A Despedida

A Despedida Blackbird Crítica Filme Pôster

Sinopse: Em “A Despedida”, uma mãe em estado terminal convida sua família para sua casa de campo para uma última reunião, mas as tensões rapidamente fervem entre suas duas filhas.
Direção: Roger Michell
Título Original: Blackbird (2019)
Gênero: Drama
Duração: 1h 37min
País: EUA | Reino Unido

A Despedida Blackbird Crítica Filme Imagem

Em mais uma estreia de 2021 com lançamento simultâneo nas salas de cinema e principais plataformas de streaming sob demanda (a decisão mais acertada economicamente dentro da situação incontrolável a qual estamos), “A Despedida” reúne três gerações de atrizes sob o comando do experiente diretor Roger Michell. Ao resgatar temas comuns a dramas familiares e adicionar a questão do suicídio assistido, o filme abre possibilidades tanto em relação as dinâmicas entre personagens de um fechado núcleo sentimental, até a abordagem sobre a difícil escolha por esse tipo de eutanásia e os conflitos internos e éticos dos envolvidos.

O cineasta já usou a velhice como mote em “Venus” (2006), produção que rendeu indicação ao Oscar a Peter O’Toole, o eterno “Lawrence da Arábia” (1962). Todavia, inegavelmente o trabalho de direção mais famoso dele ainda é a comédia romântica “Um Lugar Chamado Notting Hill” (1999), apenas terceiro longa-metragem de sua carreira. A inventividade nunca foi o forte de Michell, que conduz os atores de forma a não correr riscos na exploração do que os envolve.

Porém, aqui ele surge com uma proposta de linguagem. O filme conta a história dos últimos dias de Lily (Susan Sarandon) que, com uma doença que a fará vegetar em pouco tempo, opta por morrer de forma consciente. Suas filhas, Jennifer (Kate Winslet) e Anna (Mia Wasikowska) viajam para a propriedade dos pais com seus companheiros, companheiras e filhos para a despedida do título. Roger, então, cria nas imagens uma espécie de ritual fúnebre nas primeiras cenas do grupo reunido. Amplia o olhar da câmera e mostra, da ponta dos cômodos, uma visão geral daquele espaço. É uma recepção fria, que começa a se quebrar com aproximações que dão um sensação de estarmos adentrado aquela intimidade – até chegarmos na câmera na mão. Só que isso não se sustenta no longo prazo, esse exercício de traçar uma convenção para a obra escapa na montagem da experiente Kristina Hetherington.

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A construção de personagens em “A Despedida“, como não poderia deixar de ser, tem a qualidade do trabalho de Sarandon e Winstlet. A segunda, por sinal, tem um dos momentos mais marcantes, logo no início. Ao criticar o marido por ter buzinado de forma animada antes da chegada da mãe (já que estamos no início de uma experiência de chegada da morte), ela repete – instantes depois – a atitude, como que celebrando a vida quando a protagonista chega. A vida demanda essas representações, comportamentos que precisam ser maquiados para trazer algo de esperança e confiança a quem amamos. Nesses pequenos gestos, o filme traz momentos tocantes, em um gênero que chega perto do desgaste, pela releitura que a produção norte-americana faz com frequência.

O longa-metragem está mais perto de exemplares medianos como “Tudo em Família” (2005) do que grandes destaques como o clássico “Laços de Ternura” (1983). Muito porque a administração e distribuição da narrativa pelos personagens não é tão equilibrada. A Anna de Wasikowska possui sequências com potência dramática, como a dúvida da irmã acerca de sua sexualidade e a não aceitação do ar festivo com o qual seus parentes estão reunidos. Há um foco em Lily, papel de Sarandon, que faz do trabalho de Mia pouco aproveitado – de se lamentar porque poderia ser um dos melhores de sua carreira.

Sua Anna materializa o peso das frases mal trocadas entre família. Tendemos a achar que jogamos palavras ao vento porque aqueles que amamos não absorverão certas críticas. Ela, então, se torna um exemplo contrário, demonstrando que parte de sua fuga é motivada pelo medo de novas mágoas. Um rancor que ela não pode expressar em sua plenitude, porque é acompanhado também de amor.

Em relação a forma como o suicídio assistido é tratado, pouco há a ser dito. O texto de Christian Torpe trata enquanto fato consumado quase até o fim. Uma reviravolta na trama leva “A Despedida” para um caminho um pouco estranho, uma sacada de tragédia folhetinesca que parece saída de uma novela mexicana. É quando a junção da direção de Michell e a montagem de Hetherington desandam, com cortes e closes na cena – que deveria ser o clímax – que inventa um sensacionalismo onde não precisava. Porém, dali em diante o filme se reencontra com o tom ritualístico. Talvez tarde demais para emocionar muito, mas o suficiente para fazer refletir sobre a forma como tratamos aqueles que amamos.

Jorge Cruz Jr. é crítico de cinema associado à Abraccine e editor-chefe da plataforma Apostila de Cinema.

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