Sinopse: Pasqualina, 91 anos, é uma senhora cheia de vida que mora numa casa de repouso e não possui mais parentes vivos. Certo dia, decide fugir para se lançar em uma aventura: reencontrar um antigo amor do passado. Nessa jornada, conhece Petrolina, ou Pety, uma menina de 8 anos que sente falta de ter uma avó. A amizade entre as duas muda suas vidas – e Pety, surpreendentemente, tentará adotar Pasqualina.
Direção: Anahí Borges
Título Original: É Tempo de Amoras (2025)
Gênero: Drama | Comédia
Duração: 1h 52min
País: Brasil

Novos Afetos
Estreou nos cinemas brasileiros na última quinta-feira, dia 26 de fevereiro, a produção nacional “É Tempo de Amoras” marcando a estreia na direção em longas-metragens da também roteirista e produtora Anahí Borges. Uma obra que, de forma muito sensível, cuida das diferentes formas de carência que sentimos em épocas diferentes das nossas vidas. Liderando o elenco está a formidável Rosamaria Murtinho que, aos 93 anos de idade, emociona no papel de Pasqualina.
É com ela que a narrativa tem início. Uma senhora que, voluntariamente, vai morar em uma casa de repouso, no bairro em que passou uma fase importante de sua vida. O reencontro não será territorial, mas também afetivo. Uma das motivações da protagonista é procurar Mauro (Antonio Pitanga), paixão antiga que ela não vê há décadas. A obra é mais uma vista pela Apostila de Cinema nas últimas semanas com caráter autobiográfico, já que Borges desenvolve o roteiro a partir de suas vivências, inclusive a referência visual do Horto Florestal em São Paulo.
Em paralelo, “É Tempo de Amoras” nos apresenta a dupla de amigos Pety (Analu) e Zezinho (Rafael Pereira). Ela é filha da enfermeira Irene (Jessica Córes). Adiar a volta da escola é uma tática para evitar os momentos de solidão, à espera da mãe em suas longas jornadas de trabalho. Ele é um garoto curioso, interessado em eletrônicos e eletrodomésticos antigos, ao ponto de perturbar o dono de uma loja de produtos usado para que permita desmontar as máquinas e ter acesso às peças. Um traço de saudosismo sobre um tempo não vivido. Por sinal, Pety é protagonista de três curtas-metragens anteriores da realizadora, todos disponíveis no canal da produtora no YouTube: “Pety Pode Tudo” (2012), “No Tempo das Formigas” (2017) e “Aventuras de Pety” (2019).
Pasqualina fugirá da casa de repouso e terá a desilusão do encontro com Mauro, agora casado com Diná (Zezé Motta). Após uma crise de pensão alta, seu caminho cruzará com o das crianças. A cumplicidade inicial leva a uma amizade entre Pasqualina e Pety, formada a partir dos gargalos sentimentais de cada uma. A senhora não tem familiares próximos e se mostra ainda interessada na vida, a despeito de todos os desafios da velhice. A menina sente falta de referenciais, seja pelo pai ausente ou por não conviver com uma avó, papel que cabe muito bem à nova amiga.
Anahí Borges utiliza na direção e no roteiro alguns elementos clássicos de construção de afeto, em paralelo com a revelações de memórias, desde planos-objetos em caixas de música, até guardar para o fim o que leva a protagonista a se mudar para uma “lar eterno” comandado por freiras. Uma obra contemporânea ao extremo, em um país que caminha para o envelhecimento pouco sustentável. Pasqualina ainda é uma exceção, facilitando a criação de uma rede de apoio mínima para tornar seus últimos dias menos difíceis.
Só que “É Tempo de Amoras” tem, ainda, um caráter profético. Faz o espectador, sobretudo os de meia-idade e já preocupados com o inverno da própria existência, refletir sobre essa necessidade de múltiplas associações apresentadas a partir de Pasqualina. Seja na segurança da casa de repouso, seja na amizade com Tereza (Bárbara Bruno), pouco (e bem) utilizada como alívio cômico, seja na ideia de uma nova família ao lado de Pety e Irene. Ao fim, não existe ausência que não será sentida. Fica a lição de que nunca é tarde para criar novos laços de afeto. O difícil é ter que fazê-los.
Veja o trailer:

