A Natureza das Coisas Invisíveis

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Sinopse: Glória tem 10 anos e passa as férias no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira. Lá ela conhece Sofia, uma menina que está convencida de que a piora na saúde da bisavó é causada pela internação no hospital. Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Quando a partida se torna inevitável, as meninas e suas mães seguem para um refúgio no interior do Goiás para passar os últimos dias de um verão inesquecível.
Direção: Rafaela Camelo
Título Original: A Natureza das Coisas Invisíveis (2025)
Gênero: Drama
Duração: 1h 30min
País: Brasil | Chile

A Natureza das Coisas Invisíveis 2025 Crítica do Filme

Sombras e Rituais

Eleito um dos melhores longas-metragens nacionais pela Abraccine, já está no catálogo da NetflixA Natureza das Coisas Invisíveis”, escrito e dirigido por Rafaela Camelo. Uma obra que apresenta inúmeros elementos narrativos que já se tornaram comuns na Cinema Nacional Contemporâneo – e responsável por transformar a produção nacional em uma das melhores do mundo. Articula representações de gênero, territorialidade, religiosidade e criação de memórias, em um mult iprotagonismo que apresenta diferentes formas e desafios de ser mulher.

O filme baseia sua história no encontro entre Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena). A primeira passa os dias das férias de escola acompanhando sua mãe, Antônia (Larissa Mauro), como enfermeira. Já a segunda leva sua bisavó para ser internada após uma queda, salvando sua vida diante da ausência da mãe, Simone (Camila Márdila). A idade de dez anos das duas, próximas à entrada da pré-adolescência, é marcada pela tentativa das crianças de assumirem responsabilidades. Isso se reflete no início do longa-metragem, quando Glória pede para sua mãe para viajar no banco da frente do carro, enquanto negocia ter um cachorro.

Em relação à caracterização, “A Natureza das Coisas Invisíveis” é irretocável. Não apenas apresentando as meninas desenvolvendo um senso de direção sobre as próprias vidas, mas também na representação de duas mães chefes de famílias, ambas em processos de reestruturação. A bisavó de Sofia, única rede de apoio de Simone, é diagnosticada com Alzheimer, o que impacta não apenas na rotina, como na relação entre elas. Enquanto isso, Gloria se mostra incomodada com as tentativas de Antônia de preservar sua inocência em questões cruciais como a morte, ao mesmo tempo em que a coloca em um ambiente que existe à sombra deste evento.

A forma como o texto se apresenta, algumas vezes, não é tão irretocável assim. O trabalho de roteiro de Camelo é desafiador para a preparação de elenco, sobretudo por colocar na boca das crianças falas adultas demais na primeira metade, refletindo uma maturidade que ultrapassa essa perda de inocência representada. Glória reclamar aos dez anos que a mãe não responde a uma pergunta “minimamente razoável”, sem uma caracterização que denota a repetição de uma expressão que ela aprendeu (sem entender muito bem o significado) é um exemplo do que pode gerar desconexão do público com a história.

Porém, esses momentos são bem raros. A história de “A Natureza das Coisas Invisíveis” nos leva a caminhos de amizade e crescimento humano de maneira muito singela. Aí está a verdadeira potência da obra. Desde questões universalistas como a passagem de valores dos nossos pais na prática, a partir de um dia os acompanhando no trabalho; até leituras específicas a partir da saúde das personagens, como o já citado Alzheimer (dialogando com o melhor filme brasileiro do ano passado, “Kasa Branca“) e o transplantes de coração de Gloria – o que possibilita um aprofundamento narrativo a partir de flashes em cenas com linha temporal deslocada.

A grande qualidade do longa-metragem é apostar no já citado multi protagonismo. Nos aproxima das quatro personagens de igual modo, variando entre sequências com câmera pela perspectiva infantil, como naquela em que Gloria e Sofia abrem caixas com pertences de antigos pacientes, revisitando memórias dos mortos, com outras como o estreitamento de relação entre Antônia e Simone. A participação da atriz Aline Marta Maia, como a bisa Francisca é um elo fundamental para o desenvolvimento da trama. Até que, na metade do filme, sai o ambiente do hospital e entra o sítio da bisavó de Sofia.

Neste ponto, a obra ganha muito mais força. Não apenas pela quebra narrativa, a partir da linda montagem usando a música “Fazenda”, de Milton Nascimento (e que completa cinquenta anos de seu lançamento em 2026). Rafaela apresenta uma câmera mais observadora, explorando aquele território. Um sítio que carrega as marcas do tempo, pelo olhar de quatro gerações de distância. É um olhar curioso sobre um espaço tão cotidiano e, ao mesmo tempo, tão ancestral, remetendo ao outros dramas mais populares do Cinema Nacional nos últimos anos, como “Que Horas Ela Volta?” (2015), protagonizado também por Camila Márdilla; e “Benzinho” (2018).

Essa virada na linguagem é acompanhada por um roteiro mais certeiro, permitindo à realizadora enriquecer aquelas representações. A sombra da morte dá espaço para os rituais da morte, seja pela aceitação da finitude de uma matriarca ou na morte de um nome, o que precisa acontecer quando Sofia volta a um território a partir da nova vida enquanto uma mulher trans. Acertadamente, os diálogos vão se tornando cada vez mais raros e a estreia de Rafaela Camelo como diretora de longas-metragens deixa uma última impressão bem mais forte do que sua primeira metade.

Exibido na Mostra Generation do Festival de Berlim do ano passado, “A Natureza das Coisas Invisíveis” concorreu ao Teddy Awards, premiação voltada a filmes com temática LGBTQIAPN+ e foi destaque no Festival de Gramado. Na lista dos dez melhores longas produzidos no país do 15º Prêmio Abraccine, agora disponível a um extenso público pela plataforma de streaming mais popular do país.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.