Valor Sentimental

Valor Sentimental post thumbnail image

Sinopse: Em “Valor Sentimental”, o reencontro das irmãs Nora e Agnes com seu pai distante, o carismático diretor Gustav, é marcado por uma proposta: Nora é convidada a estrelar o que seria o filme de retorno do outrora renomado cineasta. Quando Nora declina o papel, ela descobre que Gustav o entregou a uma jovem estrela de Hollywood, ambiciosa e cheia de entusiasmo. As duas irmãs são, então, obrigadas a lidar com a complicada relação paterna, agora intensificada pela presença inesperada dessa atriz americana inserida bem no centro de suas complexas dinâmicas familiares.
Direção: Joachim Trier
Título Original: Affeksjonsverdi (2025)
Gênero: Drama
Duração: 2h 13min
País: Noruega | Alemanha | Dinamarca | França | Suécia | Reino Unido | Turquia

Valor Sentimental 2025 Crítica do Filme Apostila de Cinema

Sensibilidade e Frieza

Agora disponível na MUBI, após receber nove indicações ao Oscar de 2026, o norueguês “Valor Sentimental” é uma obra que, ao mesmo tempo que soa tão simples como experiência fílmica, permite um leque respeitável de leituras, interpretações, olhares e perspectivas. Escrito e dirigido por Joachim Trier (roteiro em conjunto com Eskil Vogt), o filme tem início com Nora (Renate Reinsve), uma jovem atriz que sofre uma crise de pânico minutos antes de subir ao palco de um belo teatro para estrelar uma peça. Dali em diante, a história vagará pelo protagonismo dela, de sua irmã Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) e do seu pai Gustav (Stellan Skarsgård). Todos os três atores irão à cerimônia em março para defender suas primeiras nomeações ao prêmio da Academia.

O evento que marca a trajetória daquela família é a morte da mãe de Nora e Agnes. O resultado é o retorno do pai ausente, um renomado diretor de cinema que há quinze anos não lança um filme. Típico de pessoas como ele, Gustav é um ser humano agradável e benquisto por todos – menos pelas próprias filhas. Tenta se aproximar de Nora lhe entregando o roteiro do que ele pretende ser sua próxima produção, filmada na casa da família e que ele deixou para trás quando se separou. Diz que escreveu pensando em Nora como a protagonista. A mulher se recusa a ler.

Mudando o foco do protagonismo, a câmera de Trier em “Valor Sentimental” passa a acompanhar Gustav em uma mostra retrospectiva de sua carreira, na programação de um festival na Praia de Deauville, na Normandia. Lá ele conhece Rachel Kemp (Elle Fanning, também indicada), uma atriz norte-americana que se encanta pelo trabalho do cineasta e o convida para jantar. Com o roteiro da sua vida em mãos e diante da negativa daquela que o inspirou, oferece à ela o papel principal. Uma vez aceita, a antiga residência começa a receber visitas e ser pensada como set de filmagem.

Particularmente, a leitura que mais me interessou no longa-metragem é aquela que analisa o comportamento de Gustav. Sua filha Agnes, historiadora acadêmica, em certo momento do filme pesquisará sobre o passado da avó paterna e terá acesso aos registros de sua prisão e tortura nos anos 1940 por propaganda antinazista. Uma parte pouco conhecida do passado recente do país nórdico, cumprindo a obra a função de construção (ou revelação) de memórias. É aqui que ela, de certa maneira, entende seu pai.

Em “Valor Sentimental”, Gustav é um homem com um trauma universalista e, ao mesmo tempo, específico. Ele foi um jovem que perdeu a presença da mãe em sua fase de amadurecimento, por conta de seu suicídio. O rompimento violento e repentino da relação maternal, leva à a perda do grande referencial feminino, um buraco que o acompanhará por toda a vida. A personagem de Skarsgård, entretanto, ao mesmo tempo em que pauta seus relacionamentos pela frieza, desenvolve uma sensibilidade que o torna um talentoso diretor e roteirista de cinema.

Essa compreensão sobre o que poderia ser facilmente classificado como um “erro” do pai, não deixa de gerar em Agnes a preocupação em romper um ciclo de traumas, muito bem apresentado em bonitos flashbacks que nos mostra gerações passadas que viveram naquela casa. Ela se nega a aceitar o convite do pai para que o neto interprete o menino no filme, repetindo o que Gustav fez com Agnes quando criança. Há o medo de que o garoto crie a mesma relação com o avô que torne sua provável ausência futura em um novo drama familiar.

Já Nora terá que seguir o caminho mais difícil para chegar ao entendimento com o pai. Será necessário explorar também sua sensibilidade enquanto atriz. A interessante perspectiva do filme que Gustav quer filmar ser uma autobiografia esfumaçada e mixada, unindo a vida de sua mãe e sua filha, apontando que – mesmo à distância – para ele foi fácil saber o que se passou naquela casa no curso de sua ausência. É um entendimento acerca de sua origem. Trier teve a ideia para o filme também a partir de sua própria experiência, a concebendo quando teve que vender a casa de sua família, construída pelos avós, sendo o “filme fora do filme” também uma autobiografia.

O longa-metragem também abusa da metalinguagem e da sugestão de “filme dentro do filme” para falar da indústria audiovisual dos tempos atuais. A perda de autonomia criativa, citando a Netflix de forma expressa é o maior exemplo. Todavia, Rachel também se coloca como uma atriz em busca de legitimidade em espaços como os grandes festivais. Para ela, a sensibilidade da obra criada por Gustav vira reflexão, ao ponto de entender que certos espaços não lhe cabem.

Há questões muito particulares que me levaram à conclusão de que “Valor Sentimental” é um dos melhores filmes dos últimos anos – assim como os anteriores de Trier já haviam sido dignos de elogios. A história familiar de um trauma que faz coabitar no mesmo ser sensibilidade e frieza é um filme simples, porém de forte impacto e identificação.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.