Sinopse: Em “Família de Aluguel”, um ator americano em Tóquio consegue um emprego incomum: trabalhar para uma agência japonesa de “parentes de aluguel”. No contato com os clientes ele cria laços genuínos e moralmente complexos que borram as linhas entre a performance e a realidade.
Direção: Hikari
Título Original: Rental Family (2025)
Gênero: Drama | Comédia
Duração: 1h 49min
País: EUA | Japão

Vivendo uma Mentira
Em cartaz nos cinemas brasileiros e curiosamente ignorado na temporada de premiações, a mistura de drama e comédia “Família de Aluguel” parece desenhada para agradar os votantes do Oscar do Velho Testamento. Utilizando o intercâmbio cultural entre Estados Unidos o Japão, com formatação e frescor parecidos com obras como “Minari: Em Busca da Felicidade” (2020) e “A Despedida” (2019), ainda conta roteiro e direção da promissora Hikari, seis anos após seu trabalho anterior, “37 Segundos” (2019), destaque no Festival de Berlim.
O filme conta a história de Philip (Brendan Fraser), ator norte-americano que reside há quase uma década no país oriental, procurando trabalho na sua área. Em uma brincadeira de inversão de papéis, ele sofre o mesmo mal que artistas estrangeiros sentem na América do Norte: o estereótipo limitador. Assim como Ke Huy Quan, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante por “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” (2022) citou várias vezes em entrevistas, as oportunidades são sempre vinculadas à sua etnia e passam longe do protagonismo.
O protagonista de “Família de Aluguel” parece ter as mesmas dificuldades da biografia de Noel Gugliemi, que ficou marcado por sempre interpretar o traficante latino chamado Hector. Neste contexto, ele aceita a proposta de fazer o papel do “americano triste”. Ao chegar no local da prestação de serviço em meio a um velório, ele descobre se tratar de uma empresa que vende experiências aos seus compradores, simulando situações reais com atores. No caso deste trabalho de Philip, o próprio morto fez um pedido de inventar o velório falso para ter a oportunidade de testemunhar a tristeza e discursos emocionados de seus entes queridos.
Muitas das impressões deste longa-metragem lembram “Depois do Terremoto” (2025), que assisti há algumas semanas na Netflix. O cenário apresentado é de uma sociedade japonesa com questões de saúde mental que mostram o resultado de uma cultura baseada no excesso de disciplina e voltada ao trabalho. É muito arriscado fugir do padrão, além de nunca ser prioridade o desenvolvimento de relações afetivas profundas. As famílias de aluguel são, de fato, oferecidas por empresas iguais à do longa-metragem no Japão desde os anos 1980.
O trabalho seguinte de Philip reflete muito isso. Ele precisa atuar como noivo de uma jovem lésbica que deseja proporcionar aos pais a felicidade de vê-la casar tradicionalmente com um homem. Neste ponto, o protagonista entende que há diferença entre a simples fuga da realidade e a simulação que leva a um tipo de libertação. Porém, essas tintas são bem misturadas na mente dos contratantes dos serviços da empresa pela qual passa a trabalhar, em um caminho perigoso de desenvolvimento do afeto que eles tanto carecem.
Como se não bastasse o potencial de uma narrativa emocionante, o texto de Hikari ainda faz a bifurcação mais apelativa possível: coloca Philip para simular ser pai de Mia (Shannon Mahina Gorman), menina que tenta entrar em uma escala tradicional do Japão que não contempla a monoparentalidade; e um jornalista fazendo reportagem sobre a carreira de Kikuo (Akira Emoto), veterano ator que vive triste aposentadoria achando que está esquecido pelo público e pela mídia.
A construção inicial da realizadora é muito eficiente, não apenas pelo dilema do protagonista continuar uma carreira estereotipada e contratações através de cotas, mas também pela mistura de sensação entre choque cultural e identificação daquela sociedade pautada pela solidão, enquanto imigrante. Já a ideia de vida simulada para Mia e Kikuo com ajuda das pessoas próximas não é nova e está presente em outras narrativas sobre a fantasia da vida real, como em “O Show de Truman: O Show da Vida” (1998).
Os caminhos que o filme tomará também são bem óbvios e envolvem a criação de vínculos entre Philip, a menina e o senhor, além do embate entre o trabalho bem feito e a relação de consumo entre os contratantes daquela experiência simulada por uma empresa. Ao final, as motivações pessoais do protagonistas e a maneira como ele também precisa lidar com a perda, transforma seu ofício em um grande rito de passagem.
Apesar disto, “Família de Aluguel” ganha o espectador porque, afinal de contas, é uma ótima história. Fraser, também de carreira resgatada após ganhar o Oscar com “A Baleia” (2002), é o ator perfeito para um filme que equilibra muito bem a comédia e o drama, sem nenhum exagero ou cenas dessincronizadas com a trama proposta. Terminamos a sessão refletindo sobre a sugestão de que vivemos relacionamentos programados para ter data para acabar ou como nossas experiências sociais, mesmo não simuladas, muitas vezes também possuem prazo de validade.
Veja o trailer:

