Artigo | 15º Prêmio Abraccine
Um Registro dos Vencedores
Já passou o tempo em que o planejamento era de publicar um artigo na Apostila de Cinema às quintas-feiras, distanciando da newsletter – que vai ao ar todas às segundas. Um dos principais desafios de críticos de cinema é que a “independência” quase sempre é refletida na busca incessante por equilibrar a produção de conteúdo crítico com trabalhos reais, remunerados – e, como é o meu caso, distantes do audiovisual. Por isso, cá estou na madrugada do domingo de Carnaval trazendo um tema que permite refletir ainda mais sobre este ofício.
Quem acompanha a Apostila de Cinema desde seu lançamento, em maio de 2020, percebeu o hiato, variando com pequenas janelas de críticas lançadas, a partir de 2023. Falei um pouco disso no artigo de relançamento, que foi ao ar no primeiro dia de 2026 (e que você lê clicando aqui). Expliquei, ainda, que o primeiro objetivo era manter uma rotina básica de assistir filmes e escrever sobre eles – e não havia tempo para “tirar o atraso” ou “reparar injustiças” com estreias dos últimos anos. Agora é o momento de olhar para a frente e concentrar os esforços no que há de novo nas salas de cinema e plataformas de streaming.
Essa situação me levou a uma votação pessoal pouco representativa no 15º Prêmio Abraccine, a qual sou filiado há quase dois anos. O pouco visionamento de obras, a ausência em festivais e questões pessoais e profissionais em 2025 me levaram a uma lista nada aprofundada dos lançamentos, sobretudo os internacionais. No futuro e incerto artigo sobre o Oscar talvez eu mencione os motivos que me levam a achar “Pecadores” (2025) melhor do que “Uma Batalha Após a Outra” (2025) – apesar de Paul Thomas Anderson ser um dos meus cineastas favoritos em atividade.
No dia 5 de fevereiro, no canal da Abraccine no YouTube, foram reveladas as três produções vencedoras do prêmio. Mais adiante, foram divulgados nas redes sociais da associação o top 10 de cada categoria. Porém, antes do registro, trago um pouco dos ganhadores nos anos anteriores na categoria longas nacionais.
Artigo | 15º Prêmio Abraccine
Histórico Abraccine
A Abraccine foi fundada em 2011, a partir de uma vontade de reunir críticos e críticas de cinema de todas as regiões do país. Já existiam associações estaduais, sendo a do Rio de Janeiro, por exemplo, co-filiada à Fipresci até hoje. Porém, diante de um cenário mais conectado e com a pulverização da produção pela internet, tomou-se o caminho natural de nacionalizar os debates.
O momento da criação da Abraccine já apresentava desafios para a crítica de cinema. Assim como tudo o que a internet tocou, o que começou como uma ideia de democratização e possibilidade de crescimento em fontes autônomas ou alternativas se transformou em precarização de trabalho. Órgãos de classes muito maiores não conseguiram até hoje encontrar remédio para valorização profissional (nem mesmo a outra a qual sou filiado, a de advogados, sendo a OAB como uma entidade com mais de um milhão de inscritos, face os menos de 200 da Abraccine).
A transição das mídias tradicionais, impressas e de rádio e TV para os sites e blogs parecia, no início do século XXI, o melhor dos mundos. Um movimento que proporcionaria pluralidade de vozes e linguagens, permitiria a criação de nichos, como a crítica mais academicista ou mais analítica. Na Era de Ouro da crítica de cinema, o surgimento de revistas online como a Contracampo e depois a Cinética, entre outros veículos mais próximos do jornalismo cultural, mas com personalidade como AdoroCinema, Cinema com Rapadura e Omelete, gerou tensões positivas na categoria. Aliás, papo para um outro artigo.
Apesar da dificuldade de valorização do ofício, há um legado muito relevante a partir da organização da Abraccine e sua atuação até os dias de hoje. No mercado editorial, com livros que resgatam a história do Cinema Brasileiro e da crítica, em oposição a pagamentos de gênero ou regionalistas é um grande exemplo. O fomento ao debate, seja na formação de júris em festivais ou presença em mesas e na incansável cobertura de mostras pelo país, muitas vezes de forma 100% independente. Sem contar o anúncio anual dos melhores filmes, nas categorias longas e curtas brasileiros e longas estrangeiros.
Uma divulgação que, em algumas situações, refletem o óbvio, registrando aquelas produções que passaram com louvor pelas salas de cinema. Em outras, apresentam uma obra pouco vista, cumprindo a importante função curatorial da crítica. Analisar a lista de vencedores dos últimos catorze anos nos revela escolhas que soam um pouco envelhecidas, enquanto outras refletem um olhar profissional sobre a qualidade técnica de obras, por vezes subestimadas na época de suas estreias.
Artigo | 15º Prêmio Abraccine

Entre os longas brasileiros, as três vitórias anteriores de Kleber Mendonça Filho por “O Som ao Redor” (2013), “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019) é a prova de que o realizador – que migrou da crítica de cinema – tem o respeito de seus ex-pares. Há uma marca de autoria em Kleber, inserido no contexto da produção nacional e latino-americana, que a internacionalização de seu trabalho nos festivais europeus parece não abalar. Por outro lado, estar presente nesses espaços é um elemento fundamental, como falarei melhor ao tratar dos finalistas de 2026.
A marca de autoria de Cláudio Assis também merece destaque – no auge de produtividade da Apostila de Cinema fiz um especial com os filmes lançados por ele (e que você lê clicando aqui). Passados treze anos da vitória de “Febre do Rato” (2012), polêmicas envolvendo o cineasta e certo envelhecimento de suas representações, pode ter tirado um pouco da força de suas obras para alguns, apesar dos excelentes tour de forces que seus filmes promovem serem lembrados por outros.
Por outro lado, “Que Horas Ela Volta?” (2015), dez anos depois de vencer como melhor longa brasileiro, segue inabalável em seu discurso. As escolhas de linguagem de Anna Muylaert ao contar a história que virou um marco do período de ascensão da classe trabalhadora a partir das políticas de distribuição de renda dos governos do PT, permitem à crítica de cinema defender o filme para além de sua temática. Um equilíbrio que parecia mais simples naquelas safras, em produções como “Benzinho” (2018) (que não venceu no ano de seu lançamento) e que hoje não é tão fácil de encontrar.
Dentro da função curatorial já citada, o Prêmio Abraccine registra três vencedores aqueles que, possivelmente, estarão na lista de cinco ou dez melhores produções da última década para uma grande parcela da crítica. “Arábia” (2018), “Sertânia” (2020) e “Cabeça de Nego” (2021) têm textos publicados por mim na Apostila. O primeiro já com sucesso estabelecido, lançado na pandemia pela Embaúba Play. Os outros dois são “filhos” do próprio período pandêmico e tiveram sessões em festivais online da época.
“Sertânia”, último filme de Geraldo Sarno, aparece para mim na deliciosa maratona do Festival Ecrã de 2020. Já “Cabeça de Nego”, até hoje insuperável dentre todas as quase 800 produções nacionais com críticas publicadas no site, foi parte da seleção da Mostra de Cinema de Tiradentes de 2020.
Minha parceira de Apostila, Roberta Mathias, registrou o vencedor de 2022, “Marte Um” (2022). Apesar de assistir – e concordar com a escolha da Abraccine – “Mato Seco em Chamas” (2023), do grande talento Adirley Queirós, ao lado de Joana Pimenta, não teve texto publicado. Mas está programada uma retrospectiva da obra daqiele, assim que conseguir tirar a ferrugem na produção de conteúdo, inclusive reeditado um artigo sobre o cineasta escrito para a finada revista Rosebud.
Entre os vencedores não citados acima, estão: “Transeuntes” (2011), “O Lobo Atrás da Porta” (2014) e “Martírio” (2017).
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O Peso das Escolhas
Chegamos ao ano de 2025, o primeiro em que fii votante do prêmio. Ali se estabeleceu uma discussão interessante e muito salutar sobre a responsabilidade das nossas escolhas. Era inegável a força de “Ainda Estou Aqui” (2024), que saiu como grande vencedor ano passado e em vias de se tornar a primeira obra do país vencedora do Oscar de melhor filme internacional.
Todavia, assim como a safra deste ano, a lista de excelentes filmes brasileiros permitia uma escolha diferente. A grande concorrência ao longa-metragem de Walter Salles era “O Dia que Te Conheci” (2023), dirigido por André Novais Oliveira e mais um lançamento primoroso da Filmes de Plástico. Uma produtora (que também merece um artigo próprio), completando quinze anos de ótimos filmes e que nunca foi vencedora do troféu da Abraccine.
No final, o realizador foi reconhecido pelo curta “Quando Aqui” (2024), porém a maioria dos votantes optou por não romper com a trajetória estabelecida de “Ainda Estou Aqui” como a grande produção do ano. No fim, há uma boa dose de política em todas as escolhas da vida. Entendo que o risco do estranhamento causado por uma possível ausência de chancela da maior associação de críticos do Brasil falou mais alto.
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Os Ganhadores de 2025
O 15º Prêmio Abraccine repetiu a mensagem do ano anterior. Em um ano com ótimas produções, o troféu foi para o destaque internacional “O Agente Secreto” (2025), o quarto ganhador com direção de Kleber Mendonça Filho. Como já foi expressado, o foco da Apostila são as estreias a partir de janeiro de 2026. Portanto, não tive a oportunidade de tecer minhas opiniões sobre a obra – e o farei assim que ele chegar ao catálogo da Netflix em março, quando poderei revê-lo.
Entre os dez finalistas, o reflexo da dificuldade da crítica de cinema estar presente em mostras e festivais. Isso explica a inclusão de “O Filho dos Mil Homens” (2025) de Daniel Rezende no top 10, muito por conta do lançamento dentro da mesma Netflix, somada à falta de disponibilidade – cada vez mais grave – dos membros votantes. A mesma plataforma de streaming também deu uma segunda vida ao bom “Homem com H” (2025) de Esmir Filho, biopic de Ney Matogrosso – que nesta madrugada esteve na Sapucaí desfilando como enredo da Imperatriz Leopoldinense.
Aqui cito o primeiro dos três filmes com crítica na Apostila, “O Último Azul” (2025), de Gabriel Mascaro. Unindo a boa receptividade do Festival de Berlim com a facilidade de acesso na Netflix tornou inevitável sua presença entre os finalistas. Particularmente, não me empolguei tanto com as representações de “O Último Azul” em comparação com outras produções brasileiras que assisti nos últimos meses.
Assim como outro finalista do Prêmio Abraccine, o faroeste “Oeste Outra Vez” (2024), de Erico Rassi, que em mim não gerou tanta comoção (ou conexão). Respeito os argumentos sobre a celebração dos estudos de personagem acerca da masculinidade tóxica, se servindo de um gênero canônico do Cinema. Porém, não identifiquei nada disruptivo a ponto de considerar um dos destaques do ano.
Se tivesse o poder de substituir uma dos filmes assistido, talvez colocasse “O Último Episódio” (2025) de Maurílio Martins no lugar de “O Último Azul” ou “Oeste Outra Vez”. Outra obra-prima da Filmes de Plástico, um coming of age belíssimo. Porém, sem o timing para o debate, fica aqui como registro simples.
Dois longas entre os dez dialogam a partir do diagnóstico de Alzheimer da matriarca de uma família para apresentar narrativas singelas e com mapeamento social e territorial potentes. Um acaba de chegar na Netflix e é uma das críticas mais recentes da Apostila de Cinema, “A Natureza das Coisas Invisíveis” (2025), de Rafaela Camelo. Mais um exemplo de presença em grande festival (o de Berlim), aliado à facilidade de acesso à plataforma de streaming.
O outro é meu voto como melhor filme brasileiro lançado no ano passado: “Kasa Branca”.
Assistido em abril de 2025, a estreia de Luciano Vidigal em longas de ficção terminou em 2025 insuperável. Na minha crítica trato sobre essa mistura tão característica que forma o bom audiovisual brasileiro, atravessando questões como territorialidade e ancestralidade a partir de uma narrativa recheada de universalismos. “Kasa Branca” é mais um exemplo de obra com potencial para se conectar tanto com o espectador doméstico quanto com os tapetes vermelhos dos maiores festivais e prêmios do setor. Entre os lançamentos do ano que passou, nunca tive dúvidas de que era meu favorito.
Outro destaque é “Manas” (2024), de Marianna Brennand. Porém, já tratei extensamente sobre o filme em artigo do mês passado, que você lê clicando aqui. Na lista da vergonha, os dois filmes que fecham o top 10 não consegui assistir: “Baby” (2024), de Marcelo Caetano; e “Os Enforcados” (2024), de Fernando Coimbra.
A lista dos dez melhores longas internacionais, além do ganhador “Uma Batalha Após a Outra”, é formada por: “Dreams” (2024), de Dag Johan Haugerud; “Foi Apenas um Acidente” (2025), de Jafar Panahi; “Levados pelas Marés” (2024), de Jia Zhangke; “The Mastermind” (2025), de Kelly Reichardt; “Misericórdia” (2024), de Alain Guiraudie; “Pecadores” (2025), de Ryan Coogler; “A Semente do Fruto Sagrado” (2024), de Mohammad Rasoulof; “Sorry, Baby” (2025), de Eva Victor; e “Valor Sentimental” (2025), de Joachim Trier. O último fará parte da minha maratona de Carnaval, já que acaba de chegar na MUBI.
O melhor curta brasileiro foi “A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero”, de Rodolpho Barros. Sem tempo para me dedicar à categoria, obviamente não votei. Tentei assistir ao vencedor para redigir uma crítica e manter uma tradição da Apostila de Cinema (do Velho Testamento) de prestigiar a produção em curta-metragem, mas não foi mais possível. Este é um gargalo que, sem a presença em festivais, somente se resolve com o Prêmio Abraccine e o acesso dos votantes aos filmes. O artigo de 2027, sem dúvida, será bem diferente neste sentido.
A lista dos dez é formada também por: “Boiuna”, de Adriana de Faria; “Casulo”, de Aline Flores; “Como Nasce um Rio”, de Luma Flôres; “E Seu Corpo é Belo”, de Yuri Costa; “Laudelina e a Felicidade Guerreira”, de Milena Manfredini; “O Faz Tudo”, de Fábio Leal; “O Mapa em que Estão Meus Pés”, de Luciano Pedro Jr.; “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, de Felipe Casanova; e “Samba Infinito”, de Leonardo Martinelli.
Sobre o último realizador da lista, fica como dica final uma entrevista em duas partes realizada por mim e Roberta quando Leonardo Martinelli estava em campo com o ótimo “Copacabana, Madureira” (2019) (veja a parte um aqui – e veja a parte dois aqui). Um #tbt mesmo sem conseguir manter a promessa de publicar o artigo de quinta no dia certo.
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