A Vizinha Perfeita

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Sinopse: Em “A Vizinha Perfeita”, imagens de câmeras policiais revelam como uma antiga briga de vizinhos acabou em morte neste documentário sobre medo, preconceito e a lei de legítima defesa nos EUA.
Direção: Geeta Gandbhir
Título Original: The Perfect Neighbor (2025)
Gênero: Documentário
Duração: 1h 36min
País: EUA

A Vizinha Perfeita 2025 Documentário Netflix Crítica do Filme

Sossego Assassino

Sempre contando com um representante da Netflix na categoria de melhor documentário do Oscar (quase que esta vaga foi parar no Brasil, com “Apocalipse nos Trópicos”), a experiência de assistir “A Vizinha Perfeita” não é muito diferente de zapear a televisão brasileira no final da tarde de um dia útil – ou nos finais de semana à noite, quando “reportagens especiais” nos apresentam a violência do cotidiano. A base da narrativa é uma doença social que parece tornar cada vez mais inviável o convívio entre pessoas diferentes.

O filme apresenta Susan Lorincz, uma mulher que se muda para um bairro no subúrbio do quinto distrito judicial da Flórida, ao norte de Tampa. Locatária de uma pequena propriedade, cercada de áreas comuns formada por gramados nos quais os filhos dos vizinhos passam o dia brincando. Como qualquer criança, correm, gritam e promovem suas travessuras. Susan, então, se mostra profundamente incomodada, ao ponto de acionar inúmeras vezes a polícia local sob a alegação de distúrbio do seu direito ao sossego.

A Vizinha Perfeita”, enquanto tema, tem um apelo universal. Reflete um mundo com cidades cada vez mais populosas e formadas por seres cada vez mais individualistas. Outro mal, que afeta os Estados Unidos há mais tempo e que já é reconhecido no Brasil, é o discurso tacanho de defesa de direitos individuais sem olhar o caráter da coletividade. Se aquilo me incomoda, eu vou acionar todas as autoridades para fazer valer o que – entendo – que me cabe. No documentário, essa leitura de Susan sobre uma garantia sua, gera desconforto entre os vizinhos.

O individualismo é acompanhado quase sempre pela intolerância. Susan aplica sua noção de “direito ao sossego” como se fosse possível exterminar das redondezas todos os sons que não lhe permitem “viver” o silêncio. Nos primeiros minutos do filme é possível identificar o componente racial de uma nova moradora, branca, em um bairro de maioria negra. Isso resultará no brutal assassinato de Ajike Owens, mãe de dois dos garotos que costumavam brincar pelo bairro.

O desenvolvimento deste forte aspecto será explorado apenas na parte final pela direção de Geeta Gandbhir e na montagem de Viridiana Lieberman, indicada ao Critics Choice Awards na categoria. A ideia do documentário vem da morte de Ajika, melhor amiga da cunhada de Geeta – o que atrai um pessoalidade à obra. O filme, detentor de vários troféus nesta temporada de premiações, venceu o prêmio de melhor documentário do Festival de Sundance, além do Independent Spirit Awards na mesma categoria.

“A Vizinha Perfeita”, enquanto linguagem, reflete uma era do Cinema de Dispositivo. Quase toda sua metragem é formada por imagens de câmeras de segurança das casas, câmeras corporais dos policiais, gravações de depoimentos após a detenção da protagonistas e registros dos telefonemas para o 911. Há alguns trechos, apenas para compor a montagem, em que a câmera revisita aquele território.

Com isso, a experiência é muito parecida com programas norte-americanos e brasileiros, como “Operação de Risco”, lançado há mais de quinze anos como versão nacional do reality “Cops” e há algum tempo o maior (ou único) sucesso da RedeTV. Aplica um olhar microscópico a uma questão muito debatida na sociedade, mas sem qualquer inovação de linguagem – pelo contrário, repete parte da tática sensacionalista que leva esses produtos televisivos a prender a atenção do espectador. Até porque, Netflix é televisão, (ou dispositivo). Nos desdobramentos de uma produção deste porte, a mãe de Ajika, Pamela Dias, fundou uma associação chamada Standing in the Gap Fund, que pretende dar suporte a familiares que sofrem as consequências da morte repentina e violenta de seus entes queridos.

Na sequência mais dura de “A Vizinha Perfeita”, o pai de dois meninos conta que sua mãe, baleada na frente deles por uma mulher sem condições de viver em sociedade, não voltará mais. A diretora registrou em entrevistas que a tentativa de reanimar Ajike foi captada pelas câmeras corporais, porém, eram fortes demais para o corte final. A segunda metade do filme, permitindo debates sobre conceito de legítima defesa e atraindo a questão racial para tratar da incômoda liberdade de Susan, talvez não tenha o mesmo impacto pela insistência da abordagem inicial em reproduzir a confortável linguagem televisiva. Para aqueles que permanecerem atentos após o repetitivo ciclo, há uma impactante história a ser presenciada.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.