Cutting Through Rocks

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Sinopse: Sara Shahverdi, de 37 anos, motociclista, proprietária de terras, ex-parteira que se tornou uma fervorosa defensora dos direitos dos cidadãos e recém-divorciada, acaba de vencer uma eleição local esmagadora em sua remota aldeia iraniana, e todos têm uma opinião sobre isso.
Direção: Mohammadreza Eyni e Sara Khaki
Título Original: Cutting Through Rocks (2025)
Gênero: Documentário
Duração: 1h 35min
País: EUA | Alemanha

Cutting Through Rocks 2025 Documentário Crítica do Filme

Do Impossível ao Feminino

No primeiro semestre de 2023, tive a missão de dar um curso em oito aulas sobre Cinema Iraniano Contemporâneo – um desafio difícil pela quantidade de filmes e realizadores do período, quase impossível de traçar um panorama em apenas oito encontros. Aqui na Apostila trouxe um pouco dessa experiência na crítica de “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” (2009), de Bahman Ghobadi. Poucos meses antes, o episódio da morte de Mahsa Amini, levou a um capítulo importante da Revolta dos Sedentos, na forma de uma série de protestos criticando a violência contra mulheres e a manutenção da Polícia de Moralidade. Um dos slogans dizia: “Mulher, Vida, Liberdade”.

Nas reportagens da época, uma frase me chamou muito atenção: “a queda do regime é uma questão de QUANDO e não de SE”. Poucos anos depois, o documentário “Cutting Through Rocks”, dirigido por Mohammadreza Eyni e Sara Khaki, ainda inédito no Brasil e indicado ao Oscar 2026 na categoria melhor documentário, coloca lupa sobre uma história que reflete bem essa ideia.

Vencedor do Grande Prêmio do Júri como “documentário internacional” no Festival de Sundance, o filme conta a história de Sarah Shahverdi, a primeira mulher eleita como conselheira, cargo eletivo dividido por regiões do país e de forte dependência do engajamento naquela comunidade. Ela que nasceu sendo a última mulher entre os irmãos. Com a morte do pai, se tornou a provedora da família, já que os filhos homens eram crianças e as irmãs já estavam casadas ou prometidas.

Como se pressentisse o futuro, o pai de Sarah lhe mostrou como ter autonomia. No símbolo maior dessa independência, o uso da motocicleta. Com o passar dos anos, a protagonista de “Cutting Through Rocks” enxerga a possibilidade de fazer mais pela sociedade na qual está inserida e se candidata, uma permissividade que vem porque, de certa maneira, o regime liderado pelo recém-assassinado aiatolá Ali Khamenei busca adaptar-se aos novos tempos na forma de pequenas doses de progressismo.

Com um sistema estatal bipartido, o Irã tem suas instituições legalistas, parecidas com a da maioria dos países, só que hierarquicamente inferiores a sharia, a lei divina. Com isso, qualquer “avanço” encontra resistência em uma liderança que interpreta a religião do país sempre de forma a vilipendiar os direitos das mulheres. O documentário, então, mostra que ganhar a eleição – sendo, inclusive, a mais votada – não é o fim da história. A vitória de Sarah ainda está muito distante.

O mais impressionante do longa-metragem são os espaços que a câmera ocupa. Encontrando personagens convictos de suas crenças e atribuições, não existe uma limitação do olhar. Falas sobre os outros concorrentes da eleição são um exemplo. Enquanto jurista, chamou minha atenção a cena em que uma jovem de dezesseis anos delibera com um juiz solicitando divórcio após mais de três anos de casada. Para além das questões problemáticas do regime iraniano, as facilidades de produção audiovisual e a possibilidade de termos registros de momentos como este torna a obra uma das mais interessantes da temporada de premiações.

Até que o comportamento estatal, na figura dos outros conselheiros, leva a narrativa para outro lado – ainda mais focado na imagem de Sarah, agora um símbolo de independência. Começa com o estranhamento provocado pelo fato dela não receber o selo concedido ao conselheiro com mais votos.

Poucas horas após a abertura da janela de votação do Oscar, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Entre as primeiras notícias que chegaram, o bombardeio a uma escola de meninas em Minab – resultando, segundo confirmação do New York Times, até a publicação desta crítica, em 175 mortos. Talvez isso dê outra conotação ao documentário e ele vá de azarão para potencial vencedor. Um documentário que, de fato, merecia mais visibilidade.

O discurso de renovação da conselheira, com forte poder de identificação entre as mulheres, gera uma resistência de quem detém o poder. Eles percebem que a ameaça de uma mulher que pretende orçar obras para fornecimento de gás seguro para as casas, além de praças com parques para as crianças – providências que impactam a vida de mães e provedoras. Em “Cutting Through Rocks”, o boicote não parece suficiente e passam a questionar a identidade de gênero de Sarah, negando a possibilidade de ter o poder uma face feminina.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.