Sinopse: Em meio à busca pela recuperação econômica, o governo institui colônias compulsórias, confinando os idosos para que possam desfrutar seus últimos anos de vida. Teresa, residente em uma cidade industrializada na Amazônia, surpreende-se ao ser incluída no programa quando a idade mínima é alterada. Com poucos dias restantes, Teresa decide desafiar seu destino, embarcando numa jornada pelos rios e afluentes da Amazônia para realizar um último desejo.
Direção: Gabriel Mascaro
Título Original: O Último Azul (2025)
Gênero: Drama | Ficção Científica
Duração: 1h 25min
País: Brasil | México | Países Baixos | Chile

Navegação Distópica
“O Último Azul” chegou esta semana ao catálogo da Netflix, dois dias antes do anúncio de que “O Agente Secreto” (2025) foi indicado ao Oscar em quatro categorias, incluindo melhor filme. O longa-metragem dirigido por Gabriel Mascaro era um dos cotados para ser o representante do Brasil, após sucesso em sua première mundial na mostra competitiva do Festival do Berlim, quando foi premiado com o Grande Prêmio do Júri (o Urso de Ouro foi para “Dreams”).
O filme conta a história de Tereza (Denise Weinberg), uma senhora de 77 anos que vive em meio a uma distopia brasileira. Nessa realidade alternativa – e altamente crível – os idosos são colocados (ainda mais) à margem da sociedade e, compulsoriamente, levados pelo Estado para uma colônia na qual passarão o resto de seus dias. A propaganda do governo com o slogan “o futuro é para todos”, ao contrário, nos leva a um período em que as elites vendiam o Brasil como o eterno país do futuro, enquanto maximizam seus lucros ao custo da exploração da classe trabalhadora, projeto que segue em desenvolvimento.
Com isso, “O Último Azul” tem um pano de fundo temático profundamente conectado com a contemporaneidade. O envelhecimento da população é uma questão mundial, sobretudo em países desenvolvidos. Falamos disso sobre o Japão em nossa crítica a “Depois do Terremoto” (2025), também disponível na Netflix. Só que algumas nações (e o Brasil possivelmente é a mais relevante delas) entraram na curva do envelhecimento antes de atingir o pleno desenvolvimento.
O resultado disso, nas previsões realistas, será catastrófico: em pouco tempo teremos uma população envelhecida e sem dinheiro. O esmagamento de benefícios aos aposentados, por exemplo, é uma das principais contribuições. Sou de uma geração que demorará muito a parar de trabalhar e, quando isso ocorrer, terá que sobreviver quase em sua totalidade com um salário-mínimo. Não é impossível que, diante da falência dos serviços públicos de saúde e previdência, aliados a uma ideia eugenista de “ocupação de espaço” dos idosos, testemunhemos uma política de marginalização sistematizada.
Este debate é muito interessante e a obra de Mascaro tem um início promissor, tal qual ficções distópicas como “Filhos da Esperança” (2006). A trama começa com a identificação da casa de Tereza como de uma pessoa mais velha ao ponto de ser levada às colônias, sob a desculpa de uma homenagem aos serviços prestados à sociedade. Uma tática nazista. Ela ganha uma medalha e passa a ser “patrimônio nacional”, como uma forma de registrar a perda total de sua liberdade.
Na história, a protagonista quer aproveitar os últimos dias antes do exílio forçado e fatal para realizar um sonho típico da classe trabalhadora: viajar de avião.
Os desafios de Tereza nesta distopia do roteiro de Gabriel Mascaro e Tibério Azul em “O Último Azul”, envolvem a incapacidade presumida dos mais velhos. Ao chegar aos 75 anos, a guarda dos idosos são passadas aos filhos e somente eles podem autorizar deslocamentos e compras de alto valor. A filha de Tereza, não sabemos se por genuína preocupação com a mãe, medo da opressão, conformismo com o totalitarismo ou oportunismo, joga o jogo do Estado e amarra a vida de Tereza. Ela, então, precisará se socorrer à informalidade.
Neste ponto o filme passa a ter narrativa episódica. No primeiro, Rodrigo Santoro interpreta um barqueiro contrabandista que levará a protagonista a Itacoatioca, onde ela poderá fazer um voo de ultraleve. É o momento do longa-metragem que conhecemos o caracol raro e as propriedades místicas de sua baba azul. A história passa, ainda, pelo encontro com o piloto vivido por Adanilo e com o acolhimento da embarcação Caridad, capitaneada por Roberta (Miriam Socarras).
A ideia de uma evangelização marginalizada também é promissora, com o filme seguindo para o caminho do realismo fantástico ao invés de aprofundar nessa sugestão de uma resistência religiosa – e que se revelará puro instinto de sobrevivência de Roberta. Minha questão com o filme é que todo o discurso ousado proposto pela produção não se materializa em uma criação audiovisual digna desta ousadia. Isso não anula o ótimo trabalho de provocação e sua boa recepção é compreensível a partir do olhar universalista sobre uma questão urgente. É muito eficiente no conteúdo, mas não tão competente à luz do cinema de gênero no qual se insere.
“O Último Azul” tem boas interpretações, visão de mundo distópico curiosa – mas que nunca se transforma, de fato, em algo interessante. Um drama que usa o ar de fantasia como uma sugestão e nos deixa em compasso de espera. Uma sensação de embarcação com uma carga preciosa que, no meio do caminho, ficou à deriva e não conseguiu concluir seu trabalho.
Veja o trailer:

