Alabama: Presos do Sistema

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Sinopse: Filmado com celulares contrabandeados, “Alabama: Presos do Sistema” analisa um dos sistemas prisionais mais perigosos dos EUA.
Direção: Charlotte Kaufman e Andrew Jarecki
Título Original: The Alabama Solution (2025)
Gênero: Documentário
Duração: 1h 57min
País: EUA

Alabama Presos do Sistema 2025 Documentário Crítica do Filme

Falência Consciente

O título traduzido do documentário indicado ao Oscar de 2026 no catálogo da HBO Max pode dar a impressão de uma obra de true crime genérica. Mas “Alabama: Presos do Sistema” é muito mais do que isso – e seu título original, “The Alabama Solution” é explicado em cenas no meio do filme, o que justificaria a curiosa apresentação “A Solução Alabama”. Porém, o serviço de streaming se valeu de um expediente dos tempos da TV a cabo, lançando o longa-metragem dirigido por Charlotte Kaufman e Andrew Jarecki na América Latina com esse nome desinteressante.

Falando em latino américa, onde estamos, a obra que denuncia graves violações aos direitos humanos no sistema prisional dos Estados Unidos não é nenhuma novidade para quem acompanha a cinematografia brasileira. A leitura humanista sobre dignidade, respeito e a favor do caráter ressocializante do cárcere é um tema no nosso audiovisual comum há algumas décadas. Desde “Estação Carandiru”, livro lançado por Drauzio Varela em 1999 e adaptado como ficção para as telas por Hector Babenco, essa demanda da sociedade é levada ao fazer artístico e às mídias – muitas vezes gerando revolta dos “cidadãos de bem” que insistem em criticar os Direitos Humanos.

O grande destaque na sessão de “Alabama: Presos do Sistema” é sua coragem em apresentar alto grau de exposição tanto dos presos torturados quanto dos agentes penitenciários. Uma narrativa que disseca as informações, apresenta dados sem qualquer prepotência didática, apostando nas fortes imagens para fazer valer seu discurso. Direção e roteiro de utilizam técnicas de documentários tradicionais, através de entrevistas e sequências produzidas para este fim, mas nunca deixam a sensação de ser um tradicionalismo preguiçoso.

É justamente a partir da ideia de imagens reais forjadas na produção de um documentário que o filme ganha forma. Após uma diária registrando a população carcerária se alimentando no pátio, os realizadores são provocados a mostrar a realidade dentro das celas. São informados de que a qualidade dos alimentos era uma maquiagem do sistema prisional para ficar bem no vídeo. Além disso, apontam superlotação de 200% nas unidades do Estado.

Reconhecendo essa crise humanitária, o longa-metragem se valerá de uma burla ao sistema, utilizando telefones celulares dentro das celas – algo proibido. Essa é a única forma dos detentos provarem uma rotina de espancamentos, mortes, perda de pessoas para vício em drogas, dentre outros tipos de violação para além das condições insalubres. O que chega ao espectador de informação é um complemento, já que a montagem do filme é o suficiente para a boa contextualização.

Assim o público vai acessando as origens dos abusos cometidos em Alabama. Entre eles, a falta de publicidade nos atos do Estado, responsável pela tutela dos presos. Uma decisão da Suprema Corte dos EUA proibiu o acesso de jornalistas às unidades prisionais, em mais um capítulo da trajetória apocalíptica da destruição e desvalorização da mídia. Ela é quem dá voz aos que não têm e nossa sociedade aceitou com muita facilidade a ideia de descartabilidade deste ofício para se afundar em fake news e manipulação de quem detém o poder.

A morte de um dos presos, Steven Davis vira uma espécie de leading case para expor violência, corrupção e corporativismo dos agentes. Os registros dos celulares pelos detentos são, de fato, assustadores em sua crueza. Aos poucos essa composição ganha falas cada vez mais conscientes, como se o processo documental também tenha gerado uma necessária organização. Há aqueles que falam do medo de exposição de uma denúncia formal, enquanto outros tratam das ações em causa própria que deveriam gerar procedimentos administrativos contra os maus agentes – e que nunca foram para a frente. Aquele acusado de matar Davis tinha quase vinte denúncias nas costas.

Na metade de “Alabama: Presos do Sistema”, a obra ganha um aprofundamento histórico e político. De forma rápida, é apresentado o passado da região como capital da Confederação, de herança escravocrata e racista, tolerante ao encarceramento negro. Tanto é verdade que Kay Ivey, governadora do Estado, é reeleita com um discurso de construir mais presídios, mesmo que ao custo de diminuir a verba da educação. Isso tudo para seguir aplicando penas duras por crimes de pequeno potencial ofensivo, em um sistema de falência declarada e exposta desde que Angela Davis tratou a partir de suas pesquisas na década de 1970 e que se tornaram a celebrada tese do abolicionismo penal.

Nessa trama política, lutar contra o corporativismo gerou um contra-ataque das autoridades, representando uma queda vertiginosa no número de concessões de progressões de pena e liberdades condicionais. Luta contra a opressão respondida com mais opressão. De maneira descarada, o Secretário de Justiça aceita trazer a versão oficial para a obra, na tentativa de vender boas intenções.

Por fim, o tema amplo das violações dos Direitos Humanos enquanto premissa de “Alabama: Presos no Sistema” se transforma em um fato específico. A parte final dá conta da greve dos detentos, contra outro problema: o da exploração das suas forças de trabalho. Fica a sensação de que esse desenvolvimento caberia a um documentário especialmente sobre o assunto, já que fica um pouco corrida a apresentação do resultado final de uma construção de consciência e necessidade de associar-se para ter suas demandas ouvidas – mesmo que não atendidas.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.