A Queda do Céu

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Sinopse: A partir do poderoso testemunho do xamã e líder Yanomami Davi Kopenawa, o filme “A Queda do Céu” acompanha o importante ritual fúnebre, Reahu, que mobiliza a comunidade de Watorikɨ num esforço coletivo para segurar o céu.
Direção: Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha
Título Original: A Queda do Céu (2024)
Gênero: Documentário
Duração: 1h 48min
País: Brasil

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Esquecimentos e Lembranças

A Queda do Céu” é uma das estreias brasileiras de fevereiro na Netflix, seguindo uma tendência já observada em “O Último Azul” (2025) e “A Natureza das Coisas Invisíveis” (2025). Adquirindo de forma agressiva obras selecionadas para os principais festivais europeus, a plataforma de streaming mais popular do mundo, na tática de tubarão, tenta sufocar outros serviços, pautados pela disponibilização de obras fora do eixo e a partir de um olhar curatorial. O problema é que, na Netflix, documentários como este – dirigido pela renomado Eryk Rocha, ao lado de Gabriela Carneiro da Cunha (em sua estreia na função) – ficam misturados e, de certa forma, escondidos até o público-alvo.

Claro que a presença no catálogo mencionado tem o poder de levar o longa-metragem a uma quantidade muito maior de espectadores. Na análise bruta, provavelmente o público que dará play no filme será infinitamente maior do que se ele estivesse na MUBI ou Filmicca, por exemplo. Portanto, enquanto veiculação de discurso que defende os povos originários, sua presença nesse espaço é louvável. Ainda mais sob o olhar de Eryk, que tem experiência em representações que buscam desvendar narrativas periféricas, como tratamos em nossa crítica a “Edna” (2020).

O que não podemos ignorar é que “A Queda do Céu”, mesmo tendo como fonte primária o livro do protagonista Davi Kopenawa Yanomami (junto ao antropólogo francês Bruce Albert), não deixa de ser uma leitura branca sobre território e população yanomami. No contexto de uma Cinema Brasileiro com obras que já nasceram fundamentais como “Yãmĩhex: As Mulheres-Espírito” (2019) e “Nũhũ Yãg Mũ Yõg Hãm: Essa Terra é Nossa!” (2020), de Isael e Sueli Maxakali, as escolhas de montagem de Renato Valone (parceiro de Rocha em outros trabalhos) são parte de uma construção de discurso. Isso não tira a força do documentário, pelo contrário, é parte da sistemática de um audiovisual plural.

Na cena mais interessante do longa-metragem, um dos entrevistados fala sobre a incansável curiosidade dos descendentes de colonizadores registrarem vídeos sobre a vida dos povos originários. Contrapõe essa ideia com as diversas formas de genocídio e apagamento dos indígenas no Brasil. Cita diretamente os missionários (esmagamento pela cultura e religião), os militares na ditadura militar (esmagamento pelo progresso) e os garimpeiros (esmagamento pela tomada, exploração e destruição do território). Fica, na fala daquele senhor, a sensação de que ele parece cansado deste documentação.

A experiência de sessões como “A Queda do Céu”, uma obra branca, é a de “registro para a posteridade”. Ciente de que nada que é feito parece romper com o desejo de extinguir os povos originários, o audiovisual branco é cada vez menos denuncista, sob a desculpa de ser antropológico. Até por isso, obras realizadas pelos indígenas são muito mais eficientes em todos essas objetivos, incluindo, a apresentação de um rito cultural – se compararmos “Yãmĩhex: As Mulheres-Espírito” com as cenas envolvendo o reahu, por exemplo.

Veja, a abordagem que relaciona a morte do último xamã na Terra com a queda do céu, próxima a uma leitura cristã do juízo final, é bem desenvolvida. A primeira cena, de quase dez minutos, apresenta o grupo de yanomamis em uma longa caminhada até a câmera. Uma ideia de distanciamento dos documentaristas, ao mesmo tempo em que inverte a premissa de invasão àquele território. Logo depois, é apresentado o conceito que condiciona a existência dos xamãs ao céu se manter seguramente acima de nós.

Na morte de um deles, a mistura entre discurso político de Davi Kopenawa Yanomami (mencionado a pequena população de 28 mil yanomamis) e amostragem de um importante rito daquela sociedade. No reahu, não apenas o corpo do próprio xamã é cremado, mas também todos os passos que ele seguiu. Apagamento consciente, a maneira de lidar com o luto de um líder a partir de um processo de esquecimento. Já na comunicabilidade, Eryk e Gabriela equilibram falas que registram o conhecimento passado pela oralidade, com imagens de observação e transmissão via rádio da chegada de garimpeiros.

Neste ponto, o Estado brasileiro é lembrado. Ao contrário dos discursos pecuarista e agricultor, a proteção de terra yanomami passa longe de seguir o caminho da violência. No filme, a solução para a invasão é “tratar com os órgãos competentes” – e nem precisa dizer o que acontece quando estão no poder aqueles sem qualquer interesse em defender as raízes da terra e os povos originários.

Na consciência de um genocídio de mais de cinco séculos e que parece findar apenas com o extermínio total, as personagens de “A Queda do Céu” denotam certo conformismo na ausência de perspectiva. Lembram do passado – recente e distante – e como missionários, militares e garimpeiros, mais do que ameaçar de forma direta a vida dos yanomamis, trazem doenças e contaminação. Momento em que o filme de descendentes de colonizadores, perto do fim, opta pela escuridão como se antecipasse um futuro de falas sem imagens. O que acabará levando, forçosamente, os progressistas a novas bandeiras.

Veja o trailer:

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.