Artigo | A Verdadeira História Não Existe
Quantos Silvios Santos cabem no Cinema?
Silvio Santos gostava de contar uma história sobre o dia em que uma cigana contou para ele que ele morreria logo após receber uma grande homenagem e que, por isso, ele não gostava de receber este tipo de atenção em vida. Uma dos casos que nunca saberemos se foi verdade na biografia do empresário e apresentador brasileiro. Até porque homenagens aconteceram, uma das mais marcantes o desfile da escola de samba da Tradição em 2001, com o enredo “Hoje é Domingo, É Alegria, Vamos Sorrir e Cantar”.
Todavia, Senor Abravanel morreu no dia 17 de agosto de 2024. Um dia antes do lançamento da plataforma Mais SBT, que prometia transmissões 24 horas de seus programas antigos, além de uma extensa série documental – apresentada na TV ainda em fase de finalização horas após o anúncio de seu falecimento. Naquele mesmo semana, chegariam aos cinemas de todo o país “Silvio” (2024), drama biográfico estrelado por Rodrigo Faro e que precisou ser adiado por algumas semanas diante do trágico acontecimento.
Pouco mais de um ano depois, a chegada à plataforma de streaming Netflix de outra produção sobre Senor Abravanel me motivou a escrever este artigo. Em sessão dupla, emendei “Silvio Santos Vem Aí” (2025), com Leandro Hassum como protagonista e “Silvio” (no catálogo da HBO Max) e identifiquei muitos desafios para transpor a vida (ou uma parte) de uma personalidade tão famosa, icônica e audiovisual para as telas.
Na Apostila de Cinema será publicada crítica apenas de “Silvio Santos Vem Aí” (e que você lê clicando aqui). Como disse em outros textos, a retomada do site tenta concentrar sua linha editorial a lançamentos nos cinemas e streamings a partir de 2026 (com algumas exceções, como este longa-metragem, que passou pelo circuito comercial no final de novembro do ano passado).
Dito isto, é difícil achar um brasileiro indiferente a Silvio Santos. Boa parte das pessoas, em algum momento da vida, o admirou – ou, pelo menos, se divertiu com ele. Nos últimos anos de vida, o estranhamento de gerações mais novas e uma sociedade mais consciente fizeram com que ele fosse cancelado (algumas vezes). Sua face empresarial tem momentos de profunda humanidade e outros de extrema agressividade. Lendas sobre perucas, uma esposa escondida no início da carreira televisiva, mentiras tomadas como verdade como um golpe a Manoel de Nóbrega… Dá para listar momentos de sua biografia que moldaram imagens de um Silvio Santos na cabeça de cada um.
Como alguém muito interessado em mídias, de forma geral, minha relação com aquela personalidade sempre foi de curiosidade. Saber mais sobre o comunicador mais brilhante que o país já teve e o empresário capaz de se adaptar a todos os cenários em um Brasil com diversos picos de instabilidade. O ano de 2001 – como é dito nos créditos de “Silvio” foi especial na vida e obra de Abravanel. Um novo auge na carreira, com sucessos estrondosos como “Show do Milhão” e “Casa dos Artistas”, ao mesmo tempo em que foi vítima de um sequestrador dentro de sua própria casa.
Em paralelo, Arlindo Silva escrevia uma biografia que seria lançada no ano seguinte, chamada “A Fantástica História de Silvio Santos”. Foi ali que conheci muitos fatos usados como base das narrativas dos dois filmes – além de desenvolver um olhar cético sobre tudo o que saía da boca de Silvio ou que era publicado sobre ele. Lembro que o que mais me impressionou foi a curta fase política do empresário.
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O Silvio de 1989
A Apostila aqui é de Cinema, então não vale a pena perder tempo com exercícios sobre uma realidade alternativa, na qual Silvio Santos foi Presidente da República. Acredito que teria sido um desastre, mas os motivos para pensar assim gastariam longos parágrafos e preciso que você, raro leitor, fique comigo até o fim.
A campanha presidencial de 1989 é o ponto de partida de “Silvio Santos Vem Aí”. Se você já leu a crítica, sabe que um dos maiores problemas do filme para mim é ele ser mais um “filme do Leandro Hassum” do que um “filme sobre Silvio Santos”. Não enquanto linguagem, mas em sua produção. Talvez se o comediante de origem assumisse sua faceta mais talentosa e permitisse um protagonista em um ambiente mais anárquico, como na série “O Rei da TV” (2022-), o resultado final fosse mais interessante.
Porém, isso jamais seria possível, visto que o longa-metragem tem produção da Simba Content, sendo o SBT uma das empresas desta joint venture. Portanto, é uma biografia chapa-branca (muito mais do que “Silvio”) e todos os movimentos de Hassum são friamente calculados, como diria outro inesquecível personagem do mesmo canal. Contudo, o que faz o filme ser mais próximo de uma obra audiovisual do “cinema brasileiro comercial contemporâneo de shopping” é a reunião de profissionais ligados a essas produções e pouco preocupados em elementos cruciais para levar o espectador a 1989.
A diretora Cris D’Amato tem no currículo comédias como “S.O.S. Mulheres ao Mar” (2014), “É Fada!” (2016) – aquele da Kéfera – e “Os Parças 2” (2019). Aqui na Apostila escrevi sobre outro trabalho recente, a comédia “Viva a Vida” (2024), uma mistura de globochanchada com soft power israelense em tempos de guerra. Trata-se de uma realizadora de alinhamento aos projetos de maneira a não comprometer o resultado final. Ou seja, pautada no risco mínimo. Exatamente o que uma família como a de Silvio Santos desejaria.
O roteirista Paulo Cursino tem trinta anos de carreira e créditos em projetos bem-sucedidos, a começar pelo seriado “Sai de Baixo” (1996-2013). No cinema, além do já citado “De Pernas pro Ar”, podemos citar os maiores êxitos da carreira de Hassum, como a trilogia “Até que a Sorte nos Separe” (2012-2015) e “O Candidato Honesto”. Depois de adaptar a vida de outro ícone da TV em “Mussum: O Filmis” (2023), ano passado foram três obras roteirizadas por ele: as biopics de Silvio Santos e “Mauricio de Souza: O Filme” (2025), além da miscelânia peça de propaganda, ligeiramente autobiográfica de Marcos Mion, “MMA: Meu Melhor Amigo” (2025).
Para os rumos do projeto, também o profissional ideal. O filme joga ralo abaixo todas as possibilidades de representação da sociedade brasileira no pico de seu processo de redemocratização, além do impacto político e abordagem sobre quais eram os “interesses” em impedir a candidatura do comunicador citadas no filme. É o João Praxedes, personagem de Hassum em “O Candidato Honesto” imitando o SIlvio Santos, com um texto sem qualquer densidade dramática.
O que se vê na tela são fragmentos de emoção, a partir de participações de Regiane Alves (como Iris Abravanel) e Vanessa Giácomo (como Cidinha, primeira mulher de Silvio, em cenas que duram segundos). O restante do tempo de tela é comandado por Manu Gavassi, a publicitária Marília que vai acompanhar os passos do candidato empresário e tentar “desvendar sua personalidade”.
Sugiro a leitura da crítica do filme, pois ela traz os elementos que menos funcionam no longa-metragem. Envolve o entorno de uma produção que negligencia direção de arte, figurino e maquiagem, como se não compreendesse que está diante de uma narrativa de época. Desvaloriza o próprio espectador, apostando que o caráter imersivo do audiovisual terá pouca relevância na experiência, como se quiséssemos apenas assistir de forma curiosa como se deu a tentativa de Silvio Santos ser Presidente.
Lá eu cito a tentativa ineficiente de alívio cômico ao brincar com cortes e enquadramentos para esconder o Lombardi dos nossos olhos. Para acompanhar essa sequência, menciono aqui as caracterizações medíocres dos participantes do “Show de Calouros” e do Roque (mesmo que a revelação de seu passado com Silvio seja, de fato, interessante). Uma produção que nunca mirou em uma biopic minimamente fiel às representações de seu tempo, acaba se aproximando muito mais da paródia – e, pior: sem o ar de desbunde – de “O Rei da TV”.
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O Silvio de 2001
Com isso, resta ao artigo defender “Silvio”, estrelado por Rodrigo Faro. O resultado final também está longe de valorizar o biografado em toda sua complexidade. Todavia, as escolhas de narrativa e linguagem tornam a sessão mais salutar ao público, mesmo com a maquiagem de envelhecimento do protagonista, que transforma suas sequências em algo próximo das esquetes do “Friends” (1994-2004) sobre o passado da Monica Geller (Courtney Cox).
O roteiro tem diversos colaboradores creditados, mas podemos apontar como responsáveis Anderson Almeida (primeiro trabalho no cinema) e Newton Cannito. O segundo tem mais de vinte anos de experiência e teve um início promissor de carreira com “Quanto Vale ou é por Quilo?” (2005) e “Broder” (2010). Após colaborar na televisão, arriscou acumular roteiro e direção a partir de uma outra figura icônica da televisão, em “Magal e os Formigas” (2016) – esse nunca assisti, porém está disponível gratuitamente no Mercado Livre Play.
Cannito parece ter reencontrado os rumos da carreira, com “A Suspeita” (2021), estrelado por Gloria Pires e que assistir e escrevi na cobertura do Festival de Gramado. “Silvio” enquanto trama policial é mais próximo deste trabalho recente. A direção do longa-metragem é de Marcelo Antunez que, curiosamente, estreou na função com duas continuações no estilo das globochanchadas, “Qualquer Gato Vira-Lata 2” (2015) e “Até que a Sorte nos Separe 3: A Falência Final” (2015).
Porém, seu crédito mais marcante foi a obra golpista “Polícia Federal: A Lei é para Todos” (2017), estrelado por ex-líder do Morobloco, Marcelo Serrado, e cuja procedência de boa parte das verbas de produção nunca conheceremos. A despeito da peça de propaganda fajuta, o filme tem sua qualidade técnica e se destaca pela direção enquanto filme de gênero. É o trabalho de Antunez que mais se aproxima de “Silvio” – e que deve ter sido fundamental para sua inclusão no projeto.
Isto porque a escolha narrativa é de colocar o espectador em uma situação-limite de Senor Abravanel. Após um prólogo de perseguição policial a Fernando (Johnnas Oliva), o sequestrador invade a casa do empresário e o faz de refém. Dali em diante teremos uma mistura de thriller com narrativa em flashback de outros momentos-chave da vida de Silvio Santos.
A comparação com “Silvio Santos Vem Aí”, agora na Netflix, é incontornável. A direção de arte é muito mais conectiva no filme disponível na Max. Desde o primeiro momento, que também se passa no final dos anos 1980, com o menino Fernando se espelhando em Silvio na TV de 14 polegadas da sala, com um “Meu Primeiro Gradiente” em cima da mesa. Não apenas a representação da mansão do Morumbi em 2001, mas na Lapa do Rio de Janeiro no final dos anos 1940 e na São Paulo dos anos 1960.
Há escolhas típicas de uma produção que não tem orçamento infinito e se vale da criatividade, utilizando fundo preto e mise-en-scène limitada na casa do sequestrador quando criança. Assim consegue, ao mesmo tempo quebrar a narrativa tanto na linha temporal quanto a partir do estranhamento. Isso permite ser econômico no cenário em virtude do desafio de uma obra que precisa transitar em muitas fases da vida dos seus protagonistas.
O foco no sequestro e seus desdobramentos, inserindo Silvio Santos em um filme de ação com certa dose de violência, dialoga pouco com o público-alvo e se aproxima de um audiovisual brasileiro já um pouco ultrapassado, se pensarmos no que surgiu após “Cidade de Deus” (2002) e “Tropa de Elite” (2007), com tentativas de repetições de sucesso como fórmula, em “Última Parada 174” (2008), por exemplo.
Mesmo assim, dá uma personalidade à obra e permite uma dose de humanidade que o filme de Leandro Hassum sequer se preocupa em apresentar. Se valendo de uma questão familiar aparentemente mal resolvida, representada pela reaproximação das filhas do primeiro casamento (Cintia e Silvia) como consequência do fato que abalou os Abravanel, “Silvio” também tem seus problemas, mas eles não gritam na tela a todo momento como em “Silvio Santos Vem Aí”.
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O Desafio Final
Ou seja, ficcionalizar uma vida como a de Silvio Santos é um trabalho muito difícil. Seja com a benção dos familiares, em uma biografia chapa-branca; seja rompendo com essa ideia em “O Rei da TV” – e espero ter oportunidade de concluí-la e falar sobre ela e a já citada série documental do Mais Sbt “Silvio Santos: Vale Mais do que Dinheiro” (2024).
Ainda mais se estivermos diante de uma personalidade indecifrável. Assim como a atual Paris Hilton retratada em nossa crítica de “Infinite Icon: Uma Memória Visual” (2026), Silvio Santos desde muito novo foi o detentor do domínio sobre sua imagem. Errou muito ao esconder a esposa Cidinha, arrependimento eterno, seguindo conselhos que influenciaram seu próprio discurso. Mesmo assim, ser o comandante da forma como seria representado foi algo fundamental para o sucesso e vitalidade da sua persona pública.
Diante de tanta complexidade, dois filmes nunca seriam o suficiente para apresentá-lo. Talvez o amadurecimento de seu legado permita o lançamento de melhores histórias no futuro. Quando surgiam crises, como a campanha presidencial mal sucedida, seu sequestro ou a falência do seu banco, a personalidade nebulosa do empresário era usada como cortina de fumaça. Quando obtinha êxitos, como os 47 pontos (e picos de 55) da final da “Casa dos Artistas”, era o reforço positivo da imagem do animador.
O resultado dessa tática é que nunca saberemos a verdadeira história de Silvio Santos, já que ele colocou obstáculos no caminho. Fique cada um com a sua imagem e não espere que o Cinema esclareça suas dúvidas.
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