida ordinária de Ieda e como ela não soube lidar com seu destino, levando isso à relação com os próprios filhos – e que não parece, para ela, deixar uma sensação de lição aprendida. Coisas do Grajaú.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.