Sinopse: Em “O Fio Invisível”, Amanda está traumatizada e longe de casa. Um menino chamado David começa a fazer perguntas a ela, tentando fazer com que ela recupere a memória. Ela não é mãe dele, e ele não é filho dela. Com o tempo se esgotando, ele tenta ajudá-la a desvendar uma história impressionante de ciúme obsessivo, perigo invisível, e da força do amor de uma mãe.
Direção: Claudia LLosa
Título Original: Distancia de Rescate (2021)
Gênero: Drama | Thriller | Terror
Duração: 1h 33min
País: Chile | Espanha | EUA

Não Pecar nos Detalhes
Escolhido como representante do Chile para as indicações ao Oscar de melhor filme internacional em 2022, “O Fio Invisível” chegou à Netflix com muita expectativa para os admiradores de produções do gênero e aqueles que gostam do trabalho da escritora argentina Samanta Schweblin. Um dos motivos é a presença de Claudia Llosa no projeto, dirigindo e adaptando o texto literário. Ela, que em 2009 surpreendeu a muitos quando seu segundo longa-metragem “A Teta Assustada“, com o qual venceu o Urso de Ouro do Festival de Berlim e garantiu a primeira nomeação da Academia ao Peru, possui diálogos com a autora enquanto forma em conteúdo.
No audiovisual latino-americano, que reúne questões que nos afetam ancestralmente em conjunto às agruras contemporâneas, é até um pouco difícil diferenciar o realismo fantástico de uma simples licença poética para contribuir metaforicamente com uma situação. Em entrevista quando veio ao Brasil para a Bienal do Livro em 2012, a própria Samanta evitava rótulos, aduzindo que a anormalidade (chamemos excepcionalidade) dos fatos que ela apresentava não a conectaria diretamente com nomes como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar.
E talvez porque estamos falando de mais uma seara da sociedade que foi, por séculos, dominados por homens e suas questões e diagramações quase sempre binomiais e necessariamente contrapostas. Ela também traz em sua fala que inúmeros paralelos e leituras dadas às suas obras guardam pouca relação com seus intentos. Portanto, vale reiterar (algo que deveria estar sempre subentendido pelo leitor) que nenhuma das minhas percepções são esgotantes e, nem ao menos, respostas de perguntas ou ousam ganhar o status de “certas”.
O que a cineasta faz, então, é demarcar uma narrativa que poderia soar confusa há muitos abrindo leques de interpretações no prólogo e no epílogo. No restante do tempo, o menino David avisa mais de uma vez: os detalhes, atenção aos detalhes. É com ele e Amanda (María Valverde) que uma das três linhas temporais, que se cruzam, é formada. Entretanto, uma linha que saberemos que ficará no campo da projeção. Ela não é materializada com imagens e nos leva a crer que só existiu em uma hipotética prestação de contas de uma mãe em seu Juízo Final particular.
Para quem gosta do recheio da fantasia e do terror, “O Fio Invisível” soa de forma bem parecida com outras produções da Netflix. Principalmente “A Nuvem” (2021), produção francesa que explora ainda mais a crise ambiental como pano de fundo. No texto da argentina, a protagonista viaja com sua filha Nina (Guillermina Sorribes Liotta) para uma nova cidade, tentando recomeçar. Com um toque de desapego ao tradicionalismo, como se observa quando se vale de uma canção do espetáculo “Hair” para ser a trilha sonora dessa jornada, na letra que fala de desapego de materialidades. Quando passa por um lago, avista pela primeira vez o menino com quem conversa – podendo ser essa a segunda linha do tempo, mais próxima do que podemos chamar de presente.
Até que ela conhece Carola (Dolores Fonzi), com quem faz amizade na eterna necessidade de associação que todos nós temos. Na terceira linha do tempo, essa mulher contará sobre um passado sombrio envolvendo seu casamento e o que a levou a dividir a alma de seu filho em dois corpos na tentativa de salvá-lo. Dentre as inúmeras questões que o filme nos traz, a ideia de que “essência” é algo possível de ser encapsulado ou movido em nossos afetos é uma das principais. Somos levados por um caminho que vincula Carola a uma mãe que renega, que abandona.
Talvez por isso o diálogo entre Amanda e David ganhe, na parte final da obra, um caráter mais inventado do que projetado na sua origem. Porém, algo ali é verdadeiro: o conselho do menino de se atentar aos detalhes. Llosa promove os grandes avanços da narrativa em pequenos gestos, atitudes que tornam parte das verbalizações algo, digamos, menor. Ela quebra expectativas a todo o tempo, como na vez em que conduz o espectador a um suposto antagonismo: a mãe que não reconhece o filho frente à estranha que desenvolve pelo garoto uma empatia – que vira, também, negligente.
No flashback de Carola sobre seu relacionamento abusivo, um cavalo é parte importante da trama. A diretora faz um jogo de sombras em dois momentos. No primeiro, captando o sexo entre animais. No segundo, com seu marido em cima de uma escada, escovando o bicho. Nessa segunda, ela alinha os corpos para dar a impressão de que vemos um centauro, figura mitológica que convive entre domar a sua virilidade, sua força cega com o ímpeto de bondade. Quase sempre ele surge nas narrativas fantásticas pelo olhar de medo para se tornar um aliado, revelando grandes intenções.
Carola (talvez) não possui a força de um centauro e precisa da ajuda de uma curandeira (Cristina Banegas) para fazer a divisão de alma de David. Na construção de imagens desse processo de salvação – que acontecerá novamente mais adiante – a realizadora apresenta um líquido e cor e consistência do amniótico. Aliás, o design de produção de Estefania Larrain (de grandes trabalhos recentes como “Neruda” de 2016 e “Uma Mulher Fantástica” de 2017) é fundamental para que as representações aqui não nos leve para o “simples” caminho de terror baseado no estranhamento. O líquido, então, é parte desse encaminhamento que dá às mães o poder de escolha, ao mesmo tempo que traz sua dose de sacrifícios. N
o encontro com as mudanças de uma sociedade que pulveriza veneno em seu alimento, a Humanidade virou, também, provedora da morte – em larga escala. Portanto, se para muitos a reprodução da mulher enquanto ser de difícil entendimento vinculou o feminino através do tempo às esfinges, um demônio de destruição (em um corpo que a mistura a um leão), Llosa nos aproxima de um centauro, criaturas fortes e sábias. Mais do que nossos olhos conseguem identificar, mesmo seguindo o conselho de David de nos atentar aos detalhes. Com isso, “O Fio Invisível” abre debates sobre o ciclo da primeira infância e a primeira mudança de personalidade das crianças. Sobre não reconhecimento e pertencimento e como os traumas seguem afetando até aqueles que não contribuíram para isso.
Na mesma entrevista em 2012, quando elegeu como sua referência Adolfo Bioy Casares e elogiou Clarice Lispector, Samanta Schweblin intuiu que uma produção audiovisual de seus escritos deveria ser interativa. Ela é daquelas contadoras de histórias que deixa lacunas para que o leitor a preencha, algo que o público dos filmes ainda vê como desabonador às vezes. Apesar de uma construção de narrativa muito esmerilhada e traços fortes de autoria, Claudia Llosa deve receber críticas nesse sentido. Deixa a exploração do terror e da introspecção em uma narração projetada e no prólogo, telegrafando o pesadelo de Amanda.
E deixa os homens protagonizarem o epílogo, com todo o atraso e indiferença que nos é típica. “O Fio Invisível” talvez não equilibre tão bem as metaforizações de novos nascimentos, intenções velada, sacrifícios e formas de lidar com a culpa. Faz escolhas sutis, não apenas de usar as não-palavras como dar estilhaços de imagens para manter a proposta de David de exigir que nenhum detalhe passe. No fundo, um convite para projetarmos os nossos limites na proteção de quem amamos, aqueles que nos conectamos eternamente por um fio – independente da localização de nossos corpos e almas. A ironia é que, mesmo querendo romper essa associação, a adaptação de Samanta pode soar quase tão enigmática quanto uma esfinge.
Veja o Trailer:


