A Voz de Hind Rajab

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Sinopse: Em uma noite de terror em Gaza, uma ligação de emergência se transforma em uma corrida contra o tempo para salvar Hind Rajab, uma criança de 6 anos presa em um carro sob fogo cruzado. Em contato permanente com a menina, voluntários do Crescente Vermelho enfrentam enormes desafios para coordenar uma operação de resgate em meio à violência extrema. “A Voz de Hind Rajab” reconstitui uma história real.
Direção: Kaouther Ben Hania
Título Original: صوت هند رجب | Sawt Hind Rajab (2025)
Gênero: Guerra | Drama
Duração: 1h 29min
País: Tunísia | França | EUA | Reino Unido | Itália | Arábia Saudita | Chipre

A Voz de Hind Rajab 2025 Crítica do Filme Imagem

O Genocídio Envergonhado

Estreando nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, uma semana após conseguir a segunda indicação ao Oscar de melhor filme para a Tunísia na história, “A Voz de Hind Rajab” é uma das milhares de histórias reais sobre o genocídio na Faixa de Gaza. Mas também é um exemplo de escolhas de produção e forma de ancorar a atenção do espectador, criando envolvimento emocional e provocando grandes sentimentos do público.

Com elenco todo de palestinos, o filme reconstitui história real de grande repercussão na região, sobre uma criança de seis anos presa em um carro no meio de uma operação do Exército de Israel na Faixa de Gaza. Há outros dois filmes sobre a menina produzidos em 2025, curtas-metragens dos Países Baixos e da Jordânia. Este longa-metragem contou com ajuda da mãe de Hind Rajab na produção.

O longa-metragem é escrito e dirigido por Kaouther Ben Hania, também realizadora de “O Homem que Vendeu sua Pele” (2020), agradável surpresa na lista de finalistas do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood há cinco anos. Sua obra anterior me chamou a atenção pela simplicidade na apresentação da trama, que nos leva de Raqqa, epicentro da ascensão do Estado Islâmico na Síria, até o Líbano, onde o protagonista tentará uma nova vida longe dos conflitos.

Enquanto o roteiro anterior trazia alguns elementos fantásticos e uma trama incomum, “A Voz de Hind Rajab” não apenas repete a simplicidade na apresentação da história, mas também nas representações. A realizadora teve acesso às gravações reais da menina de seis anos, personagem-título do filme, em sua tentativa de resgate pelo grupo humanitário Crescente Vermelho, no bairro de Tel Al-Hawa, região densamente povoada no sudoeste de Gaza. Hania, então, desenvolverá a história concentrando nosso olhar à central de atendimento deste coletivo de voluntários, nos deixando apenas com a voz de Hind Rajab.

A informação de que estamos ouvindo uma voz real é fundamental para a experiência da sessão ser avassaladora. A ausência do rosto também é parte importante, além de algo comum na rotina de trabalho do Crescente Vermelho. Eles registram as fotos daqueles que são resgatados ou vitimados todos os dias em Gaza e possuem o perfil de um rosto não identificado para registrar pessoas como a menina. As performances do elenco demonstram o peso de uma produção carregada de denuncismo, provavelmente um dos filmes-denúncias mais importantes dos últimos anos.

Sua presença no Oscar tem o poder de dar visibilidade a uma situação que há anos está insustentável. Israel não se mostra nem um pouco disposta a parar com os bombardeios até não restar um ser vivo nas regiões de ocupação do povo palestino. Na obra, o espectador tem acesso a uma política de resgate que depende da burocrática obtenção de sinal verde para uma área específica e com motivação comprovada. Eles correm contra o tempo para tentar acessar o carro em que Hind está, em uma espécie de cessar-fogo limitado no tempo e no espaço – e nem sempre eficiente, como também veremos.

A escolha estética de “A Voz de Hind Rajab” prende a atenção, ainda que boa parte do desenvolvimento da trama tenha um caráter informativo. Há crescimento de expectativa apenas no terço final, ampliando tanto a ação quanto a densidade dramática. É comum em produções envolvendo crianças em zonas de guerra, mas ainda se destaca a consciência precoce da morte. Não há espaço para o lúdico, mesmo na preparação do resgate de uma criança de seis anos em meio a um bombardeio. A equipe de resgate em campo também é apresentada apenas com suas vozes.

O risco em se aproximar da área na qual Hind está é outro aspecto da guerra que nunca deixará de chocar quem é contra qualquer política armamentista: há uma preocupação em minimizar o número de vítimas e isso passa pela possibilidade de abandonar alguém com uma vida toda pela frente, como a protagonista. Boa parte da narrativa usa a alternância de momentos de desolação e renovação de esperança a cada nova ligação ou notícias sobre a negociação para o sinal verde que chega.

Destaco em especial uma cena do filme, que insere um diálogo que sintetiza a escolha estética da realizadora. Quando o grupo de voluntários cogita levar à imprensa mundial o caso da menina, um deles mostra no celular vídeos reais e fortíssimos do genocídio em Gaza e questiona a ausência de empatia gerada por essas imagens, que se acumulam nos noticiários há anos. Vale notar que o peso que é dado à voz de Hind Rajab como parte da engrenagem ficcional é muito diferente de uma notícia de alguns segundos no jornal diário de sua preferência. Sabemos disso. É nossa culpa também.

A Cruz Vermelha é um dos agentes citados no longa-metragem e é sempre bom lembrar que estamos caminhando para um nível de totalitarismo em nações como os Estados Unidos que organizações independentes e fundamentais como ONU, Otan, Médicos Sem Fronteiras e a própria Cruz Vermelha vêm sendo esmagadas e desautorizadas. Quando abrirmos os olhos, algumas delas sequer existirão.

A Voz de Hind Rajab” transforma seus dez minutos em uma narrativa quase em tempo real. É o tempo que durará o sinal verde. Hania mantém a simplicidade do cenário único e deixa todo o impacto para os últimos instantes. Revelar os rostos das vítimas após mais de uma hora ouvindo suas vozes dá uma dimensão do que é a guerra. E chega aos cinemas brasileiros na quinta-feira. 29 de janeiro também é o dia em que se completam dois anos da morte de Hind Rajab. 

A realidade é que passamos por cima de muitas atrocidades que a Humanidade vem produzindo ao longo do tempo. O genocídio na Faixa de Gaza é mais um. Futuras gerações um dia perguntarão “como chegamos a este ponto?”, “o que você estava fazendo enquanto isso acontecia?” e nossas respostas terão uma mistura de amnésia seletiva e vergonha após seguirmos o caminho e a tática da naturalização, ao mesmo tempo em que tentamos sobreviver à nossa própria realidade.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.