Artigo | Um Novo Ciclo Crítico

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Artigo | Um Novo Ciclo Crítico

Começo este artigo sem saber exatamente o que esse texto é — e muito menos o que ele será daqui a algum tempo. Os mais espertos argumentariam que qualquer texto crítico possui essa característica, mas o motivo aqui é outro, já que não vou citar sequer um filme

O leitor pode encarar as próximas linhas como o primeiro texto da Apostila de Cinema no Medium ou Substack; pode chamá-lo também de artigo que “relança” a página de um projeto que, em 2026, completará seis anos. Ou, ainda, pode considerá-lo uma carta de apresentação — ou de intenções, já que você descobrirá ao final que nada posso prometer.

Talvez, pensando na perspectiva de transformar a postagem inaugural das plataformas de newsletter em um “texto fixado”, seja de bom tom apresentar a Apostila de Cinema

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Apostila de Cinema

Criado no final de maio de 2020 por mim (Jorge Cruz) e Roberta Mathias, o projeto nasceu como uma proposta multiplataforma de discussão sobre o audiovisual — ou um site de crítica que, por necessidade mercadológica, precisou expandir seus tentáculos para todas as redes sociais e formas possíveis de “criação de conteúdo”.

Aqui está o primeiro ponto interessante: quando a crítica de cinema entrou na montanha-russa da criação de conteúdo. Existem ótimos textos circulando por aí, e talvez um dia eu dê minha opinião sobre isso. Fato é que, com dois meses de pandemia de covid-19, sem perspectiva de sair do confinamento e vivendo transes de produtividade, eu e Roberta tiramos do papel uma ideia que habitava nossas conversas há anos: um espaço em que pudéssemos discutir sobre filmes e sociedade

Somos adeptos de uma leitura de obra que vincula necessariamente a arte ao meio em que está inserida. Mesmo se tratando de uma lógica de mercado, nenhuma decisão ou resultado final que vemos na tela está à margem de uma leitura social (e ancestral, territorial, representativa etc.).

O leque de oportunidades para… hum… produzir conteúdo sobre audiovisual (sobretudo brasileiro) se abriu de forma inimaginável nos tempos pandêmicos.

Foi assim que, nos dois primeiros anos da Apostila de Cinema, escrevemos textos sobre mais de mil obras. Cobrimos todos os festivais relevantes do país, já que eles tiveram de se adaptar ao formato online. Gravamos entrevistas em vídeo e lançamos podcasts em ritmo quase industrial. E, sim, não vou elencar nomes para não correr o risco de deixar nada — e ninguém — de fora. 

Em paralelo, escrevemos artigos a quatro mãos para submissões em revistas acadêmicas e publicações da área de cinema. A pandemia era um oceano de possibilidades para quem despejou boa parte do medo sobre o futuro na produtividade.

De forma nada saudável, fizemos um pacto silencioso de preencher todo o tempo possível, sem nos dar conta de que, naquela época, havia tempo demais disponível. Não havia nenhuma chance de sustentabilidade no projeto quando nossas vidas voltassem “ao normal”. 

No meu caso, ela foi voltando aos poucos, mas, na virada para 2023, minha vida engatou a quarta marcha sem tocar novamente nos freios. Talvez agora eu precise abrir um parênteses para falar sobre mim antes da Apostila de Cinema.

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Ciclos Críticos

Cortando toda a parte embrionária e focando nas vezes em que investi no quase finado ofício de crítico, minhas primeiras publicações ocorreram na segunda metade da faculdade de Direito, por volta de 2007 ou 2008 — não lembro exatamente. Mesmo não escolhendo o Jornalismo ou o sonho de trabalhar com Cultura, a facilidade de acesso às informações (e aos filmes), somada à popularização dos blogs e ao início da “produção de conteúdo”, me levaram a transformar o que antes era pesquisa e colecionismo em ofício.

Os textos dessa época (e de outras) permanecem sem censura no meu Letterboxd pessoal — e, claro, grande parte deles soa muito ruim para o Jorge vinte anos mais velho. O blog, impulsionado pelas discussões no Orkut, ia bem; contatos de assessoria surgiam, algumas contribuições para sites apareceram. Mas nunca o suficiente para deslocar para o lado do Jornalismo Cultural o recém-formado em Direito da advocacia, lá em 2011, já fora da casa do pai e com boletos novos todos os meses para pagar. 

A vida seguiu com novas tentativas de manter periodicidade e obter algum lucro com a crítica de cinema, encontrando fôlego produtivo no início de 2019, quando colaborei para o Vertentes do Cinema.

A Apostila de Cinema mostrou-se viável entre maio de 2020 e o final de 2022. Mas 2023 foi um ano difícil, em que eu teria de brigar para manter o site atualizado — ignorando redes sociais e transformando vídeos e podcasts em um acervo sem previsão de retomada. Ideias surgiam, cronogramas pareciam possíveis, mas uma sequência de desafios pessoais e profissionais tornava qualquer execução inviável. Ainda assim, tive a oportunidade de ministrar três cursos no Sesc do Rio de Janeiro, realizando outro sonho: o de ser professor.

Até que, no início de 2024, submeti meu nome à Abraccine e fui aceito em uma mensagem inesquecível, recebida em maio — mês em que a Apostila completaria quatro anos. Em paralelo, os desafios profissionais só aumentaram, e seguiram assim até o fim de 2025. Não é uma reclamação: afinal, a crítica de cinema não se mostra uma profissão viável há muito tempo (se é que um dia realmente foi). Focar no trabalho jamais será motivo de arrependimento. Mesmo assim, pude me dedicar à associação em importantes projetos que serão divulgados nos próximos meses.

Há algumas dezenas de textos completos, escritos em 2024 e 2025, que não foram publicados por puro cansaço diante de novas revisões e ajustes. Pretendo voltar a alguns deles nas próximas semanas.

E então chegamos aqui, na virada para 2026.

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O que Esperar de 2026

Lembra que eu não sabia o que esse texto seria — e será? Pois bem, até agora ele parece uma postagem blogueira do início do século, mas juro que essa não era a intenção. De fato, o objetivo é retomar a produção de textos críticos nas próximas semanas (sendo otimista: meses), de forma constante, saudável e sem riscos para a rotina. Lembra também que eu disse que não poderia prometer nada? Pois é: continuo sem saber como — ou quão intensa — será minha rotina.

Por isso, fica definido que este artigo será uma carta de intenções. Eu já tinha dado essa opção.

A ideia original é continuar escrevendo sobre filmes no site da Apostila de Cinema, sem pressão de gerar nenhum conteúdo que não seja textual. No Medium e no Substack, pretendo publicar semanalmente um resumo do que foi produzido — sempre aos domingos — além de um “artigo de quinta” (como esta amostra inicial).

Claro que vou tentar aliviar também essa pressão, deixando alguns conteúdos “frios” programados para as semanas mais pesadas. Minhas merecidas férias servirão para isso. Agora, em janeiro, devo articular opiniões sobre algumas obras que foram destaque em 2025, já que o recesso de fim de ano tem servido para tirar o atraso e assistir boa parte do que repercutiu.

Para quem já conhecia o site da Apostila de Cinema, uma mudança será perceptível: apesar de continuar marcando como categorias os streamings onde o filme foi visto, a seção “Onde Assistir” deixará de ser destacada na página. Tornou-se inviável atualizar as categorias seguindo os catálogos das plataformas. E com a produção moderada de conteúdo, preciso abandonar a pretensão de transformar a Apostila em uma plataforma de busca. Até porque — assunto para outro artigo — leitores são uma espécie em extinção.

No mais, prometo que serão raríssimos os textos carregados de pessoalidade. Talvez uma história ou outra sobre minha relação com o audiovisual para tapar buracos, mas a pauta será majoritariamente a discussão sobre os filmes — e sobre a sociedade, apesar de hoje haver quem prometa exatamente isso para ganhar seguidores. Embora, como disse lá no início, eu não seja capaz de prometer nada. Nem se, nem como, nem quando. 

Por enquanto só posso desejar até a próxima quinta-feira!

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Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.