Sinopse: Em 1970, auge da repressão pela ditadura militar, cinco guerrilheiros presos vieram a público renegar a luta armada e elogiar o regime. Com a repercussão das declarações, o governo resolveu transformar as retratações em prática de Estado. Passou a torturar opositores para que fizessem o mea-culpa. Até 1975, cerca de quarenta presos participaram dos “arrependimentos”, como ficaram conhecidos. Os Arrependidos reconta a história pouco lembrada de ex-militantes que, muito jovens, largaram tudo para arriscar a vida por uma causa, foram presos e torturados, e viraram arma de propaganda de seus inimigos.
Direção: Armando Antenore e Ricardo Calil
Título Original: Os Arrependidos (2021)
Gênero: Documentário
Duração: 1h 23min
País: Brasil

Até Nunca Mais
“Os Arrependidos“, documentário brasileiro apresentado na mostra competitiva de longas-metragens do Festival É Tudo Verdade 2021, é – sem dúvida – uma das obras mais ousadas da edição deste ano. Não em narrativa ou inovação de linguagem. Falamos puramente de seu objeto, que toca em uma das feridas mais difíceis de cicatrizar de todo o período ditatorial brasileiro, inaugurado com o golpe de 1964. Ditadura, golpe, regime autoritário e antidemocrático. Estamos em um tempo em que definição virou opinião. História, agora, tem viés ideológico. Não tardará que novas vidas como as apresentadas aqui apareçam com discursos parecidos – talvez eles até já existam, nesse carrossel de pós-verdade em que estamos.
A produção entrevista alguns dos tais arrependidos – ou seus familiares. Pessoas que contribuíram para a resistência ao regime, seja por articulação política ou apoio em células revolucionárias de luta armada. Todos, para o governo, eram terroristas. Em maio de 1970 cinco deles inauguraram um procedimento que ratificou o apoio da mídia hegemônica aos militares. Apresentados por entrevistas concedidas à televisão, os jovens diziam não querer mais fazer parte da clandestinidade. Dali em diante, a ideia era encontrar novos convertidos e expô-los.
“Os Arrependidos” marca a estreia de Armando Antenore na direção. Ao seu lado, Ricardo Calil, de obras marcantes, incluindo a série documental “Em Nome de Deus“, disponível na GloboPlay. Ele está em dose tripla no É Tudo Verdade, trazendo de novo “Uma Noite em 67” (2010) e “Narciso em Férias” (2020) para a mostra paralela Caetano.Doc. Experiente em promover discursos contrários ao poder institucionalizado da época, a abordagem aqui permite algumas falas curiosas. Não à toa, na apresentação do filme na sessão virtual, eles deixam claro o incômodo proposital, a busca pelo olhar do outro. Citam Eduardo Coutinho e não deixam transparecer qualquer dúvida acerca do trabalho ético e corajoso.
Dito isso, há momentos em que é triste assistir ao longa-metragem. Parece que estamos materializando a parábola que nos aconselha a oferecer ao inimigo a outra face. Entre os entrevistados, há quem lamberia as botas de Médici até hoje. Talvez seja um grande desafio àqueles que misturam conceitos: representações com opinião, forma com conteúdo ou estilo com objeto. Por mais que nas bases fundantes do jornalismo e da teoria da comunicação a apuração acompanhada pela imparcialidade seja de grande valia, não sabemos precisar se o momento atual é tão receptivo a essa ideia.
Portanto, não se culpe se você odiar a obra – e também se você achá-la incrível e excepcional. Ouvir o outro lado, de maneira articulada, consciente de suas opiniões, não deixa de ser formidável. Para viver plenamente em sociedade nunca devemos deixar de ouvir o outro. Saber como as dinâmicas funcionam. Criticar sem saber o que é pode soar tão vazio quanto o absurdo de defender coisas como, vejam só, a tortura.
Parece que os cineastas, sensíveis à força de algumas falas avassaladoras, de “não arrependimento do arrependimento”, quiseram promover justiça na parte final. Deixam na montagem a divisão entre aqueles que, de fato, aceitaram que não deveriam se opor ao regime e outros que foram coagidos a fazer. Nos intervalos, as igualmente perturbadoras propagandas que faziam lavagem cerebral da parcela que ainda não tinha legitimado o golpe. Parte de um teatro que a imprensa ajudou a disseminar – e não são poucas as produções que confirmam isso (para citar uma do É Tudo Verdade deste ano, vale lembrar que ainda dá tempo de assistir “Golpe de Ouro“).
A forma como essa parte final do longa-metragem se ergue é muito forte, é muito pesada. No contraste heroico de Manuel Henrique Ferreira, viúva e filha nos lembram que a tortura não é um acontecimento apenas marcante na vida da vítima. Ela é duradoura, ela leva a consequências com os acompanham até a morte. Por fim, “Os Arrependidos” também não nos faz esquecer que essa técnica nunca acabou. Pelo contrário, culturalmente as formas de extrair informações ou manifestações pela violência física e psicológica foi romanceada. Só que, quando menos esperarmos, um torturador sobe a rampa do Palácio – ou bate na nossa porta. Se é que já não subiu, se é que já não bateu.
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