Sinopse: Um ator e um político vivem um caso em sigilo e, juntos, descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. À medida que se aproximam do sonho da fama, mais intenso se torna o desejo de se colocarem em risco.
Direção: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon
Título Original: Ato Noturno (2025)
Gênero: Suspense | Drama
Duração: 1h 57min
País: Brasil

Códigos e Condutas
Sucesso no Festival de Berlim 2025, quando foi exibido na Mostra Panorama, a produção brasileira “Ato Noturno” chegou essa semana nos cinemas do país. Mais do que um thriller erótico, a obra escrita e dirigida por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon problematiza algo que vai além da simples hipocrisia da sociedade. Traz o debate acerca da personalidade pública, algo antes direcionada a algumas pessoas e agora extensível a todos nós.
O filme é centrado em Matias (Gabriel Faryas), jovem autor prestes a estrear uma peça de teatro ao lado de Fábio (Henrique Barreira). Uma montagem contemporânea, libertária e que tem uma cena final a ser definida pela dupla: todo espetáculo eles precisam decidir quem fará o monólogo final, após uma luta que levará ao chão um deles. Esse conflito não existe apenas na ficcionalidade. Apesar de serem colegas de apartamento, Matias e Fabio demonstram, desde o início, certa rivalidade entre eles.
As dificuldades em conseguir oportunidades na carreira já é o suficiente para surgir essa busca por ocupar o mesmo espaço. Natural e também universal, mas com tintas mais fortes em posições nas quais a imagem é fundamental. Quando uma produtora aparece para oferecer um teste ao colega de cena, Matias fará de tudo para ter a mesma chance de fazer parte do elenco de uma série de televisão, passo importante para aumentar sua visibilidade.
O protagonista de “Ato Noturno” está há pouco tempo em Porto Alegre, vindo do interior do Rio Grande do Sul. Entre os desafios para ascender na carreira, está o de se virar com as ameaças de um centro urbano. Só que a sensação de insegurança também é acompanhada pelo desejo de explorar. Sendo assim, Matias procura a facilidade dos aplicativos de relacionamento e conhece Rafael (Cirillo Luna), alguém que converte as possibilidades do anonimato da cidade grande e da tecnologia para o seu prazer.
No filme, de construção narrativa lenta, o sexo não é apenas uma arma dos personagens e isso faz com que nunca seja uma muleta narrativa. As motivações de Matias e Rafael, no início tão parecidas, se polarizam ao ser apresentado os anseios políticos do segundo. O ator, ainda novo em Porto Alegre, não reconheceu o promissor candidato a prefeito. Com isso, um novo conflito é criado, pela visão preliminar de Matias sobre a hipocrisia de Rafael, que não assume sua sexualidade para não afastar potenciais eleitores.
O roteiro de Matzembacher e Reolon, entretanto, nos leva a caminhos bem mais profundos do que a leitura simplista de outros tempos. Em uma sociedade em que somos obrigados a ter personalidade pública, registrando (ou simulando) nossos passos em redes sociais para existir, nem mesmo o protagonista de “Ato Noturno” estará a salvo da necessidade de uma, digamos, proteção. Todos nós queremos ser vistos e se impôs uma urgência pela aceitação e legitimação. Sendo assim, tudo o que é mostrado enquanto imagem é uma projeção sempre calculada do que “queremos transmitir”.
Não podemos definir Rafael de maneira reducionista e chamá-lo de vilão ou antagonista de Matias. No jogo de influência e poder, há espaço para grandes benefícios – desde que você esteja sujeito a jogar conforme as regras. Mas, quem define as regras? Contra quem você joga? A manutenção do sigilo de um relacionamento acaba gerando um conflito provocado e nunca real. Atualmente, somos sempre projetos de futuro, nossas comunicações com o mundo tem um toque de autopromoção – sem que nunca seja possível definir o momento da conclusão. Ou seja, não existe o conceito de sucesso se não há fim e cada passo é mais um degrau de uma escada infinita.
“Ato Noturno” explora essas questões a partir de ideias subjetivas da sociedade, como o “eleitor conservador” ou a “cláusula de conduta” imposta por um patrocinador preocupado no monitoramento das redes sociais do elenco de uma série. Ano passado, aliás, uma produção milionária, “Emilia Pérez”, perdeu um caminhão de Oscars (também) por conta disso. Já a dupla de realizadores gaúchos segue sua jornada de reconhecimento. Além da Berlinale, seu longa-metragem venceu quatro prêmios no Festival do Rio de 2025: ator para Gabriel Faryas, roteiro, fotografia (este para Luciana Baseggio) e o prêmio Felix, dedicado a obras com temática LGBTQIAPN+, de melhor filme.
Na trama, Fabio ganha força novamente quando ele passa a não ter muito a perder. Fica fácil vender a ideia de ser quem quiser, uma utopia que a visão preliminar de Matias entendia como oposição à hipocrisia de Ricardo. Não há mais fuga das aparências. Aliás, na carreira de ator nunca teve – e podemos imaginar que há décadas era ainda pior.
Enquanto linguagem, há uma flagrante divisão entre thriller erótico e drama social, com predileção dos realizadores em destacar o primeiro aspecto, com a clara intenção de surpreender parte do público com o segundo. Uma oposição à forma como os protagonistas precisam lidar com suas personas, explorando a sexualidade e a corporalidade do elenco. A tática deu certo em um dos festivais mais importantes do mundo, com sessões lotadas a partir de tal provocação.
Porém, o que parece funcionar melhor no filme é mais o estudo de personagens do que as representações de gênero. Por óbvio, a trama se conecta a partir da relação entre Matias e Ricardo, mas em dado momento fica a sensação de carência em explorar mais a temática social. Isso não torna o longa-metragem desinteressante, até porque ele assume que essa questão é um pano de fundo para uma estética bem definida da obra.
Essa consciência dos realizadores é o grande destaque de “Ato Noturno”. Não se aprofundar em aspectos muito interessantes do roteiro em nome da estética é, nos dias de hoje, algo muito corajoso. No tempo em que o tema parece se sobrepor às possibilidades audiovisuais, deve ser vangloriado o caminho a favor da linguagem original do Cinema. Ainda mais quando o sexo é muito mais do que uma arma.
Veja o trailer:

