Dinheiro Suspeito

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Sinopse: Em “Dinheiro Suspeito”, quando uma equipe de policiais de Miami encontra milhões de dólares em um muquifo usado como esconderijo, a confiança fica abalada e todos viram suspeitos.
Direção: Joe Carnahan
Título Original: The Rip (2026)
Gênero: Policial | Ação | Suspense
Duração: 1h 52min
País: EUA

Dinheiro Suspeito 2026 Netflix Crítica do Filme

Os Gringos Também Corrompem

Era madrugada de sexta para sábado. No calor sufocante do Rio de Janeiro, só consegue dormir após o sono levar você ao desmaio. Imaginando que isso demoraria mais duas horas, cogitei assistir “Dinheiro Suspeito”, filme de ação que tinha estreado naquele dia no catálogo da Netflix, direto em streaming. Pensei melhor e deixei para a manhã seguinte. Foi a melhor escolha que poderia fazer.

O elenco cheio de rostos famosos e liderados pela dupla Ben Affleck e Matt Damon, em outros tempos, seria uma garantia de produção de grande orçamento e cheio de sequências ancoradas na emoção e com o objetivo de prender os olhos do espectador na tela. Esse tipo de longa-metragem quase não existe mais. Boa parte do que chega é um punhado de cenas, algumas muito longas ou picotadas pela montagem, com um fiapo de história e narrativa que jamais desafia a inteligência e concentração da plateia.

“Dinheiro Suspeito” é mais um exemplo do subgênero “filme da Netflix” – e falo isso te afirmando que há no catálogo do streaming mais popular do mundo muitas estreias interessantes, como a produção indiana “Um Direito Meu” (2025) assistido há duas semanas. O pior é que os concorrentes (seja estúdio ou outras plataformas) agora copiam o modelo. De certa maneira, não há como fugir desta realidade e criticá-la toda semana, texto sim, texto não, fará pouca diferença. O espectador-cliente e até parte da crítica já se acostumaram com a ideia, ao ponto das primeiras impressões publicadas sobre o filme serem razoavelmente positivas.

O longa-metragem conta a história de uma equipe de combate ao narcotráfico do Estado de Miami, liderada pelo Tenente Dane Dumars (Damon). No arco introdutório, o assassinato suspeito de Jackie (Catalina Sandino Moreno), uma das agentes, leva a uma investigação federal e entre os investigadores está o irmão do Sargente J.D. Byrne (Affleck), membro da equipe que foi preterido na escolha da liderança, ao mesmo tempo em que mantinha um caso pouco sigiloso com Jackie. Com isso, os primeiros minutos da história se concentram na apuração preliminar do homicídio.

Só que o trabalho tem que continuar e a equipe vai atrás de uma denúncia de dinheiro do cartel colombiano escondido em uma casa na cidade de Hialeah, localizada bem ao sul da Flórida e conhecida pela grande presença de imigrantes latinos. No organograma policial norte-americano, uma equipe é diferente de uma divisão (como a DEA). Ela pode ter caráter temporário e ser extinta caso não cumpra seus objetivos. Por isso, aquele grupo precisa mostrar, ainda mais, competência e eficácia dos seus serviços.

Vale o registro da leitura estereotipada da casa ocupada por uma jovem imigrante colombiana, Desiree (Sasha Calle). Em tempos de ascensão fascista dentro da ICE nos Estados Unidos, uma obra deste porte colocando justamente os colombianos como representantes da rota de cocaína é temerário. Só que “Dinheiro Suspeito” está longe de ser um “Depois da Caçada” (2025), drama estrelado por Julia Roberts ano passado que agride a pauta identitária, mirando na crítica social e acertando no desserviço. Até porque, rapidamente, o foco do filme escrito e dirigido por Joe Carnahan irá para a outra ponta: a da corrupção policial.

Por sinal, a ideia de deslize ético-criminoso dos agentes da lei não é exclusividade do Brasil, fica bem clara a informação de que a história é baseada em fatos, tanto que nos créditos a produção é dedicada ao policial que ajudou na produção. Na residência em Hialeah, é localizado um montante de dinheiro muito maior do que a denúncia. Para ser mais preciso, 20 milhões de dólares. Tem início, então, o protocolo burocrático de contagem das notas, aumentando a suspeita entre os agentes de quem alguns deles farão “o rapa” do título original. Outros só queriam voltar para casa após um longo dia de trabalho, mas a vida de um provedor da lei e da ordem não é tão simples assim.

A produção é contida nas sequências de ação e articula de forma pouco aprofundada e extremamente didática o debate ético entre o grupo de combate ao narcotráfico. Há momentos em que o roteiro parece focar no diálogo, mas o texto é pobre. Uma produção brasileira provavelmente apresentaria diálogos muito melhores e uma mise-en-scène teatralizada coerente com a representação. No cinema norte-americano essa criatividade é bem mais difícil de encontrar.

A edição usa a tática já cansativa de uso de flashbacks explicativos para desenhar ao público entretido na segunda tela o que, de fato, “aconteceu”. No modelo “filme da Netflix” não há quase espaço para inventividade audiovisual, ao mesmo tempo em que se exige a necessidade de compreensão de uma plateia desatenta. Senão, eles não voltam ao catálogo e o conceito de sucesso no streaming é acumular tempo de tela dos usuários.

Boa parte do orçamento da obra parece ter ficado com a sequência final. De fato, a virada no meio do filme e as revelações em seu clímax são interessantes, ao contrário da forma como elas são exploradas na tela, na sanha autoexplicativa.

A sugestão de que o cartel de drogas mantenha relação de proximidade com a polícia, em um pacto na qual um não entra no território do outro e não mata seus representantes em “tempos de paz”, também é muito brasileira. Não só carioca, em uma cidade em que quase metade do espaço é desprovido de Estado e comandado por traficantes e milicianos, mas em outros centros como São Paulo. Coincidentemente, ontem foi presa uma delegada acusada de envolvimento com o PCC, por exemplo.

Como um esquecível balão de ensaio, assim terminou “Dinheiro Suspeito” e minha manhã de sábado no Rio de Janeiro. Sem insônia, mas, ainda, com muito calor. Consumidor, cliente, usuário. A mudança de hábitos, pelo menos, deu ao crítico sinônimos para espectador, público, plateia. Mesmo que isso não seja uma coisa boa nem para o Cinema e nem para o ofício de escrever, que se serve cada vez menos a leitores e mais para alimentar alguma Inteligência Artificial.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.