Extermínio

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Sinopse: Em “Extermínio”, um poderoso vírus está a solta. Transmitido em uma gota de sangue e com efeito devastador em alguns segundos, o vírus mantém os infectados em um estado permanente de descontrole assassino. Dentro de 28 dias, o país está tomado e um punhado de sobreviventes inicia esforços para garantir algum futuro à raça humana, mas o que não percebem é que o vírus mortal não é única coisa que os ameaça
Direção: Danny Boyle
Título Original: 28 Days Later (2002)
Gênero: Terror | Ficção Científica | Drama
Duração: 1h 53min
País: Reino Unido | EUA

Extermínio (2002) Crítica do Filme Apostila de Cinema

Sobre Zumbis e Lobos

Um filme que marcou para sempre a trajetória dos zumbis na cultura pop é uma das produções mais lucrativas da década de 2000. Em seu auge criativo, Danny Boyle realizou “Extermínio” ao custo de 8 milhões de dólares e o faturamento nas salas de cinema foi quase dez vezes maior: 75 milhões. Isso em uma época em que outros tipos de venda eram igualmente lucrativos, a partir de licenciamento para exibições em TV (canais a cabo e aberto), além do chamado home video (tanto para locação quanto, no auge dos DVDs, para venda). O longa-metragem também colocou no radar o talentoso roteirista de Alex Garland.

Esse sucesso gerou problemas mais adiante, como você poderá acompanhar na série de críticas que a Apostila de Cinema publica sobre todos os filmes da franquia até agora. O “filme de origem” começa com a liberação de um vírus testado em primatas na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Graphic novel considerada dentro do cânone de Extermínio lançada mais adiante explica que se trata de uma variação do Ebola, enquanto que Boyle e Garland admitem, algumas vezes, que o vírus da Raiva (assim denominado) é uma metáfora simples para a fúria da sociedade contemporânea (a raiva social).

Alguns fatores são fundamentais para o sucesso de “Extermínio” e sua alçada como clássico do horror e da ficção científica. Um deles é seu lançamento poucos meses após os ataques terroristas em solo norte-americano, em meio a um Ocidente que cicatrizava e desenvolvia seus traumas. Boyle estava filmando o longa-metragem, inclusive, no dia 11 de setembro de 2001. A sensação de instabilidade e ameaça de guerra em solo da Otan eram algumas das questões que moviam a sociedade quando do lançamento da obra.

Outro ponto é a maneira como ele é realizado. Essa é uma das primeiras obras filmadas integralmente em digital (aliás, vale registrar a qualidade ruim do arquivo disponibilizado na HBO Max, sendo o desafio da preservação do digital um tema interessante para futuros textos.) Essa escolha do diretor não foi apenas tecnológica, mas também estética, aproximando um pouco o filme de uma imersão de um found footage, que ganhava o público com o estrondoso sucesso de “A Bruxa de Blair” (1999) três anos antes.

A escalação de atores desconhecidos contribuiu para a sensação de realismo e o sucesso boca-a-boca, em uma época em que os lançamentos tinham tempo para “acontecer” nas salas de cinema. Há um pouco de acaso neste ponto, visto que papel tão marcante na carreira de Cillian Murphy quase foi para Ewan McGregor, que já havia estrelado dois bem recebidos filmes de Danny Boyle: o sempre lembrado “Trainspotting: Sem Limites” (1996) e o subestimado “Por Uma Vida Menos Ordinária” (1997). Só que eles estavam afastados após uma briga envolvendo sua substituição por Leonardo di Caprio em “A Praia” (2000), produção que marca o início da parceria entre o diretor e Alex Garland.

Nem precisamos falar da popularização da narrativa de zumbis, envolvendo criações multimídia como “Resident Evil”, “The Last of Us” e “The Walking Dead”. A trilha sonora marcante de John Murphy, aliás, inspirou o trabalho em muitas sequências e episódios do seriado da Fox, que durou dez temporadas. Lançado originalmente em uma graphic novel com a mesma premissa deste filme, partindo de um homem acordando após o início do apocalipse zumbi.

Por fim, toda essa carreira bem sucedida de “Extermínio” pelos cinemas, locadoras e televisão parecia esquecida na era do streaming. Problemas relacionados aos direitos tornaram mais difícil assisti-lo. Até que, com o início da pandemia de covid-19 em 2020, muitos cinéfilos lembraram as representações e lições da história, renovando seu público e viabilizando a continuidade da franquia anos depois.

Extermínio (2002) Crítica do Filme Apostila de Cinema

A Londres deserta é uma imagem marcante em “Extermínio”, pela qual o protagonista Jim (Murphy) vaga após acordar de um coma, vinte e oito dias após a primeira infecção pela raiva. Algo que se repetiu na vida real quando o Reino Unido (e o mundo) precisou entrar em quarentena há quase seis anos. A ideia de um vírus se alastrando em progressão geométrica e com relevante grau de letalidade não se configura um horror apenas na ficção.

Outras produções já haviam utilizado a base narrativa do último homem da Terra, sobretudo “Mortos que Matam” (1964) primeira adaptação do romance de Richard Matheson protagonizado por Vincent Price. Após o lucro do filme de Boyle, Hollywood resgatou o roteiro e o refilmou com título original, “Eu Sou a Lenda” (2007), um dos incontáveis êxitos da carreira de Will Smith.

Assistindo quase 25 anos depois, percebe-se que o britânico “Extermínio” se distanciava dos filmes catástrofes da época, sobretudo dos Estados Unidos. Parte da sua contextualização limitada pelo olhar de personagens como Mark (Noah Huntley) e Selena (Naomie Harris) também dialoga com a imersão do found footage e deixa o espectador com a sensação de perigo iminente e sem conseguir calcular os verdadeiros riscos.

É neste ponto que o texto de Garland permite o desenvolvimento de uma história que não apenas antagoniza humanos e zumbis. O filme nos envolve não a partir de um drama familiar (como ocorrerá na continuação), mas sim da constante criação de vínculos deveras frágeis, eis que podem transformar o parceiro em inimigo poucos segundos após uma mordida. A exceção está em Frank (Brendan Gleeson) e Hannah (Megan Burns), pai e filha que (aparentemente) jamais deixarão para trás esse laço. Ou não, já que na traumática cena em que perdemos Frank, um dos pontos altos do filme, Hannah terá que se adaptar ao “novo normal”.

Ao se reunirem a Jim e Selena, os quatro irão do centro de Londres para as proximidades de Manchester, na esperança de encontrarem um grupo de soldados que programou uma mensagem via rádio com as diretrizes para localizá-los. Quase um mês após a infecção, com boa parte das pessoas mortas-vivas e sem alternativas, todas as ameaças que encontrarão no caminho não diferem daquelas que derrubaram sua porta a qualquer momento.

Com esse magnético tom desesperançoso, Boyle e Garland constroem uma obra marcante e muito envolvente até hoje. Mesmo com a humanidade, dentro dos limites da Coroa britânica, perto do fim, a tirania não se limita aos zumbis. Ao se juntarem aos representantes do Exército, agindo de forma paramilitar, Jim, Selena e Hannah precisam ir além da normalização da morte.

Extermínio”, então, nos afasta dos mortos-vivos para contar uma história de opressão e violência, ampliada pelo exercício de poder em um ambiente anárquico. Isso realizado pelos próprios seres humanos contra eles mesmos. O lobo como lobo do próprio homem. Os protagonistas deixam de ser fugitivos de um vírus mortal para serem resistência em zona de guerra, com direito à exploração da mulher legitimada pela liderança de Major Henry West (Christopher Eccleston).

Assim, o fim da humanidade, de certa maneira, é transformada de grande problema em parte da solução.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.