Juntos

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Sinopse: Em “Juntos”, o que poderia ser uma oportunidade para recomeçar logo se transforma em um verdadeiro pesadelo, quando uma força sobrenatural começa a corromper sua relação, suas mentes e seus corpos. À medida que se afastam de tudo o que conheciam, o casal descobre que, para permanecerem juntos, terão que enfrentar um horror muito maior do que o que os separava.
Direção: Michael Shanks
Título Original: Together (2025)
Gênero: Horror | Romance
Duração: 1h 42min
País: Austrália | Estados Unidos da América

Body Horror para as Massas

Agora disponível no Amazon Prime Video, a comédia de terror “Juntos” merece um alerta para aqueles que não gostam de sentir nojo – mesmo sem problemas com experienciar o medo. Filmado em apenas três semanas na Austrália, escrito e dirigido pelo canadense Michael Shanks, o filme conta a história de um casal que, ao beber uma água mal parada em uma gruta no meio da floresta perto de sua nova casa, sentirá uma atração de corpos nunca vista e fisicamente muito potente.

Para chegar a este momento, o roteiro apresenta Tim (Dave Franco) e Millie (Alison Brie), homem e mulher de meia idade em crise conjugal – os atores são casados na vida real há quase dez anos. Tim segue alimentando o sonho de ter uma banda de rock de sucesso, enquanto Millie aceita um trabalho como professora de crianças em outra cidade, o que exigirá uma mudança dos dois. Ele demonstra incerteza em fazer este movimento, enquanto ela não consegue mais esconder a insatisfação pela ausência de sexo no relacionamento.

A premissa de “Juntos” – que marca a estreia de Shanks dirigindo longas-metragens – é bem interessante. Uma base narrativa que permite ao espectador uma curiosa metáfora sobre a busca do casal por reaproximação, comum após alguns anos de relacionamento.

Até mesmo o trauma da infância de Tim, apresentado pelo viés da fantasia, também faz parte desta construção. Isso ocorre quando a personagem conta a história de um entrelaçamento de ratos preso no lustre do seu quarto (um fenômeno que realmente pode acontecer, chamado de Rei dos Ratos e sinal de mau presságio). Isso gera, mais adiante, a descoberta do pai em decomposição na cama, pelo “costume” da mãe em só permanecer ao lado dele.

No melhor diálogo do filme, Millie é confrontada por Jamie (Damon Herriman), seu colega de trabalho na escola e que revelará outras intenções no curso da história. Eles falam sobre a confusão de sentimentos que podem transformar uma relação harmoniosa em acomodação. O casal do filme sofre, ao mesmo tempo, pelo afastamento de corpos e dependência emocional. Uma fórmula de insucesso, um casamento (ou namoro) que levará ao fracasso a qualquer momento.

Após horas na gruta com a água que passarinho não bebe, os protagonistas acham que passam por um evento pós-traumático. Uma atração física nunca sentida faz com que eles se grudem, em cenas de body horror para as massas. Como pano de fundo, o caminho sem volta de uma relação séria demais e que torna bem difícil o reencontro com suas individualidades – uma preocupação que deveria ser primária para a boa saúde de qualquer relacionamento.

Juntos” é bem menos humorado do que se vendeu, mas sua metáfora simples transforma a obra em uma agradável sessão. Seu tom otimista de aceitar a “condenação” do casal, baseado no Mito do Andrógeno de Aristófanes, ainda permite refletir sobre como, afinal, a harmonia sem acomodação é – na verdade – o desenvolvimento de uma personalidade de casal. O mais comum de acontecer, ao ser traduzido na fantasiosa imagem que finaliza o longa-metragem, provoca mais estranhamento que o terror corporal que o sucedeu.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.