Sinopse: Enquanto a Rússia inicia sua invasão em larga escala da Ucrânia, escolas primárias em todo o interior do país são transformadas em centros de recrutamento para a guerra. Diante do dilema ético de trabalhar em um sistema definido por propaganda e violência, um professor corajoso se infiltra para filmar o que realmente está acontecendo em sua própria escola.
Direção: David Borenstein e Pavel Talankin
Título Original: Mr. Nobody Against Putin (2025)
Gênero: Documentário
Duração: 1h 30min
País: Dinamarca | República Checa | Alemanha

A Época Sem Inocência
Em um certo momento de “Mr. Nobody Against Putin“, o protagonista Pavel Talankin fala do medo que ele está sentindo ao andar pelas ruas de sua cidade, Karabash, carregando uma câmera. O ato de filmar em tempos de guerra, em meio a um governo totalitário, é visto pelo outro como um risco. Isso porque câmera é discurso. Cinema é discurso. Não adianta o júri do Festival de Berlim deste ano, representado na fala lamentável do diretor Wim Wenders dizer o contrário e colocar a arte como identidade superior a qualquer politização.
Documentários como este, indicado ao Oscar na categoria em 2026 e representante da Dinamarca para o prêmio de filme internacional, é a prova contemporânea não apenas da arte política, mas também de certa função social de um ofício cada vez mais espetacularizado como o documentarista.
Pavel trabalha em uma escola tradicional de um dos territórios mais tóxicos do planeta. Literalmente. Conhecido por abrigar uma fundição de cobre que, há mais de cem anos, libera toneladas de gases e metais como arsênio, chumbo e mercúrio na atmosfera. A expectativa de vida da região está abaixo dos quarenta anos, muito por conta do grande risco de desenvolvimento de câncer provocado pela fumaça que torna a qualidade do ar insalubre. Como professor, coordenador de eventos e responsável pelos registros de imagens dos alunos, parecia viver uma vida tranquila, sobretudo ao se tornar referência para uma geração muito interessada na produção de conteúdo.
Em “Mr. Nobody Against Putin” as coisas começam a mudar a partir da invasão da Rússia à Ucrânia, em fevereiro de 2022. O documentarista, então, testemunha a ascensão do nacionalismo, o que gera profundo incômodo ao realizador-personagem. A partir de sequências captando a percepção daquela sociedade, em montagem que apresenta reportagens de televisão e pronunciamentos do Presidente russo Vladimir Putin, o espectador tem raro acesso a um país isolado culturalmente pelo Ocidente a partir do alinhamento com o discurso de invasão injustificável.
Desde a versão oficial do governo russo, doutrinando a população de que estamos diante de um combate direto ao neonazismo capitaneado por Volodymyr Zelensky, até o contido apoio dos populares, o ambiente do país parece bem representado na introdução do filme. O foco da obra é como a propaganda de guerra vem sendo aplicada às escolas, no que o Estado chama de “política educacional de educação patriótica“.
O carinho de Pavel pelo ofício da produção de imagens o leva a, em respeito aos seus sentimentos, registar com tom crítico seu trabalho. Ao mesmo tempo, ganha confiança dos representantes do governo, em virtude de sua experiência audiovisual. As crianças e adolescentes, daquela escola em Karabash, soam como o modelo perfeito de patriotismo, na Rússia profunda. Só que para isso dar certo, será necessário muita maquiagem e ensaio.
A indicação ao Oscar não é um acaso – e possivelmente a obra “tomou” o lugar que seria a segunda nomeação de Petra Costa como melhor documentário com “Apocalipse nos Trópicos” (2025), que também mexe no vespeiro de uma nação convivendo com seus movimentos antidemocráticos. Tanto ela quanto Talankin se colocam como figura central de seus filmes, mas aqui temos uma expressão mais conectada e consciente da figura do documentarista (o que Petra já fez muito bem em longas-metragens como “Elena” de 2012).
Somos apresentados a um profissional que tem que lidar com a insatisfação de ser um ferramenta propagandista – e lida com isso se tornando uma ferramenta de discurso contra hegemônico no território em que habita. Por outro lado, como Cinema é discurso, não podemos ignorar o fato de ser esta uma produção ocidental, realizada em parceria com a BBC. Claro que a insurgência de Pavel o fez se tornar um refugiado (atualmente reside em Praga, na República Checa) – e isso é apresentado na sequência inicial do filme. Ele, portanto, é um recorte bem definido pelo roteiro de David Borenstein.
Composto por imagens de arquivos de um tempo anterior à Guerra da Ucrânia, há uma tentativa de ampliação do leque de protagonistas. Porém, na experiência de assistir, o público já percebe a dificuldade disso ser estabelecido. Isso deixa um ar de pontas soltas e concessão de tempo de tela a histórias fora do foco da obra – e “forçando”, uma metragem maior ao filme.
Por exemplo, utilizando um expediente comum da juventude, a de retorno de ex-alunos às escolas e reencontro com professores que o formaram, conhecemos Vanya, um dos convocados da cidade para o conflito e que se perderá no campo de batalha após a cena clássica raspando os cabelos. Já Masha é uma adolescente em fim de ciclo escolar, aspirante a médica. Sua sensibilidade ao cuidar das correspondências do e para o irmão, soldado no front, a coloca como símbolo na escola, mas ela não parece tão confortável assim.
A partir deste ponto, o documentário se aprofunda nos registros de um inacreditável movimento infantil paramilitar, implementado por Putin e com inspiração na dominância stalinista do século XX. Repetição de erros do passado, mas que também denotam a forma como um país de densidade geográfica e proporções continentais é dominado por seus governantes, independente do espectro político. Uma herança propagandista que tira qualquer traço de inocência de suas crianças.
Ao contrário de outro indicado da mesma categoria assistido, “Alabama: Presos do Sistema” (2025), “Mr. Nobody Against Putin” – que venceu hoje o BAFTA de melhor documentário e segue inédito no Brasil – tem um poder de imagens diferente. Sai a violência crua da realidade dos presídios e entra a percepção sobre uma grande nação em guerra pelo olhar do coordenador de eventos de uma escola do interior. Ao final, há uma denúncia sobre a ausência de informações confiáveis sobre os números de mortes, em paralelo curioso com o governo brasileiro no auge da pandemia de covid-19.
Por fim, ficamos com uma despedida do funcionário de uma escola em Karabash que surge enquanto um documentarista que se colocou ao serviço do cinema político e que, mesmo diante da inviabilidade de continuar em seu país, faz um discurso de amor ao seu território e suas origens – destacando, sobretudo, suas imperfeições.
Veja o trailer:

