Sinopse: “Living the Land” se passa em 1991, na China rural, enquanto os moradores migram para as cidades em busca de melhores oportunidades, Chuang, de 10 anos, permanece em sua cidade natal. O terceiro filho de sua família enfrenta os desafios da vida em um período de profundas transformações nacionais.
Direção: Huo Meng
Título Original: 生息之地 (2025)
Gênero: Drama
Duração: 2h 12min
País: China

Sob Todos os Domínios
O melhor filme assistido pela Apostila de Cinema em janeiro só chegará ao circuito comercial brasileiro no mês seguinte. “Living the Land”, sem dúvida, será revisto em uma grande tela assim que estrear nas salas no dia 5 de fevereiro, com distribuição da jovem Autoral Filmes. Dirigido por Huo Meng, o longa-metragem abriu a mostra competitiva do Festival de Berlim do ano passado e venceu o prêmio de melhor direção. Uma escolha nada surpreendente, dado o domínio de linguagem do realizador neste trabalho.
A história parte do olhar de Chuang (Shang Wang), menino que mora com tios e avós na China rural no ano de 1991, longe dos pais, que já fizeram o caminho natural de um país que acelerava seu processo de urbanização e de modernização do campo. Somos apresentados a uma sociedade de agricultura familiar de cultivo de trigo, feijão e algodão. Há o controle estatal sobre a produção, no início do processo de socialismo de mercado implementado no final da década de 1970 naquela que, hoje, é a segunda maior economia do planeta.
Uma época em que a oralidade ainda era relevante, com a passagem de conhecimento e preciosas informações do passado transmitidas pelos mais velhos. Uma população que desde criança está presente na lavoura, com a representação de um espaço nos dá, ao mesmo tempo, a consciência de humanidade (cada vez mais perdida) e da vinculação de pessoas à força de trabalho (cada vez mais incompreendida). Por exemplo, o tradicionalismo do casamento arranjado se mistura ao desenvolvimentismo da busca por petróleo, em um olhar panorâmico muito eficiente da obra.
Construções de espaço e tempo são destaques em “Living the Land” (assim como em “Dois Procuradores”, também assistido esta semana. Câmera e montagem são ferramentas fundamentais para, enquanto absorvemos aquelas imagens, nos proporcionar contexto – e, claro, contar uma boa história. Seja pela extensão do velório da tia-avó do protagonista, que dá início à narrativa e se estende à visita dos pais; seja a partir da informação de dificuldade de uso do calendário solar por aquela população.
A inserção (ou reinserção) cultural chama atenção no primeiro exemplo, o do velório. Quando a mãe de Chuang volta do espaço urbano, tem que lidar com a “roupa de luto” como sinal de respeito e lembrar que o rito de passagem, naquela sociedade, é um processo comunitário. Hoje sequer temos tempo de lidar com o luto. Velamos os nossos na velocidade do comércio da morte, seguindo trâmites burocráticos e a programação dos cemitérios. Muitos entes queridos só poderão se despedir em pensamento, já que a notícia da passagem costuma chegar depois dos ritos de partida.
Só que, ao adentrar aquele espaço, reconhecer os seus e vestir aquela roupa, a mãe do menino parecer criar uma reconexão imediata, comungando do choro alto, do lamento doído – e não sei dizer se o faz por performance para ser reconhecida ou se é um vínculo genuíno.
“Living the Land” também trata da política de controle habitacional da China (política do filho único, também implementada no final da década de 1970 e recentemente abandonada), naquele momento aplicando multas a quem desrespeitasse as diretrizes. Algo difícil para uma sociedade rural, de agricultura familiar e – como já disse – pensa o seu povo não apenas como engrenagens afetivas, mas também como força de trabalho. Parte da morte daquela cultura tem início na limitação de reprodução. Ao final veremos que a alternativa forçada pelo aumento das dificuldades será a migração, extirpando também o território como elemento de identificação daquelas pessoas.
A partir da abordagem do protagonista, “Living the Land” ganha outros caminhos na segunda metade. Após um incidente envolvendo a agressão a Jihua (Zhou Haotian), rapaz com questões de saúde mental nada compreendidas em uma sociedade ainda sem consciência sobre o tema, Meng vira a chave e transforma o longa-metragem em algo ainda mais próximo de um documentário antropológico.
Alguns poderão dizer que essa mudança (ou inversão, já que é mais comum narrativas que vão da leitura geral para particular) tira um pouco a força da obra e revela certa inconsistência. Particularmente entendi justamente o contrário, a maneira como a história cria uma conexão específica para ampliar o olhar é, ao mesmo tempo, imersiva enquanto experiência audiovisual e um pouco surpreendente enquanto leitura fílmica.
Até porque a coerência estética é mantida, equilibrando imagens deslumbrantes com movimentos que nos acompanham por muito tempo em uma situação – seja ela cotidiana ou extraordinária dentro daquele mundo. Huo Meng parte de um olhar da câmera que a coloca como um narrador ligeiramente distanciado, assim como boa parte dos enquadramentos. Há uma sensação de retorno àquela terra e, de certa forma, de memória afetiva selecionada.
Este diário antropológico também parece ter objetivos claros. Da saga particular de Chuang, sua saudade dos pais e, ao mesmo tempo, apego aos familiares e do local onde vive, se ergue a narrativa de um povo que precisa migrar por questões de sobrevivência. A não ser que o tempo lhe permita se transformar em cinzas daquela terra, já que fincar raízes soa cada vez mais impossível no ritmo de desenvolvimento proposto pelo seu país.
Também escrito por Huo Meng, “Living the Land” é baseado nas vivências do próprio diretor, que informa ao final que a obra também é um registro de suas memórias. Talvez por isso o ar documental seja tão presente. É até difícil imaginar que a parte jovem do elenco não tenha vivido aquele ambiente apresentado no filme, o que valoriza ainda mais as formas de representação que o cineasta apresenta e sua direção de atores. Não estamos diante apenas do domínio de linguagem audiovisual, mas uma leitura social e contato com outra cultura de forma deslumbrantemente prazerosa.
Parece simples, mas cada vez mais raro em um filme que ainda faz valer a pena a ida ao cinema.
Veja o trailer:

