Embaixo da Luz de Neon

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Sinopse: “Embaixo da Luz de Neon” é uma história íntima e alegre de amor diante da perda. No documentário, as poetas Andrea Gibson e Megan Falley encontram força e bom humor inesperados, naquele que pode ser o último ano juntas.
Direção: Ryan White
Título Original: Come See Me in the Good Light (2025)
Gênero: Documentário
Duração: 1h 44min
País: EUA

Embaixo da Luz de Neon 2025 Documentário Crítica do Filme

Ser Até o Fim

Lançado no Brasil no final de 2025 direto no catálogo da Apple TV+, o emocionante documentário indicado ao Oscar 2026, “Embaixo da Luz de Neon”, acompanha a luta dx poeta e ativista Andrea Gibson contra um câncer incurável e terminal. Uma premissa que tende, com facilidade, a descambar para a exploração emocional do seu tema, levando o espectador às lágrimas. Aqui, o filme roteirizado e dirigido por Ryan White não segue caminhos tão óbvios e desenvolve sua narrativa a partir de blocos nos quais nos aproxima um pouco mais de biografade.

No primeiro momento, elu é apresentade ao lado da esposa, Megan Falley também escritora e editora dos fortes textos criados por Andrea. Vamos adentrando aquele espaço a partir de conversas frívolas nas refeições, até conhecermos mais sobre o desenvolvimento deste relacionamento amoroso. A partir das histórias do passado e das visitas de amigos, vamos entendendo a preocupação de Andrea pela forma como sua morte será sentida por Megan.

Esse é o primeiro grande tema de “Embaixo da Luz de Neon” a partir da ideia de finitude da vida. A proximidade do fim gera um tipo de responsabilidade emocional diferente. Ainda há o que ser vivido, mas diante do fato incontornável, tudo parece ter a tonalidade de algo derradeiro. Mesmo sabendo que isso se aplica a todas as pessoas, saudáveis ou não, na prática só exercemos o “possível” diante de uma notícia como a metástase de Gibson.

Como é comum em uma situação como esta, os registros cotidianos variam entre o bom humor e a tristeza profunda. Há, ainda, o medo de como será a vida de Meg sem Andrea, um curioso paradoxo humano já que é uma preocupação para além da própria existência. Receber a notícia de uma iminente (porém, nem tanto) interrupção da própria vida é não somente exercer o presente, mas também desapegar do futuro e de boa parte dos planos – mesmo os que ficarão apenas na própria imaginação.

Ao final do filme, Gibson lembrará que o diagnóstico inicial de dois anos parecia um período muito curto – quando, na verdade, é formato por um conjunto imenso de momentos. A consciência do fim acompanhada da sensibilidade artística de biografade cria na obra uma conexão poderosa com o público. Há muito mais do que se preparar para morrer e tentar realizar desejos antes de partir.

Há tempo para revisitar memórias e refletir. Neste ponto, a montagem de Berenice Chavez merece elogios, não se pautando apenas na cronologia das imagens – registradas entre janeiro e dezembro de 2024, sete meses antes da morte de poeta – e destacando esses blocos já citados.

Depois da história de amor contada, a ideia de fazer uma última apresentação no teatro, visto que a descoberta da doença levou ao cancelamento da turnê de Andrea. A seleção de poemas e preparação do roteiro ao lado de Megan, nos traz as lembranças sobre a descoberta da sexualidade de protagoniste, sua relação com ex-namoradas e a criação de uma comunidade no Estado do Colorado, historicamente mais conversador que outras regiões dos Estados Unidos.

Em paralelo, as falas de Meg denotam certa esperança de uma extensão da vida de companheire e a possibilidade de desenvolvimento de remédios eficazes ou até mesmo da cura definitiva do câncer. Pelo olhar dela, Gibson valoriza ainda mais as vitórias em pequenas batalhas no tratamento tão agressivo.

Antes de subir ao palco, o documentário, a partir das questões de gênero da personagem, cuida do passado de depressão e tentativa de suicídio de poeta. Uma época que não existe mais, já que a valorização da vida a partir do amor, do senso de comunidade e do ativismo virou o jogo a ponto de se transformar em um apego à existência. É clichê falar da tristeza pela partida de alguém tão jovem e disposte a transformar a própria vida em um arte tão representativa.

Embaixo da Luz de Neon”, então, nos leva à essa apresentação final, momento em que a emoção bem construída deverá ser traduzida em lágrimas. Fotos e vídeo de arquivo, utilizados no curso do longa-metragem, mas poderosamente editadas junto a Andrea Gibson no palco, traduzem em imagens essa linda existência. De forma ainda mais sensível, Ryan White termina o filme sem mencionar a morte, que ao final parece ser apenas um detalhe frente a uma vida tão poderosa.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.