Marty Supreme

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Sinopse: Na Nova York dos anos 1950, Marty Mauser, um jovem com um sonho que ninguém leva a sério, passa por provações extremas em sua busca pela grandeza.
Direção: Josh Safdie
Título Original: Marty Supreme (2025)
Gênero: Drama | Esporte
Duração: 2h 29min
País: EUA | Finlândia

Marty Supreme 2025 Crítica do Filme Apostila de Cinema

Campeão Mundial dos Tolos

É bem possível que “Marty Supreme” fique marcado daqui a algumas semanas como o filme que tirou o Oscar de melhor ator de Wagner Moura, visto que Timothée Chalamet, intérprete do protagonista, vem ganhando tração na temporada de prêmios – além de ser um “cria” de Hollywood. Seu trabalho no longa-metragem dirigido por Josh Safdie é, de fato, muito marcante, até o momento o mais importante de sua carreira.

O filme conta a história de Marty Mauser, jovem que deseja levar adiante seu sonho de ser campeão mundial de tênis de mesa, atividade que lutava não apenas por espaço, mas também por reconhecimento como um “esporte sério” no início dos anos 1950. O estudo de personagem desta produção será provavelmente um dos mais frutíferos da temporada, já que a história contada é ancorada em fortes aspectos da personalidade, do passado e das atitudes do protagonista.

Em “Marty Supreme” somos levados pela narrativa de um anti-herói que não sabe dosar sua obstinação, sendo capaz de remover qualquer obstáculo com sua persistência que se transforma em arrogância e insensibilidade. Judeu de família pobre na cidade de Nova Iorque, após o fim da Segunda Guerra Mundial, Marty não sente nenhuma culpa ao aplicar golpes ou exagerar em falsas promessas para fazer valeu seu plano. Para além da ousadia, os traços fortes de narcisismo são tão aparentes que é desta maneira que, em uma das cenas mais fortes do filme, ele é definido por Rachel (Odessa A’zion).

Aliás, a jovem atriz californiana é outro destaque do longa-metragem. Casada com outro, porém amor antigo de Marty, a sequência inicial mostra o dia em que Rachel engravida do amante, elemento fundamental para a narrativa. Safdie, também roteirista ao lado de Ronald Bronstein, entrou no radar das temporadas de premiações com o impressionante “Jóias Brutas” (2019). Seu mais novo filme, desta vez sem a parceria com o irmão Benny, dialoga com a produção anterior em linguagem.

“Marty Supreme” prima pela frontalidade, tanto visual quanto narrativa, ao apresentar sem filtros seu protagonista, muitas vezes com a câmera o encarando de frente. O ritmo do filme é propositalmente instável e possui forte conexão com as situações apresentadas e o momento de suas personagens. A montagem é mais frenética quando precisa manter o espectador em alertar, se valendo do desenvolvimento de trama em um crescendo. Assim como na obra estrelada por Adam Sandler, nas situações-limites (não necessariamente um clímax), o espectador parece que vai perder o ar. Um envolvimento emocional cada vez mais raro no Cinema contemporâneo, sobretudo o estadunidense, que enclausurou boa parte de sua criatividade no modelo de produção da A24 (não à toa o estúdio do filme).

Inclusive, um elemento muito bem desenvolvido é o narcisismo de Marty. Um jovem que entende toda resposta negativa como um boicote. Isso pauta sua relação com a mãe (participação especial em raro papel dramático de Fran Drescher), o tio e sua oferta de trabalho na sapataria, a associação esportiva que representa o tênis de mesa norte-americano, o potencial patrocinador e até mesmo o grande rival no tênis de mesa, responsável pela derrota no torneio que ele disputa na Inglaterra.

Neste cenário entra em cena Kay Stone (Gwyneth Paltrow) veterana atriz de Hollywood casada com um rico empresário, Kevin (Kevin O’Leary). A ousadia de Marty o levará a um caminho sem volta ao se tentar, ao mesmo tempo, ser amante da esposa e negociar um contrato de patrocínio com o marido. A partir daí a maneira de derrotar o narcisista aparece: o combate precisa envolver a retirada de poder (ou da sensação de poder) do jovem.

O longa-metragem também consegue articular seu contexto histórico com a realidade do tempo de sua produção. A revanche da derrota no Reino Unido deverá ocorrer no campeonato mundial de tênis de mesa, que acontecerá em Tóquio. O ano de 1952 marca o fim da ocupação japonesa pelas tropas dos Estados Unidos, com o objetivo de enfraquecer o poderio militar e permitir uma revolta constitucional e democrática do país derrotado na Segunda Guerra Mundial. Com isso, o torneio será ao mesmo tempo um gesto político e uma possibilidade de entrada de capital norte-americana no Oriente.

Todavia, o que antecede o evento é uma ideia muito parecida com o (este sim) boicote cultural e esportivo sofrido pela Rússia desde sua invasão à Ucrânia – vendo seus atletas impedidos de disputar torneios em defesa da bandeira de sua nação, além de exclusão direta dos times russos de futebol de torneios da UEFA e da seleção de pleitear uma vaga para a Copa do Mundo.

Um paralelo curioso e que surge nos cinemas em um momento delicado, no qual os Estados Unidos governados por Donald Trump voltam a se comportar como donos do mundo, adentrado territórios como a Venezuela para levar à força seu Presidente, além de exigir da mesma OTAN posicionamentos sobre o projeto de indexar a Groenlândia ao país.

Ao mesmo tempo, a personalidade de Marty, que tem entre seus amigos sobreviventes do Holocausto (com uma referência direta ao mesa tenista polonês Alex Ehrlich), também emula o modus operandi dos Estados Unidos. Mais do que ter poder, o objetivo do jogador é a dominância. Uma ambição desenfreada e que torna desinteressante tudo o que ele entende que não consegue alcançar. A própria relação dos estadunidenses com os esportes também possui essa característica, ao ponto deles chamarem os ganhadores de suas principais ligas de “campeões mundiais”.

No tênis de mesa, o desenvolvimento de escolas orientais que revolucionaram o esporte pode ser creditado com um fator de afastamento (extensível a boa parte do Ocidente) de uma atividade que, se eles não dominam, consequentemente não tem graça. À exceção, vale citar, é o Brasil com atletas que já marcaram seu nome na história do tênis de mesa, como os Hugos, Hoyama e Calderano.

Por outro lado, o roteiro, inspirado vagamente na vida de Marty Reisman, com sua viagem ficcional ao passado, também permite se debruçar em questões modernas do esporte. É como se Marty fosse um visionário ao tentar o autofinanciamento, uma luta constante de atletas em esportes individuais, além de pleitear investimento de organizações dentro do próprio país e viabilizar a carreira através de patrocínio. Porém, o crescimento depende da construção de vencedores, algo complicado em um país que não aceita o segundo lugar.

Com essa junção de experiência fílmica emocionante, questões históricas e políticas que conectam passado e presente para interessados no assunto, abordagem que faz fãs de esporte se aprofundarem na interpretação, reitero que “Marty Supreme” tem como cereja do bolo o grande estudo de personagem. Para o homem que acha que o mundo o tratará como eterno menino, o remédio que não lhe deram quando era criança. Na sanha narcisista, o maior troféu será o de campeão mundial dos tolos.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.