Onde Está Meu Coração

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Leia a crítica de “Onde Está Meu Coração”, nova série da GloboPlay.

Sinopse: Onde Está Meu Coração conta o mergulho vertiginoso de Amanda (Letícia Colin), médica de classe média alta, no mundo da dependência química. Em São Paulo, nos dias atuais, entre confrontos e perdas, ela tenta entender como e por que foi tão fundo no seu abismo. Sua família e marido se agoniam com seu desequilíbrio emocional, mas, com afeto e compaixão e também com o apoio obstinado de sua mãe, vão ajudá-la a se resgatar.
Criação: George Moura e Sergio Goldenberg
Direção Artística: Luisa Lima
Direção: Noa Bressane
Título Original: Onde Está meu Coração | 1ª Temporada (2021)
Gênero: Drama
Duração: 7h 17min (dividido em 10 episódios)
País: Brasil

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Os Braços de Quem te Ama

Selecionado para exibição no Festival de Berlim, a série “Onde Está meu Coração” chegou no último dia 4 na plataforma de streaming GloboPlay como parte de uma importante missão para o serviço: reter milhões de assinantes que passaram a acompanhar seu conteúdo na esteira do sucesso do reality-show do Big Brother Brasil. Se juntando aqui na Apostila de Cinema a “Doutor Castor” e “Filhas de Eva“, estamos diante de uma obra madura, que conta em todas as fases de sua criação com parte do material humano mais experiente e talentoso da empresa.

Há que se ressaltar, antes de explorar a narrativa dos dez episódios iniciais, um ponto. Lembrando, claro, que entraremos em terrenos de spoilers, já que seria muito superficial analisar um produto deste tamanho sem revelações de enredo. O seriado protagonizado por Letícia Colin possui uma carga muito forte de gatilhos. Não costumo expor essa condição, mas – em um período tão difícil e longo no país, no contexto de diversas crises que se empilham – vale a pena a menção. Portanto, se você ainda não assistiu e se arriscou a ler esta crítica mesmo sabendo que parte da história se revelaria, saiba que os gatilhos não envolvem apenas o uso de drogas ilícitas. Relacionamentos abusivos, violência, suicídio e todo o tipo de drama pessoal e familiar são parte importante da história.

Dito isto, “Onde Está meu Coração” nos traz, com um leque curiosamente pequeno de personagens, um drama potente, envolvente, baseado em interpretações poderosas de seu elenco. A Amanda de Letícia Colin é uma médica residente que inaugura, com sua trama, uma construção de narrativa de cinco personagens com múltiplas vulnerabilidades – que não se limitam ao presente de suas vidas. A dela é o foco do episódio piloto. A pressão de ter o destino de indivíduos nas suas mãos. De ver a morte de perto, diariamente. Ainda que pensado e realizado antes da pandemia de covid-19, os debates atuais da sociedade permitem uma imersão e uma empatia maior com os profissionais de saúde. Isto porque a morte passou a fazer parte de nossa rotina também. Quem trabalha sob pressão costuma encontrar refúgio em atividades que o mantém calmos ou agitados de forma artificial e a série evoca essa condição de maneira natural.

Sendo assim, a protagonista começa a usar socialmente drogas ilícitas e se vicia em uma das mais letais e destruidoras, o crack. Infelizmente comum a médicos, caminhoneiros, jornalistas e outros ofícios que demandam longas e imprevisíveis jornadas. O espectador pouco atualizado pode criar um estranhamento sobre o crack ser, também, social. Por isso o texto de George Moura e Sergio Goldenberg explora a origem do vício. O que nos leva a Miguel (Daniel de Oliveira), marido de Amanda. O arquiteto administra melhor seu consumo, mas suas fraquezas também estão presentes. David (Fábio Assunção) e Sofia (Mariana Lima), pais da médica, parecem ter um passado digno de seus nomes. O primeiro já enfrentou um grande gigante e a segunda nos mostrará que há certos conhecimentos que a experiência traz. São ótimos personagens porque provocam no público a dúvida quase sempre. Não sobre suas intenções, mas sobre a efetividade de seus atos.

A direção de Noa Bressane, filha de Júlio sim, mas de carreira consolidada na Globo, possui a segurança necessária para um projeto desta magnitude. Com direção artística de Luisa Lima, as pontas soltas e os caminhos abertos no primeiro episódio já antecipam o que teremos que descobrir e desenvolver ao longo da temporada. Saber que a exploração sobre a origem do vício de Amanda dividirá espaço com as tentativas de salvá-la nos permite acompanhar a forma como o elenco constrói as personalidades. Até mesmo Júlia – irmã da protagonista e que demora um pouco mais a encontrar um rumo para seu arco dramático – é bem defendida por Manu Morelli. Com isso, podemos dizer que estamos diante de uma situação que parece simples, mas é rara na prática: uma obra complexa de dramaturgia onde os atores, além de bons trabalhos individuais, se alinham, encontram a química perfeita.

Veja o Trailer:

Do episódio dois em diante as ferramentas tradicionais da linguagem televisiva ganham forma em “Onde Está Meu Coração“. Flashbacks curtos trazem o passado promissor da jovem médica, justificando algumas reações. Antes da internação de Amanda (que trará a grande contribuição de Grace Passô como Dra. Célia), os conflitos familiares se inauguram na diferença de personalidade entre David e Sofia. Há um senso de urgência no personagem de Fábio Assunção, um desespero para levar a filha a um local onde ela possa se tratar. Em oposição a essa forma dura, realista, porém chocante, temos uma Mariana Lima que nos traz uma mãe que soa condescendente. Isso faz com que o próprio mistério inaugurado na frase “não vou perder mais um filho” se some ao que há por trás dos atos, as motivações que moldaram os pais de Amanda.

Aos poucos, Sofia vai sendo compreendida pelo espectador. Por sinal, as representações do passado são fundamentais para esse entendimento, outro destaque de “Onde Está meu Coração”. Apesar da forte carga de melodrama, seu texto foge das longas exposições dos diálogos de folhetim. Se o já citado (e ótimo) “Filhas de Eva” soa como uma novela ou minissérie mais curta, aqui esse tradicionalismo é de certa forma subvertido. Está mais para um longo filme. Aliás, o ideal é assistir o máximo de episódios o mais rápido possível. Não apenas para se vincular à história, mas porque há um ritmo imposto que perdura e precisa do conjunto da narrativa para ser sentido.

Porém, há um destaque dentro dos destaques. O sétimo episódio da obra é o ponto fora da curva. Bressane traz uma câmera documental de início, com depoimentos bem parecidos com a forma como Gloria Perez insere a realidade em suas tramas. O fundo do poço de Amanda parece ter chegado, em um plano-sequência assustador. Este episódio nos fará refletir sobre a reinserção de dependentes químicos na sociedade. Quase tão difícil e evitado quanto o de ex-condenados por crimes. Há uma resistência que os impede de prosseguir. Ampliar essa visão soa acertada, ainda mais em uma série que frisa sempre que possível a condição de privilegiada de sua protagonista. Fora de estereótipos que a faria sentir a reprodução de preconceitos, sua volta à comunidade será inegavelmente bem mais fácil do que outros.

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Só que o episódio não para ali. Ao revelar o passado de David, Assunção parece inserido em um diálogo. Porém, a direção o faz com uma quebra de quarta parede, que torna ainda mais potente a interpretação do ator, que já admitiu que revisitou seus dramas na construção do personagem. Viver sempre a um passo da tragédia, esse talvez seja o grande vínculo daquelas pessoas. A música de Nick Cave, “Into my Arms” é uma constante, em uma trilha sonora bem mais minimalista do que o padrão da Globo em produções do gênero.

Na questão artística, temos uma câmera na mão poderosa sempre que Amanda deixa a mania de perseguição tomar conta, reflexo das neuroses criadas pela abstinência. A perda de foco é outro recurso muito utilizado, são maneiras de auxiliar o grande e inesquecível trabalho de Letícia Colin. No complexo processo de recaídas e novas tentativas, temos ao final do episódio cinco (exatamente a metade de série) a cena mais forte, de maior grau de exigência. Sua irmã Júlia consegue se erguer com um olhar antagônico sobre várias questões, quase todas consequências do arroubo adolescente de fazer o contrário do que seus pais imaginam. Se Sofia quis ser uma mãe liberal, companheira, a filha opta pelas amarras de outra abstinência, a sexual, como forte vínculo de fé. Em uma leitura que mistura o privilégio da elite e a meritocracia como recompensa cristã, ela não compreende como Amanda pode se comportar assim. E porque os pais se importam com isso.

Talvez o grande desafio de quem assiste “Onde Está Meu Coração” é o fazer sem procurar culpados. Uma segunda temporada seria muito dura para essas pessoas, que parecem ter enfrentado suas doses de graves problemas. Todos têm suas parcelas de responsabilidades apresentadas, observadas e punidas. Todos são reflexos de traumas e das expectativas sobre o que eles devem ser perante a sociedade. Nessa lógica, aquela que surpreende, que não se abala em suas convicções, é Sofia. Por mais que todos ali sejam movidos pelo amor, provem que tem o coração no controle, ela é quem ensina a não desistir daqueles que amamos. No fim, voltar à realidade e pensar que vivemos tempos em que nos sentimos impotentes contra um mal que leva milhares dos nossos todos os dias deve ser o pior gatilho que gostaríamos de enfrentar ao final da maratona de episódios.

Ouça “Into My Arms”, de Nick Cave:


Ficha Técnica dos Episódios de “Onde Está meu Coração”:

Episódio 1 | 46min
Sinopse: Amanda se entrega às drogas e a situação foge de controle diante de uma tensa tentativa de internação armada por seus pais, Sofia e David. Miguel conhece Vivian, sua nova cliente.
Episódio 2 | 45min
Sinopse: Miguel faz uma confissão a Sofia e David que gera tensão entre eles e, após uma tensa batalha contra sua família, Amanda aceita sua internação na clínica, tendo o apoio de Sofia.
Episódio 3 | 44min
Sinopse: Amanda sofre com a internação na clínica e o fim de seu casamento com Miguel. David se aproxima de Marta, sua assistente, e Sofia enfrenta problemas na empresa, após sua ausência.
Episódio 4 | 46min
Sinopse: Amanda sai da clínica e enfrenta a difícil crise de abstinência na casa de seus pais, o que gera conflitos com sua irmã Julia. Amanda foge e quase sucumbe às drogas.
Episódio 5 | 40min
Sinopse: Após um atentado à vida de Miguel e sua demissão do hospital, Amanda não resiste e se entrega às drogas. David e Marta se envolvem cada vez mais e Julia e Eugenio se distanciam.
Episódio 6 | 40min
Sinopse: Amanda não consegue lidar com o fim de seu casamento e mergulha nas drogas mais uma vez. Vivian e Miguel se tornam sócios e, após uma crise na sua empresa, Sofia contrata Adriano.
Episódio 7 | 45min
Sinopse: Amanda tenta dar um fim à própria vida, é impedida pela família e, em um momento de lucidez, volta à clínica. David encara seu grande inimigo. Vivian e Miguel se beijam.
Episódio 8 | 45min
Sinopse: Amanda retoma sua vida após receber alta. Preocupada, Sofia conta a Julia sobre o alcoolismo do marido. Amanda busca o pai na praia e eles sofrem um acidente.
Episódio 9 | 42min
Sinopse: Amanda, Sofia e Julia se unem. Após três meses, Amanda recomeça sua vida longe do crack, após três meses. Miguel e Vivian se separam.
Episódio 10 | 44min
Sinopse: Amanda e Miguel se reaproximam, aos poucos, mesmo com as investidas de Julia no cunhado. Amanda ajuda Camila e sua filha bebê, que muda a vida da médica.

 

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Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.