Lições de Liberdade

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Sinopse: “Lições de Liberdade” acompanha a jornada de um professor estrangeiro que, ao aceitar um trabalho em uma escola na Argentina em 1976, se depara com um país dividido e uma classe de alunos indisciplinados. No entanto, sua vida toma um rumo inesperado quando ele resgata um pinguim em uma praia. A situação inusitada transforma sua visão de mundo, e lhe ensina as lições mais importantes sobre amizade, esperança e liberdade.
Direção: Peter Cattaneo
Título Original: The Penguin Lessons (2025)
Gênero: Drama
Duração: 1h 51min
País: Espanha | EUA | Reino Unido

Lições de Liberdade Imagem do Filme

Entre um Golpe e Outro

Chegando ao catálogo do Amazon Prime Video após passagem discreta nos cinemas, “Lições de Liberdade” é baseado em fatos e nos leva à Argentina de 1976, época do golpe militar que aprofundou as crises políticas e econômicas do país. Talvez não por coincidência, assisti na noite anterior ao início dos ataques por terra dos Estados Unidos à Venezuela, reinaugurando o período de risco de rompimento institucional na América Latina. Ou seja, 2026 não começou para brincadeiras.

No filme, Tom (Steve Coogan) é um professor de inglês bon vivant, recém-chegado à Argentina para assumir posto em uma tradicional escola britânica. Apresentado como caixeiro viajante na conversa inicial com o diretor Buckle (Jonathan Pryce, indicado ao Oscar em 2021 por “Dois Papas”). Ele já atravessou outros territórios sul americanos, incluindo o Brasil (também em período de golpe militar). O protagonista, portanto, não espera grandes desafios na carreira, apenas aproveitar a boa vida dos trópicos.

Tudo muda em “Lições de Liberdade” quando é deflagrado o golpe militar argentino, fazendo com que a escola permaneça fechada por uma semana. Tom, então, não se faz de rogado e parte rumo a uma aventura no Uruguai com o professor Tapio (Björn Gustafsson), que acaba forçadamente se tornando seu amigo. Enquanto Tom quer curtir a vida, Tapio chora o fim de seu casamento, em trama que lembra um dos melhores road movies deste séculos, “Sideways – Entre Umas e Outras” (2004).

O filme é dirigido por por Peter Cattaneo, de poucos trabalhos, incluindo o ótimo “Ou Tudo Ou Nada” (1997), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de direção em 1998 e a comédia “Unidas pela Esperança” (2019). Ao contrário da curiosa comédia noventista e alinhada à sua produção anterior, o tradicionalismo narrativo em sua parte inicial dá a impressão de que estaríamos diante de uma obra com a profundidade de um pires.

A Argentina de 1976 é apresentada nos créditos iniciais em imagens de arquivo – todas as locações do filme são na Espanha, país produtor da obra. O longa-metragem, de certa maneira, tenta se alinhar à fuga da realidade de seu protagonista. Só que, no Uruguai, Tom terá acesso a um “problema real”. Ao resgatar um pinguim, o professor terá que lidar com o apego do animal à sua pessoa. E, sim, terá que levar o improvável pet em suas andanças. A desilusão com a revelação de que iniciou um caso com uma mulher casada ajuda a aceitar esse novo escapismo.

Só que Tom terá que voltar à realidade de um país com governo ditatorial. Algumas das piadas inseridas no roteiro de Jeff Pope (indicado ao Oscar junto com Coogan em 2014 pelo texto adaptado de “Philomena”) soam bem espirituosas para nós, latino-americanos. Podemos citar a exigência de propina na fronteira para aceitar a entrada do pinguim, seguida de uma ameaça de prisão, além da recomendação de gastar todo o salário no dia em que recebeu, já que o risco da hiperinflação tornar boa parte dos seus desejos impagáveis no dia seguinte.

Uma vez que o material original são as memórias do próprio Tom Michell no livro “Uma mensagem de esperança: O que aprendi com um pinguim”, a assimilação do ambiente foi facilitada. Dentre as relevantes licenças poéticas do roteiro adaptado está a diferença da idade do protagonista (a real era 23 anos, tornando a juventude algo muito diferente do que é trabalhado), além da criação da personagem Sofia (Alfonsina Carrocio), possivelmente pelo poder de síntese de boa parte das “lições” aprendidas por Tom em meio à ditadura.

Lições de Liberdade” não tem a profundidade de um pires, mas passa longe de colocar foco nas questões políticas da Argentina. Os principais conflitos daquele espaço são apresentados, porém pouco desenvolvidos. O principal deles é o fato do professor, uma espécie de progressista não-praticante, dar aula em uma escola de potenciais famílias apoiadoras do golpe militar. Uma vertente que talvez o texto de Pope não tenha ciência do quanto dialoga com a atualidade em nosso continente polarizado e mergulhado em notícias falsas.

A pluralidade de discursos só é eficaz em ambientes democráticos, no qual se convenciona que o intolerante deve ser um pária da sociedade. O oposto do que vivemos agora, com um grupo de pessoas orgulhosas de falas carregadas de preconceito. O longa-metragem tenta inserir discussão sobre a importância da democracia em aula, valendo dos poemas clássicos que o professor utiliza para ensinar o inglês. Porém, o foco da obra é a relação com o pinguim e a maneira como este novo agente mudará a relação entre mestre e alunos, além de despertar certa consciência social no protagonista estrangeiro.

Boa parte de tal consciência é inaugurada a partir do idealismo da jovem Sofia, uma das funcionárias de limpeza da escola, representante da classe trabalhadora. O filme opta por fazer da personagem um exemplo do que acontecia com os resistentes aos regimes autoritários da América do Sul no século XX. Tal qual o Rubens Paiva de Selton Mello em “Ainda Estou Aqui” (2024), ela some sem deixar rastro, como um baque. A comparação entre a forma como sua ausência é sentida e seu peso é mal trabalhado na produção mais britânica do que espanhola já é o suficiente para apontar a diferença entre os filmes e suas receptividades no último ano.

Mesmo assim, há espaço em “Lições de Liberdade” do denuncismo a partir das Mães da Praça de Maio, agora relegado aos créditos finais. Política branda para os olhos do espectador tão preocupado em curtir a vida quanto o protagonista – e que ficará sem entender quando o silenciamento bater à sua porta.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.