Sinopse: “Dois Procuradores” se passa na União Soviética, em 1937. Milhares de cartas de detentos falsamente acusados pelo regime são queimadas em uma cela de prisão. Contra todas as probabilidades, uma delas chega a um recém-nomeado promotor local, Alexander Kornyev. Em busca de justiça, o jovem promotor se mobiliza para denunciar os métodos arbitrários praticados por agentes da polícia secreta, a NKVD.
Direção: Sergei Loznitsa
Título Original: Zwei Staatsanwälte (2025)
Gênero: Drama | História
Duração: 1h 57min
País: França | Alemanha | Países Baixos | Letônia | Romênia | Lituânia | Ucrânia

Nebulosos Conceitos
Estreando nos cinemas brasileiros em 5 de fevereiro, o drama jurídico “Dois Procuradores” foi um dos destaques da mostra competitiva do Festival de Cannes. O diretor ucraniano, Sergei Loznitsa, é um dos responsáveis por uma das grandes experiências que tive em salas de cinema nos últimos anos, com a exibição de “State Funeral” (2019) no Festival do Rio de 2019 (escrevi sobre ele neste texto). Ao contrário do trabalho de montagem de imagens de arquivo, seu novo longa-metragem, coprodução de sete países europeus e filmado na Letônia, é uma obra de ficção.
Isso não significa que não haja um impressionante trabalho de pesquisa, em roteiro do próprio Loznitsa, inspirado na vida do físico Georgy Demidov, que permaneceu preso nas gulags por quase vinte anos sob acusação de ser trotskista. O filme se passa na União Soviética de 1937, período de ascensão da face ditatorial do regime liderado por Josef Stálin. Em um extenso prólogo, somos apresentados à uma das prisões que contavam à época com milhares de condenados. Prezando pela incomunicabilidade, todas as cartas com apelos daqueles que – aparentemente – estão no bloco especial de presos políticos, são sumariamente queimadas.
Porém, uma delas chama a atenção e chega ao seu possível destinatário. Entra em cena Kornev (Alexander Kuznetsov), um jovem procurador, recém-formado em Direito. Escrita com o próprio sangue do enclausurado, a correspondência fala em informações cruciais. Começa, então, o giro burocrático até que o protagonista possa encontrar o emissor da carta, Stepniak (Aleksandr Filippenko). A proteção do sistema autoritário começa pelo diretor do presídio e sua crítica direta à juventude do promotor, que parece ousar interferir em seu trabalho.
“Dois Procuradores” é de um período anterior à Declaração Universal dos Direitos Humanos, publicada no final de 1948. Sua narrativa histórica e denuncista em relação às opressões promovidas por Stálin, não deixam de dialogar com o presente. Após o tempo do filme, houve uma guerra mundial e a criação de um organismo internacional de mediação para que novos conflitos não ocorram. Na política de manutenção da soberania dos povos, o respeito à dignidade humana é elemento fundamental.
Na obra, as acusações de prática de crimes antirrevolucionários levam milhares de cidadãos soviéticos a presídios de condições insalubres. Uma extensão das colônias de trabalho do século XIX, com aplicação de penas que – na prática – os levam à morte, da forma mais sofrida possível. Refletindo sobre as grandes nações (democráticas ou não) de um mundo cem anos à frente do tempo do filme, percebemos que mudaram as desculpas (acusações) para o cárcere, mas não as condições humanitárias e o pouco apreço pelo devido processo legal.
Para os interessados apenas na História, “Dois Procuradores” é um ótimo documento. Fala do tempo da NKVD – braço executor da forte repressão política das décadas de 1930 e 1940 na União Soviética – e de certo separatismo bolchevique, substituindo a ditadura do proletariado pelo totalitarismo stalinista. Loznitsa tem o distanciamento necessário para mexer no vespeiro soviético ao optar pela frontalidade na denúncia de confissões a partir de longas sessões de tortura. Não seriam apenas inocentes se incriminando, o que por si só é desprezível, mas pessoas fiéis à causa socialista esmagadas por um núcleo temporariamente vencedor.
A forma como o realizador desenvolve a narrativa é, ao mesmo tempo, hipnótica e sufocante. Em proporção 4:3, usando quase sempre a luz natural e com enquadramentos que nos aproximam dos rostos de Kornev e Stepniak. As bordas da imagem quase sempre são tomadas pela escuridão ou pela indefinição, limitando nosso olhar e dialogando com a incompreensão do protagonista. Um homem que deveria promover a justiça, mas parece perdido ao presenciar o nebuloso conceito de verdade.
A narrativa dialoga com a tradição literária russa, algo que, particularmente, me fascina no audiovisual da região dos antigos países soviéticos. Tratei um pouco disso em minha antiga crítica sobre “Malmkrog” (2020). Aqui a exploração da temporalidade é um pouco mais contida, porém rende uma das grandes cenas do filme. Ela acontece na viagem de trem para Moscou. Em um vagão popular, Kornev escuta a história de um homem e seu encontro com Lênin. É como se o tempo fosse suspenso para registrar aquela experiência que soa como acidental, mas tem a potência de sintetizar e encapsular o período em que a trama se desenvolve. Entendemos ainda mais a sociedade soviética de meados dos anos 1930 a partir de tal sequência.
Para o protagonista, restará o encontro com o Procurador Geral e levar adiante a denúncia de Stepniak. Ele compra a tese de eliminação de cidadãos fiéis à causa e condenados como infiéis ao regime a partir de confissões forçadas por tortura. A burocracia do início não será nada perto do testemunho de uma política de manutenção da autonomia e blindagem da violenta NKVD – ao interesse apenas de alguns, na roda infinita de qualquer sociedade dos poderosos lutando pela manutenção de seus privilégios.
Antes do fim desolador e, infelizmente, nada surpreendente, “Dois Procuradores” ainda nos colocará de novo em um trem. Desta vez em vagão executivo, com Kornev mais próximo daqueles que ele deveria entender como seu grupo. Mais uma vez, no diálogo dúbio sobre sabotagem, investigação e a quase sempre esquecida presunção de inocência, um pouco do retrato de uma Grande Rússia que perdeu seu tempo pelo erro de sempre: a falta de humanidade.
Veja o trailer:

