Sinopse: Em “A Rainha do Xadrez”, a prodígio húngara do xadrez Judit Polgár desafia o campeão Garry Kasparov e seu pai controlador por 15 anos, quebrando barreiras de gênero para se tornar a melhor jogadora da história.
Direção: Rory Kennedy
Título Original: Queen of Chess (2026)
Gênero: Documentário | Esporte
Duração: 1h 33min
País: EUA

Conheceis a História
“A Rainha do Xadrez”, novidade da semana na Netflix, consegue ao mesmo tempo nos prender com sua boa história e fazer refletir sobre a pouca ousadia e pobreza de linguagem de documentários via streaming. Uma nova forma de distribuição de filmes feita para permitir a fuga da zona de conforto televisiva, as amarras do tempo de duração ou da formatação para o que se entendia como “público em geral”. Mesmo com essas questões, o documentário sobre a húngara Judit Polgár e seu caminho à elite do esporte para a qual foi moldada a praticar, permite várias leituras interessantes.
A primeira delas é a ideia de que a protagonista, junto com suas duas irmãs mais velhas, foram parte do experimento de seu pai. Em meio ao declínio do regime comunista (com consequências até hoje), László Polgár optou por não dar às filhas a educação padronizada pelas escolas e a trocou por longas horas diárias de aulas de xadrez. Seu plano copiava o dos grandes gênios: a prática leva à perfeição, por mais que exista certa dose vocacional e de dom. Conseguiu transformar as três, de fato, em grandes jogadoras.
Apesar de “A Rainha do Xadrez” não fazer a mesma coisa de “King Richard: Criando Campeãs” (2021) e dar o protagonismo ao patriarca ambicioso, a sequência inicial não coloca Judit direto em cena. Assim como em um duelo, ela enquanto desafiante assiste os holofotes serem colocados em Garry Kasparov, considerados por muitos o maior enxadrista da história (para a Vera Magalhães, a disputa é com Sergio Moro). Uma abordagem um pouco estranha de Rory Kennedy (indicada ao Oscar em 2015 pelo documentário “Last Days in Vietnam“) e da montagem de Jesse Overman e Azin Samari, que colocou esse conflito em primeiro plano, quase como uma obsessão pela vitória.
Sobre as origens da família Polgár, o documentário perde a chance de dialogar de forma mais profunda com outro longa-metragem da mesma temática, “Glória a Rainha” (2020) que assisti na programação do Festival É Tudo Verdade de 2021. A ousadia de linguagem permite recortes e ampliações que tornam a experiência de assisti-lo muito mais completa, a partir de quatro gerações de enxadristas da Geórgia e as implicações políticas de seus sucessos. As produções em streaming, pelo contrário, insistem na tática de narrativas cada vez mais rasas – mesmo quando a obra documental é feita em episódios.
A Globo Play é exemplo em transformar grandes figuras do Brasil do século XX em seriados que parecem uma mistura de trivia com reencontro nostálgico dessas personagens. Nada muito diferente em “A Rainha do Xadrez”, que reúne entrevistas com as três irmãs, o pai e Kasparov, editadas com preciosas imagens de arquivo. E não vão muito além disso. Para os mais atentos, existe a possibilidade de (re)conhecer na trilha sonora bandas como Tilly and the Wall, Elastica e Le Tigre.
Essa é outra questão pouco explorada no documentário. Ao mesmo tempo em que devemos louvar narrativas que abordam o apagamento de mulheres em várias áreas, usar o tema apenas como mote é pouco, sugando um filão e tornando filmes como este em uma obra de um nicho generalista. Não faz mais sentido a abordagem puramente documental jornalística quando há no tabuleiro várias possibilidades de problematização temática e experimentações audiovisuais.
Para os amantes de esportes, a cronologia e o foco em grandes vitórias e derrotas prenderão a atenção do espectador. Para os iniciados e xadrez, o documentário inclui parte das técnicas e jogadas utilizadas nas partidas entre Judit e Kasparov, um elemento que deve tornar a sessão mais interessante. Quem é da minha geração talvez conheça o enxadrista russo como aquele que desafiou o computador da IBM em meados dos anos 1990. Inclusive, aos leigos surpreende o fato de Kasparov ter utilizado uma jogada ilegal contra Polgár e isso não ter abalado sua imagem de “maior de todos os tempos”, a partir de sua personalidade bem construída.
O que não surpreende são os motivos, afinal, é comum erros de mulheres serem imperdoáveis na sociedade, enquanto os de homens serem vistos como pequenos tropeços em suas carreiras brilhantes. Mesmo comparando gênios como Polgár e Kasparov. A forma como o Estado fez de tudo para que ela não pudesse competir fora do território soviético, enquanto ele foi usado como arma política de propaganda de inteligência e desenvolvimento do regime é outro caco perdido no caminho do filme com potencial nunca explorado.
Judit se destacou no final dos anos 1990 e início dos 2000, uma época de certa guinada progressista no planeta. O fim do mundo bipolar, a globalização, os planos de um mundo conectado em uma internet livre e uma análise crítica da História das nações fez muita gente (eu inclusive) acreditar que era um ponto sem retorno. Duas décadas depois constatamos, com tristeza, que vivíamos uma fase – ou uma onda. O resultado final é um filme que não tem a mesma agressividade desafiadora de sua protagonista.
Porém, “A Rainha do Xadrex” é uma produção inserida em um sistema que, tal qual o mundo do xadrez machista da jovem Judit, “autoriza” ou “permite” a ocupação de espaços limitados. Em trechos de entrevistas com grandes mestres do passado, a forma de despejar preconceito é imputar uma carga genética ao comportamento e capacidade das mulheres serem grandes enxadristas ou ter foco e controle mental necessários. Por séculos isso é desculpa para práticas racistas e xenofóbicas. Nada mudou e a apresentação da história da húngara ainda tem um ar de exceção que confirma a regra.
Veja o trailer:

