Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa

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Sinopse: Chico Bento passou a vida catando goiabas na goiabeira do Nhô Lau. Mas, agora que o Dotô Agripino vai construir uma estrada que vai derrubar a goiabeira, Chico e seus amigos vão fazer de tudo pra impedir.
Direção: Fernando Fraiha
Título Original: Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa (2024)
Duração: 1h 30min
Gênero: Aventura | Comédia
País: Brasil

Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa 2025 Filme Crítica Imagem

Título

Continuando uma sequência de projetos de adaptações dos universos dos quadrinhos de Maurício de Souza em live action, “Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa” foi o primeiro êxito de bilheteria do cinema nacional em 2025, ano que ficará conhecido como “o primeiro depois do oscarizado Ainda Estou Aqui”. Ao contrário do muito criticado “Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo” (2024), a maioria se encantou e emocionou com a chegada do engraçado menino caipira as telonas. Agora disponível no Amazon Prime Vídeo, o longa-metragem dirigido por Fernando Fraiha, de fato, consegue reunir a leitura clássica do personagem com temas que sensibilizam os corações contemporâneos.

Na história, Chico Bento (Isaac Amendoim) cuida com muito carinho da goiabeira do terreno de Nhô Lau (Luis Lobianco), a ponto de adorar subir e apanhar aquelas que ele considera as frutas mais gostosas da região. No lúdico  da infância (já que em nosso idioma ludismo possui outra conotação), a árvore surge na narrativa da criança com um toque de magia. Por isso, aos olhos do garoto – e de seus colegas – a chegada de Dotô Agripino (Augusto Madeira) e seus planos de progresso não são vistas com os mesmos olhos dos adultos. É o lúdico da infância que permite enxergar a ameaça real por trás dos planos daquele empreendedor.

Mais do que partir em três a história de “Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa“, nos parece que Fraiha também muda o tom da narrativa para acompanhar a evolução da história. O início, misturando um narrador onisciente com uma quebra de quarta parede do protagonista, tem os contornos das boas obras infantis. Dialoga, inclusive, com aquela que até hoje é a grande adaptação em live action da turma mais famosa, o “Turma da Mônica: Laços” (2019), porém adicionando ainda mais elementos de conexão como um teatro ilustrado à introdução da história, em uma espécie de circo mambembe.

A ideia de transformar o filme é um grande “causo” de Chico Bento não apenas detém as crianças em um primeiro momento, mas dá aos mais velhos referências que também os mantém presos ao longa-metragem. Há uma tradição do próprio Cinema Brasileiro em nos dar a companhia do sertanejo irreverente, sobretudo por um dos grandes pilares do nosso audiovisual mais popular na figura de Mazzaropi. Existe, sim, inúmeras zonas de conforto, tanto pela nostalgia provocado pela própria obra de Maurício de Souza, mas também por nos inserir em um contexto que parece querer resgatar uma comédia inocente pouco usual nas últimas décadas.

Após o arco introdutório nostálgico e infantil, a criação do conflito com a chegada de Agripino permite outras abordagens. Na mais interessante delas, Chico Bento se permite o discurso direto contra o progresso sem responsabilidade, em questionamentos como “que mundo é esse que troca goiabeira por asfalto?“. Porém, o grande embate da obra não será a simples oposição à vilania do personagem de Madeira. Chico e seus amigos terão que convencer os adultos a se oporem à derrubada da goiabeira, que o empresário diz ser necessária para a passagem de uma estrada.

Esse talvez seja uma das grandes dificuldades do nosso tempo. Mais difícil do que chegar a uma ação concreta, está a necessidade de mobilização. É chegar a um entendimento de que ir contra uma atitude aparentemente de consequência limitada, é agir em prol de um bem maior. No roteiro do mesmo Fraiha ao lado de Elena Altheman e Raul Chequer, a desculpa para descredibilizar o grupo resistente é o fato delas serem crianças. Na vida real, são outros os motivos para que boa parte de nós permaneça em certo estado de letargia com o que ocorre em volta. Em “Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa” os adultos passam todo o tempo repetindo que há muito mais vantagem em “perder” uma árvore, sem se preocuparem entender se há necessidade daquela providência.

O embate sustentabilidade x progresso desenfreado soa até um pouco datado, inclusive porque muitos já trabalham com uma realidade em que essa guerra foi perdida e, portanto, o dilema está ultrapassado e superado. Gosto de acreditar que ainda é possível que uma obra voltada às crianças pode trazer esse tema, formando antes tarde do que nunca uma geração mais consciente. No último terço do filme, saímos do lúdico e nostálgico, passamos por um desenvolvimento de conflito carregado de bons discursos, e chegamos à proposta onírica de simbiose entre humanidade e natureza, a partir das inserções animadas e tecnológicas de um Chico Bento ainda mais conectado com suas raízes.

Nessa fase do longa-metragem, o cineasta flerta com uma solução ao mesmo tempo é utópica e carregada de esperança. “Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa” articula muito bem a premissa simples de nunca abandonar uma (aparente) pequena batalha, revelando não apenas que os fins não justificam os meios, mas também denunciando que o fim proposto seria tanto destruidor quanto ineficiente. Ao não se limitar a uma defesa simples do tradicional e do cultural, vendendo apenas a manutenção do bem-estar e das raízes daquele grupo, se torna uma obra ainda mais inteligente. E nos permite depositar nas crianças e no futuro as remotas chances de um mundo melhor.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.